CIDADANIA

Na linha de frente da ciência: tecnologias assistivas e reabilitação ganham com a contribuição de pessoas com deficiência 

Por Naomi Lamarck, especial para a agência SAIBA MAIS

A história de João Vinícius Lima com a pesquisa científica começou de forma inesperada. Não foi durante a graduação em Engenharia Elétrica, mas sim durante os atendimentos na linha de cuidado de Lesão Medular Adulto do Instituto Santos Dumont (ISD), do qual é paciente, que João passou a ter contato e a se interessar pela neurociência.

“Um grande sentimento que eu tive no início da minha lesão é de que precisava da ajuda de todo mundo, então eu queria me sentir capaz de fazer alguma coisa pra alguém e não só esperar que alguém faça por mim. É esse o sentimento que eu sinto hoje em relação à pesquisa”, conta. 

Em 2021, João Vinícius sofreu um acidente automobilístico no caminho para o trabalho, o que resultou em uma lesão medular que provocou uma paraplegia sensitivo-motora, com sequelas como a bexiga neurogênica e diplegia, um tipo de paralisia que afeta as mesmas partes de ambos os lados do corpo, nos pés. Após o diagnóstico, no mesmo ano, procurou atendimento no Centro Especializado em Reabilitação do ISD (CER ISD). 

Foi a partir do contato com o desenvolvimento de soluções e tecnologias na área de saúde e reabilitação que, além de usuário do CER ISD, João Vinícius se tornou, também, estudante de Iniciação Científica da instituição. 

O engenheiro trabalha em conjunto com o professor pesquisador André Dantas, do Programa de Pós-Graduação em Neuroengenharia do ISD, na produção de dispositivos de eletroestimulação para aplicação clínica. A eletroestimulação, uma das técnicas utilizadas no processo de reabilitação de João Vinícius, consiste no envio de impulsos elétricos controlados que provocam uma resposta do sistema nervoso na forma de contrações musculares na área que recebe a aplicação. Esses sinais elétricos são utilizados na reabilitação funcional, visando uma movimentação ou articulação específica dos músculos estimulados.  

Além disso, o estudante é participante voluntário em um projeto de pesquisa de um dos mestrandos em Neuroengenharia do ISD, que busca implementar um novo protocolo de exercícios utilizando a eletroestimulação, para ser utilizado na reabilitação funcional. 

Em ambos os projetos, a intenção de João Vinicius é poder ir além de seu mundo, e contribuir com a reabilitação de outras pessoas. Conhecer as possibilidades de impulsionar a qualidade de vida das pessoas com deficiência por meio da ciência o levaram a um objetivo maior: fazer com que o que é desenvolvido em laboratórios seja acessível e, principalmente, utilizável. 

“Eu penso em contribuir para que a eletroestimulação seja totalmente acessível. Que seja fácil ver alguém na rua, um cadeirante, usando um andador e podendo fazer suas atividades e ter a autonomia que antes não tinha”.

João Vinícius Lima 

João Vinícius ressalta que não basta levar essas tecnologias ao público-alvo de forma ampla: é fundamental, também, observar como elas podem ser e estão sendo utilizadas, e se atendem às demandas daquele grupo. Para isso, considera essencial a participação direta de pessoas com deficiência, como ele, em processos de desenvolvimento e pesquisa científica. 

“Às vezes, os produtos têm uma boa intenção, mas nem tão boa funcionalidade. Acredito que o fato de passar pela necessidade de algo e ter a oportunidade de desenvolver a solução faz com que a coisa seja mais usual, mais funcional”, explica. 

Cobrar participação nos processos de tomada de decisão, espaços educacionais, mercado de trabalho e espaços de lazer é um movimento reforçado continuamente pelas pessoas com deficiência na sociedade. Cada vez mais, pesquisadores que também são usuários das tecnologias e protocolos desenvolvidos nos laboratórios de saúde e reabilitação buscam integrar as etapas de concepção, elaboração e teste, não apenas como caminho para garantir maior eficiência dos dispositivos, mas também como instrumento de cidadania. 

Exemplo disso é o estudante Carlos Daniel Galvão, 22 anos, que enxerga a sua condição física como impulsionadora para poder unir vivência e conhecimento em uma tecnologia assistiva facilitadora. 

Carlos nasceu com uma síndrome chamada Artrogripose Múltipla Congênita, causadora de um atrofiamento muscular dos membros. Ainda criança, surgiu o interesse de conhecer as áreas de programação e computação, já pensando em desenvolver produtos voltados para a acessibilidade.

Em busca desse objetivo, cursou o ensino médio técnico integrado em Informática no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) de Currais Novos, onde aprimorou os conhecimentos na área e consolidou-os em um produto para seu trabalho de conclusão do curso: uma Ferramenta Assistiva para Controle de Ambiente.

Carlos Daniel nasceu com uma síndrome chamada Artrogripose Múltipla Congênita, causadora de um atrofiamento muscular dos membros

A ferramenta consiste em um dispositivo para auxiliar na rotina de pessoas com necessidades específicas, servindo para acionar e controlar objetos como lâmpadas, ventiladores e televisores, sendo compacto e flexível nos modos de utilização. Composto por um acelerômetro e um infravermelho, basta movimentar a cabeça para que a ferramenta execute um comando, como ligar um eletrodoméstico ou ajustar o volume da televisão. 

“As principais metas no desenvolvimento da Ferramenta Assistiva para Controle de Ambiente eram oferecer um maior nível de autonomia para as pessoas com necessidades específicas, permitindo que elas utilizem equipamentos de seu ambiente apenas com movimentos de cabeça, além de facilitar o acesso a este tipo de tecnologia, não só no custo, como também no ato de encontrar a ferramenta de fato. E, por último, contribuir para o nosso desenvolvimento profissional, uma vez que o projeto teve início como meu trabalho de conclusão de curso”.

Carlos Daniel Galvão, estudante. 

A ideia, agora, é continuar aprimorando a ferramenta assistiva. Alguns dos objetivos, de acordo com o pesquisador, são aumentar a autonomia da bateria, criar um aplicativo que permite personalizar os comandos e acrescentar novas formas de acessibilidade, como comandos por voz e até mesmo por dados neurais. “Além do projeto, pretendo dar início a uma graduação da área, como Ciências da Computação, Engenharia de Software, Análise e Desenvolvimento de Sistema ou até mesmo algo na Robótica ou Neuroengenharia, que me fascinaram. Outros projetos voltados para a acessibilidade também estão no radar”, complementa Carlos. 

Oportunidade para incluir

Ainda há muito a percorrer na busca pela inclusão da pessoa com deficiência na nossa sociedade. De acordo com o IBGE, na publicação Pessoas com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil (PNS), em 2019 a taxa de participação dessa população no mercado de trabalho foi de 28,3%, menos da metade em comparação às pessoas sem deficiência, que representaram 66,3% nesse índice.

Na formação básica, em dados da mesma pesquisa, a informação é de que quase 68% da população com deficiência não têm instrução ou possui o ensino fundamental incompleto, enquanto para as pessoas sem nenhuma das deficiências investigadas a taxa é de 30,9%. 

Histórias como a de João Vinícius e Carlos Daniel evidenciam o papel da educação e das oportunidades, que quando chegam às pessoas com deficiência, podem se tornar ideias e iniciativas benéficas à sociedade como um todo e, principalmente, estabelecer um precedente para uma mais ativa participação desses grupos em espaços ainda pouco ocupados por eles.

Sobre o ISD

O Instituto Santos Dumont é uma Organização Social vinculada ao MEC e engloba o Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra e o Centro de Educação e Pesquisa em Saúde Anita Garibaldi, ambos em Macaíba. A missão do ISD é promover educação para a vida, formando cidadãos por meio de ações integradas de ensino, pesquisa e extensão, além de contribuir para a transformação mais justa e humana da realidade social brasileira.

* Naomi Lamarck é estagiária de jornalismo do Instituto Santos Dumont (ISD), sob supervisão da jornalista Mariana Ceci.

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