OPINIÃO

Réquiem para Fabiana

A última lembrança que guardo da Fabiana é de um porre de felicidade numa noite mágica em São Paulo como há muito eu e ela não passávamos. Fabi tinha chegado a poucos dias na cidade para morar com Ricardo, Pablo e Sofia. E eu estava de volta, naquela tarde, de uma empreitada surreal em Buenos Aires, ainda anestesiado com a cobertura da vitória de Alberto Fernandez e Cristina Kirchiner na corrida presidencial Argentina. Era 30 de outubro de 2019

Havia me programado – fazia quase um mês – para assistir a um show – e que show ! – de Tony Tornado cantando Tim Maia, no Sesc Pompeia. Fabiana me ligou na véspera, perguntou o que eu ia fazer e disse a ela que só teria olhos e ouvidos para Tony e banda. Mas que dividiria com ela o tempo e as atenções, como bom e modesto amigo que era.

Naquela mesma tarde, antes de irmos ao show, decidi comprar um violão. E lá fomos nós bater em Pinheiros, indicação dela, para escolher meu companheiro de solidão. Ainda deu tempo de me apresentar a casa onde gostava de comer empanadas na região e, claro, visitar a charmosa livraria da Vila Madalena.

Fabiana era daquelas pessoas que quando você pensava em convidar para alguma farra ela não só topava como chegava primeiro e ainda reclamava da sua demora.

Fui devidamente uniformizado com uma camisa verde comprada na galeria do Rock cuja estampa é uma silhueta do bom e velho Tim. Conseguimos entrar no show mesmo sem ingressos – essa história dá outra crônica – e ficamos lá embevecidos com aquela lenda desfilando um a um o repertório do Sebastião.

A gente se olhava como quem não acreditasse. Era uma mistura de emoção com incredulidade. Ríamos juntos e aqui e ali escapavam umas lágrimas indecorosas.

Fabi já estava numa luta insana contra um câncer, mas entre nós aquele era uma espécie de assunto proibido. Falamos o básico. Não bebeu uma gota de cerveja naquela noite. Nem precisava. Nós e o restante do público entramos todos num êxtase coletivo. Tentamos conversar sobre o show após o bis do Tony, mas não conseguimos. Era como se a gente não acreditasse naquela história, naquela noite, naquele fim, naquela despedida.

Cada um pra sua casa, prometemos nos ligar, combinar outra farra. Ela estava montando a casa nova com Ricardo e as crianças e já pensava na inauguração. Aí vieram os compromissos, o fim do ano, a pandemia. E mais do que a pandemia, veio aquele descompromisso de sempre deixar para depois o que nos é urgente.

Como gostar de estar junto, de rir junto, de tomar cerveja junto, de estar perto, de perguntar como anda a vida. Porque amar é urgente e os amigos também são. As noites, as manhãs… as madrugadas então nem se fala.

Fabiana tinha uma urgência de escrever, de fotografar, de ler, de viajar, de falar, de viver. E precisamos admitir nosso fracasso – mais um entre tantos – quando nos damos conta de tudo isso só quando a morte olha pra gente como quem diz: “ei, menino, urgente também é meu sobrenome, visse ?!”

E o que de tão urgente fizemos esse tempo todo que nos faltou um fiapo de tempo para ligar, trocar uma mensagem que fosse, ouvir, rir ou chorar ? O que nos faz ter essa certeza, meio arrogante, meio prepotente, de que quem controla o tempo somos nós, quando é ele que nos enrola o tempo todo ?

Em “Resposta ao tempo”, Aldir Blanc fala sobre esse poder que o tempo tem de nos fazer de otários. Tal qual um sujeito matreiro, malandro, sacana e sabido.

Minha amiga descansou porque o tempo dela era outro. E enquanto perdíamos o nosso precioso tempo com miudezas da vida – aliás, uma vida vivida numa eterna luta contra o tempo – Fabi fez carreira e voou. Se encantou.

O avião de onde escrevo esta crônica sobrevoa São Paulo agora. Gostava tanto de você, ouço no inconsciente Tony Tornado cantar em homenagem ao amigo Tião Maia.

Pois é, Fabi.

Vou morrer de saudade…

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Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"