Retrato do líder quando Carlos
Natal, RN 14 de jul 2024

Retrato do líder quando Carlos

21 de novembro de 2023
3min
Retrato do líder quando Carlos

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“Aquela cabeça é um mundo”, costuma dizer um político potiguar quando tem de quantificar o grau de imprevisibilidade em articulações que incluem Carlos Eduardo Alves. O juízo irônico traduz a índole mercurial exibida pelo ex-prefeito em vários momentos da trajetória iniciada à sombra larga do sobrenome ilustre, como deputado e secretário de Estado, e acelerada após o rompimento com a família para se acostar ao wilmismo, em 2000. A inflexão possibilitou voo solo que lhe rendeu três mandatos e meio na Prefeitura de Natalópolis, a despeito da instabilidade que já o levou a protagonizar bate-bocas de alta voltagem com jornalistas, dirigentes sindicais e adversários – em 2012, quase saiu na porrada com Hermano Morais em debate na Associação Médica do RN.

À época, Alves queixou-se de que o oponente estava instruído a provocá-lo, para colher reação extremista exibida na propaganda eleitoral e projetá-lo como alguém sem equilíbrio emocional e maturidade política para administrar a cidade. Morais negou a premeditação, sem convicção íntima ou crédito exterior. Mas o episódio evidenciou que o temperamento instável se transformara em criptonita que os oponentes manipulavam para corroer a imagem já desgastada por outro traço problemático em política: a incapacidade ou resistência deliberada a conjugar verbos como conceder e conciliar, sem os quais o líder não lidera nem o espelho em que se mira.

Essa inflexibilidade – que induziu outro oponente a apelidá-lo “boneco de Olinda”, em alusão ao jeito de corpo duro e empertigado, extensivo à psiquê política – gera resultados ambíguos para Alves. Por um lado, não o impediu de vencer três eleições na capital, firmando-o como principal liderança paroquial desde o naufrágio do wilmismo. Por outro, barra a irradiação da sua liderança pelo Rio Grande do Norte afora e tem peso expressivo no triplo insucesso em eleições estaduais – governador em 2010 e 2018, senador em 2022. Nesta, sofreu o vexame supremo do veto na maioria dos palanques da companheira de chapa Fátima Bezerra, por exigência de prefeitos escabreados, que preferiram apoiar o bolsonarista Rogério Marinho.

Rechaçado no estado, Alves volta a cabeça, com seus mundos e desmundos, para a eleição 2024 em Natal. Até aqui é o polo dominante na pré-campanha, liderando as intenções de voto em pesquisas de todas as colorações.

A posição confortável é favorecida pela inexpressividade dos nomes do bolsonarismo – com o qual flertou levianamente e sem sucesso nas urnas em 2018 – e de outras graduações da direita, que não conseguem empolgar os eleitores refratários à deputada federal Natália Bonavides (PT), dona do segundo melhor desempenho nominal nas pesquisas.

A solidez do lugar ocupado por Alves entusiasma seus adeptos até a crença cerrada de que ele vai atrair por gravidade, sem precisar trair o modo carlista de ser, todos os deserdados da direita. O histórico da personagem – e as emboscadas da variável Álvaro Dias, que agora dispõe de Rafael Motta para cutucar a pasmaceira confortável em que Alves e Bonavides polarizam a pré-campanha – desaconselha otimismos prematuros.  Mas, aos coabitantes do planeta Alves, esse é detalhe irrisório, mera questão de tempo. Para eles, a cabeça do líder é muito mais que o mundo das manhas e das marras latentes na frase do especialista. É o único realmente ao alcance do desejo de não viver, a partir de 2025, no que consideram desde sempre o pior dos mundos: o dominado pelo PT federal, estadual e municipal.

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