CULTURA

Entre o frágil e o concreto: cultura perde o poeta, jornalista e escritor Anchieta Fernandes

Anchieta Fernandes I Foto: reprodução Fundação José Augusto

O Rio Grande do Norte perdeu neste domingo (16), um de seus grandes nomes na cultura. O jornalista, poeta, escritor e amante do cinema, Anchieta Fernandes, morreu aos 83 anos, em Natal, vítima de um ataque cardíaco.

A irmã de Anchieta me contou que ele estava razoavelmente bem. Há quatro dias se sentiu um pouco mal, com algo nos rins, foi para o hospital, onde dormiu duas noites com a cuidadora. Na segunda à noite a menina disse que ele estava passando mal. O médico tentou socorrer, mas não teve jeito. É uma coisa impressionante porque a gente pensa que o coração mata só quem é obeso, tem isso e aquilo né…”, lamenta o amigo de longa data e editor, Abimael Silva.

Anchieta Fernandes nasceu em Caraúbas, região seca do Alto-Oeste potiguar, mas veio para Natal na década de 1960, ainda jovem, quando entrou para a turma que, mais tarde, faria uma revolução na literatura potiguar com o Poema/ Processo. Além de funcionário do jornal “A República”, onde se aposentou, Anchieta Fernandes também fundou os periódicos “O Popular” (1953), “O Juvenil” (1955), “Juventude” (1960) e “Lolita” (1987-1990).

Anchieta Fernandes entre amigos (é o segundo da esquerda para a direita) I Foto: Reprodução da Revista Brouhaha
Anchieta Fernandes entre amigos (é o segundo da esquerda para a direita, é o de camisa branca) I Foto: Reprodução da Revista Brouhaha, ano III, número 09 de 2007

Apesar de só ter estudado até o segundo ano do ensino primário, Anchieta Fernandes foi autodidata e um dos poucos a conhecer tão bem nossa arte.

“Lamento muito porque não foi só o Rio Grande do Norte que perdeu uma grande figura, o Brasil perdeu um dos maiores estudiosos da vanguarda e um dos expoentes mais importantes do movimento Poema/ Processo. Ele está ao lado de Moacy Cirne como aquele teórico do Poema/ Processo. Eu imaginava na minha cabeça que Anchieta fosse viver mais de cem anos, porque ele foi sempre magrinho, com aquele corpinho, não bebia, não fumava, não dormia tarde, não comia coisa gordurosa, era todo saudável”, comentou por telefone o amigo Abimael Silva, editor do Sebo Vermelho, que tem uma série de publicações de Anchieta Fernandes.

Livro de Anchieta Fernandes
Livro de Anchieta Fernandes

Quem visse aquela figura baixinha, magrinha e de fala mansa, sem conhecê-la, não faria ideia que o estereótipo escondia, na verdade, um verdadeiro agitador. Anchieta Fernandes escreveu alguns livros que hoje são considerados clássicos.

“Tive 40 anos de amizade com Anchieta Fernandes. Em 1987 fiz um jornal chamado ‘A Franga’, e ele tinha uma coluna nesse jornal. Depois fiz um jornalzinho do Sebo Vermelho e, desde o início, ele tinha uma coluna sobre literatura do Rio Grande do Norte. Então, desde o início do Sebo me tornei muito amigo desses de frequentar a casa e viajar”, relembra Abimael.

Além das colunas que manteve durante anos, saiu pelo Sebo Vermelho, em 1992, o livro “Écran Natalense: Capítulos da História do Cinema em Natal”, no qual Anchieta Fernandes trata não apenas de cinema, mas da história da cidade, abrangendo a período histórico que vai de 1895 à 2010. Uma segunda edição, revista e ampliada, foi publicada na sequência. Outro livro de Anchieta publicado pelo sebo Vermelho é ‘Literatura do RN – Livros Selecionados”.

Livro de Anchieta Fernandes
Livro de Anchieta Fernandes

Além desses, Anchieta também publicou: “História da Imprensa Oficial do Rio Grande do Norte”, “Ler Quadrinhos, Reler Quadrinhos RN”, “Feminina Infantis” e “Por uma Vanguarda Nordestina”, que teve duas edições.

Muita gente também não sabe, mas o poema/ processo “Olho” (1967) se tornou referência e foi até citado em livros didáticos por todo país.

Essa juventude de hoje não tem a menor noção de quem foi Anchieta Fernandes, de sua importância e vanguarda Norte-Riograndense. Alguém tem que fazer alguma coisa pra ele não ser mais um esquecido na nossa província porque basta lhe dizer que ele tem um poema visual chamado “Olho” que consta em dezenas de livros de publicação nacional, inclusive, didáticos”, ressalta Abimael.

Esse mesmo poema também teria “inspirado” a marca visual utilizada atualmente pela LG, empresa sul coreana de eletrônicos e eletrodomésticos com atuação internacional.

A LG, indiscutivelmente, copiou o “Olho” de Anchieta, que é de 1967 e essa logomarca veio a surgir há 30 anos”, defende o editor do Sebo Vermelho.

Poema "Olho" de Anchieta Fernandes
Poema “Olho” de Anchieta Fernandes

Memória nem tão concreta…

No país da memória curta, a história não é muito diferente no Rio Grande do Norte. Um esquecimento contra o qual Anchieta Fernandes tanto lutou em suas pesquisas.

“Anchieta sabia mais do que todos esses acadêmicos daqui. Se você conversar com qualquer pessoa que mexa com escrita, ela vai dizer ‘Anchieta era uma pessoa ímpar. Ele fez diferença’. Eu espero que o Rio Grande do Norte, que essas instituições culturais, tenham dois dedos de respeito com a memória de Anchieta Fernandes como teórico da vanguarda, crítico literário e estudioso da história do Rio Grande do Norte, reconheça o trabalho de Anchieta e faça alguma coisa em prol dele, seja uma escola, biblioteca ou uma rua”, defende Abimael Silva.

As fundações culturais Capitania das Artes (do município) e José Augusto (do estado), publicaram nota de pesar e lamentaram a perda de Anchieta Fernandes.

Livro de Anchieta Fernandes
Livro de Anchieta Fernandes

 

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