CIDADANIA

Mortes em decorrência da aids crescem quase 20% no RN em 10 anos; 11 mil fazem tratamento do HIV

Ao contrário do que se pensa e as autoridades de saúde esperavam, a mortalidade em decorrência da do HIV/aids está crescendo. Nos últimos dez anos, o Rio Grande do Norte registrou um aumento de 19,4% nos óbitos relacionados à doença.

De acordo com boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), de janeiro de 2011 a dezembro de 2021, foram 1.404 óbitos por aids no estado. Desses, 72,9% ocorreram em homens e a faixa etária predominante foi a de 40 a 49 anos (29,5%). Maior concentração de óbitos foi observada na 7ª região de saúde (54,2%), que inclui Natal, Parnamirim, São Gonçalo do Amarante, Extremoz e Macaíba.

De janeiro a outubro de 2022, foram registrados 127 óbitos relacionados à aids, valor semelhante ao registrado no mesmo período do ano passado. Nesse intervalo de tempo, foram registrados 590 novos casos de aids e 782 de infecção pelo HIV, revelando um aumento no registro de casos de 29,1% e 42,5%, respectivamente, quando comparado com o mesmo período de 2021.

Nos últimos 10 anos, foi verificado um crescimento de 39,5% no registro de casos de aids, 39,3% nos casos de infecção pelo HIV e 74% no número de casos de gestantes infectadas.

Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (30) pelo Programa Estadual de IST, Aids e Hepatites, junto de Nota de Alerta aos municípios potiguares com recomendações sobre o Dezembro Vermelho e Dia Mundial de Luta Contra à AIDS, 1º de dezembro.

O documento recomenda que os municípios realizem ações de mobilização, adotando estratégias para facilitar o acesso da população aos preservativos (feminino e masculino) e ao diagnóstico precoce da infecção pelo HIV, oferecendo a testagem rápida para detecção do vírus.

“As atividades de prevenção devem ocorrer durante todo o ano em um processo contínuo e o Dia Mundial é um momento oportuno para a intensificação das ações, quando é possível fazer uma grande mobilização social para relembrar a importância do combate à doença e despertar na população a consciência da necessidade da prevenção, reforçando que a resposta à epidemia é responsabilidade de todos”, ressalta a nota.

De acordo com a Agência AIDS, aproximadamente 960 mil pessoas estão vivendo com HIV/aids, sendo que quase 700 mil estão em tratamento. No Rio Grande do Norte, cerca de 11 mil pacientes realizam tratamento. Existem 14 Serviços de Assistência Especializada (SAE) distribuídos nos municípios de Natal, Parnamirim, Macaíba, São Gonçalo do Amarante, São José de Mipibu, Santa Cruz, São Paulo do Potengi, Caicó, Mossoró e Pau dos Ferros.

E o tratamento dessas pessoas está ameaçado. O Ministério Público Federal (MPF) apura os impactos decorrentes do corte orçamentário promovido pelo governo Bolsonaro nos programas relacionados à saúde das pessoas com HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, como as hepatites virais.

Só na distribuição de medicamentos para essas doenças, o Ministério da Saúde perdeu R$ 407 milhões quando comparados os orçamentos propostos para 2022 e 2023. Se somadas, as perdas de recursos nos 12 programas da pasta chegam a R$ 3,3 bilhões.

Perfil dos infectados

A maioria dos casos, entre 2011 e 2021, ocorreu em indivíduos entre 30 e 39 anos (31,1%). Nos homens, observou-se maior variação na faixa etária de 13 a 19 anos (184%) e, nas mulheres, na faixa etária de 60 anos e mais (150%).

A principal via de transmissão, no período analisado, foi a sexual (53,5%).

Quando distribuídos proporcionalmente, os casos notificados, entre 2011 e 2021, segundo raça/cor, observa-se que 52,7% ocorreram em pardos, 15,5% em brancos, 4,4% em pretos e 27,2% tiveram a informação de raça ignorada. A notificação de indivíduos com raça/cor amarela e indígena totalizou apenas 0,2% dos casos, enquanto 26,6% tiveram a informação de raça ignorada.

Com relação à escolaridade, no mesmo período, a maioria possuía ensino médio completo, representando 13,7% do total, seguido por aqueles com escolaridade entre a 5ª e a 8ª série
incompleta (11,4%). Entretanto, verificou-se um elevado percentual de casos com escolaridade ignorada (36,6%), o que dificulta uma melhor avaliação dessa variável.

No RN, foram notificados 1.057 casos de gestante HIV entre 2011 e 2021. A faixa etária predominante foi a de 20 a 29 anos com 54,1% dos casos registrados. A maioria possuía escolaridade entre a 5ª e 8ª série incompleta (28,7%) e 61,2% apresentava raça/cor parda. O perfil das gestantes mostrou que 88,6% realizaram acompanhamento prénatal, 85% tiveram o diagnóstico antes do parto ou durante o prénatal e 70,9% fizeram o uso do antirretroviral para profilaxia.

Nos 10 anos analisados pelo relatório da Sesap, 108 crianças (menores de 13 anos) foram registradas com aids no RN, 65 (60,2%) delas, antes dos 5 anos de idade. A transmissão vertical é a categoria de exposição predominante com percentuais em torno de 76,9%. A maior ocorrência foi na região metropolitana que apresentou 50,9% do total de casos identificados. Os municípios que mostraram maior concentração de casos foram Natal com 41 casos (37,9%), Mossoró com 11 casos (10,2%) e Parnamirim com 10 casos (9,3%).

Viver com HIV e com arte

Um dos potiguares que vivem com o HIV é o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Franco Fonseca. Ele resolveu romper o silêncio com pesquisa e arte. Graduado em Teatro e mestre em Artes Cênicas, o jovem de 28 anos trabalha contra estigma e preconceito que acompanham esse diagnóstico.

Foto: Mário Batista

“O silenciamento em relação ao tema é a somatização de várias violências que atravessam aspectos de gênero, raça e classe”, avalia Franco.

“Eu sou artista antes do HIV. Estou inserido no teatro desde a infância do período escolar até a formação técnica no ensino médio. Recebi meu diagnóstico no segundo ano da graduação em Teatro. Como artista do corpo, eu não poderia me silenciar também em relação a essa questão, que como sabemos tem reflexos sociais de extrema violência. A sorofobia mata mais que a aids”, completa.

A exposição do assunto aconteceu ainda na faculdade, durante montagem de uma encenação pra disciplina de Encenação IV, conduzida na época pelo professor Makarios Maia Barbosa, na Licenciatura em Teatro da UFRN.

“Vivo e pesquiso o tema que atravessa minhas obras”, diz o artista, que está no documentário “Privilégios”, de Daniel Favaretto. O curta foi premiado em festivais de Toronto e Índia, mas Franco diz que ainda não conseguiu apoio em Natal para exibi-lo. O vídeo tem relatos reais de artistas soropositivos de diferentes áreas contando e performando memórias.

Além disso, Fonseca publicou o resultado da monografia “Teatro Posithivo como metáfora política ‘De Onde Vem e a para onde vai Cida’ “(2017), que analisa dramaturgias da aids em espetáculos teatrais; a obra “Agora chupa essa manga – a cena pós coquetel: interfaces da aids nas artes da cena” (2020), em que investiga a noção de pós-coquetel e realiza mapeamento de discursos e produções epistemológicas dos artistas que vivem com HIV e falam abertamente sobre o tema em suas obras.

Também colabora com o Coletivo Contágio sediado na zona leste de SP com 2 outros artistas potiguares Ará Silva e David Costa.

Teaser de cadernos de pesquisa:

 

Franco Fonseca diz que prefere a perspectiva da vida. Por essa razão, no aniversário do seu diagnóstico, 16 de dezembro, costuma promover uma festa no Centro da Cidade, com performance que reúne DJs e outros artistas locais.

“Este ano ainda não sei se conseguirei realizar. Minhas ações com o tema são independentes, eu custeio minhas performances e ações. A ação é um convite pra que as pessoas com HIV sejam celebradas e não tolerem sorofobia por medo”.

A programação que já está garantida é de debates neste Dezembro Vermelho. Na quinta-feira (1º), Dia Mundial de Luta contra a aids, Franco estará na mesa redonda “Narrativas PositHIVas: notas sobre a reescrita da AIDS nas artes cênicas, nas literaturas e nas ciências”, com transmissão ao vivo a partir das 11h no canal do YouTube do Tramas (youtube.com/@lassen-usp).

A conversa vai contar ainda com Maurício da Anunciação (Crítica Cultural, Pós-Crítica, UNEB) e Tiago Amaral (Faculdade de Educação – UFU), com mediação de Lucas Melo (EERP-USP). A atividade faz parte da programação organizada pelo Tramas – Laboratório de Pesquisas Sociais em Saúde da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP e pela disciplina “HIV/AIDS, longa duração e políticas de (in)visibilidades” ministrada pelo professor Lucas Melo no Programa de Pós-graduação Interunidades em Enfermagem dos campi São Paulo e Ribeirão Preto da USP.

No dia 20, o artista participa de outra mesa. Desta vez, no Hospital Giselda Trigueiro, junto com a atriz Vania Maria, também soropositiva com quem tem parcerias em pesquisa e participa do filme “Filme Sinais Vermelhos”, dirigido por ela.

“Fiz teatro posithivo pra acabar com silêncio como sintoma de morte aqui entre os meus. Mas hoje me espalho por várias outras linguagens. Estamos em todas as linguagens e produzimos muito saber e tecnologias sociais de cuidado e criação em arte”,

diz Franco Fonseca.

Veja também os eventos promovidos pela Sesap:

1/12 – Abertura do “Dezembro Vermelho”, com mobilização no Serviço de Assistência Especializada (SAE) Giselda Trigueiro – testagem e sala de espera com usuários;
2/12 – Mobilização IMT e Hospital Giselda Trigueiro (Evento em alusão ao dia mundial da luta contra AIDS) – auditório do IMT, Giselda Trigueiro;
02/12 – Testagem em massa de 610 colaboradores do Parque Eólico Cajuína B em Lajes – III URSAP;
7 e 08/12 – Ações no Hospital Rafael Fernandes (Mossoró);
7/12 – Abertura via Plataforma virtual Zoom, às 20h
Link de acesso: https://conasems-br.zoom.us/j/87066439435
8/12 – XI Seminário De Atualização em HIV/aids das Regiões Oeste, Alto Oeste, Vale do Assú e Salineira Do Rio Grande Do Norte – Local: Auditório da Faculdade de Medicina das 8h às 17h;
8/12 – Mobilização na UERN Mossoró – da II Ursap – testagem rápida público alvo: alunos e servidores da UERN;
7/12 – Mobilização no Serviço de assistência especializada (SAE) de São Paulo do Potengi;
14/12 – Seminário HIV/AIDS do Trairi, da V Ursap (Santa Cruz);
15/12 – Testagem de HIV, sífilis, Hepatites B e C para os servidores do nível central da Sesap;
20/12 – II Seminário Estadual de Combate ao HIV/aids e fortalecimento das redes de atenção à saúde do RN – Auditório Otto de Brito Guerra – Reitoria da UFRN

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais