Do bonde ao busão: memória e caminhos para a Rua João Pessoa
Natal, RN 2 de mar 2024

Do bonde ao busão: memória e caminhos para a Rua João Pessoa

8 de dezembro de 2023
26min
Do bonde ao busão: memória e caminhos para a Rua João Pessoa
Edifício Ducal, na rua João Pessoa, I Foto: Mirella Lopes

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Chegar ao trabalho já foi mais fácil para o bancário Hamilton de Oliveira, que diariamente sai de casa, em Ponta Negra, para a rua João Pessoa, na Cidade Alta, na Zona Leste de Natal. “Antes eu tinha três opções de ônibus: o 46, o 56 e o 54. Agora, só restou o 54. As pessoas dizem que as lojas do centro estão fechando, mas quando o poder público toma decisões como essa [de reduzir o número de ônibus com destino ao centro da cidade], também influencia nesse processo”, lamenta Hamilton.

A precariedade do serviço de transporte municipal deve ser mesmo um dos fatores que contribuem para o esvaziamento do bairro, mas não o único. Os lojistas também reclamam da falta de segurança e de incentivos fiscais e do aumento no preço dos aluguéis - que chegam a R$ 30 mil por mês. Pelas calçadas dos comércios que seguem abertos, conta-se que construtoras têm comprado diversos pontos e feito reajustes irreais nas locações, com a intenção de tornar a área residencial, com grandes torres de apartamentos. Também há aqueles que culpam os clientes - que passaram a preferir os shoppings - pela queda no movimento. Na rua João Pessoa de hoje, outra falha bastante visível é a infraestrutura, com obras inacabadas da Prefeitura do Natal.

Trecho que seria exclusivo de pedestres recebeu nova camada de asfalto, mas continua interditada para o trânsito I Foto: Mirella Lopes

No coração da Cidade Alta, bairro histórico onde Natal foi fundada, nos idos de 1599, a rua João Pessoa guarda em sua identidade não apenas a mistura de antigos e novos problemas, mas as contradições do nosso tempo. Não dá para passar por lá sem notar as fachadas clássicas dos antigos prédios, sentir a nostalgia dos cinemas de rua ou lembrar do antigo costume de se reunir nas praças e esquinas para uma despreocupada conversa, ao mesmo tempo em que corre para resolver alguma coisa antes que a rua fique vazia e o comércio comece a fechar as portas.

Pelas fotos antigas, pode até parecer distante, mas nos tempos áureos da João Pessoa, Natal era uma pequena cidade com apenas 11 mil habitantes, cuja elite (fosse ela política, econômica ou intelectual) sonhava em fazer daqui o “cais da Europa”, como relata o pesquisador Raimundo Arrais.

Rua João Pessoa no sentido da avenida Deodoro da Fonseca, antes da construção da Catedral Nova I Foto sem data de Jaeci I Fonte: CD Natal 400 anos
Calçadão da João Pessoa entre a avenida Rio Branco e a rua Princesa Isabel I Foto: Mirella Lopes
Calçadão da João Pessoa entre a avenida Rio Branco e a rua Princesa Isabel, da mesma perspectiva da foto acima I Foto: Mirella Lopes
Rua João Pessoa, em Natal/RN, com torre da Igreja Matriz ao fundo (1957) I Fonte: IBGE
Rádio Nordeste, em 1957 I Fonte: IBGE
Atual situação do antigo Cine Nordeste I Foto: Isabela Santos

A rua João Pessoa começa e termina em catedrais. Em seus dois extremos estão, de um lado, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação (Catedral Velha ou Antiga Catedral), construída por volta de 1619 e, do outro, a Catedral Metropolitana (Catedral Nova), cuja construção foi iniciada em junho de 1973 e concluída em 1988, no encontro com a Avenida Deodoro da Fonseca. Numa foto sem data, tirada da antiga Praça Pio X, onde foi erguida a Catedral Metropolitana, é possível enxergar a torre da Antiga Catedral e da Igreja Presbiteriana Independente de Natal.

Foto tirada na mesma posição, a partir da calçada onde hoje se encontra a Catedral Metropolitana de Natal | Foto: Isabela Santos
Igreja Matriz I Foto: Isabela Santos
Catedral Nova I Foto: Mirella Lopes
Catedral Nova I Foto: Mirella Lopes

Mesma rota, novos caminhos

Passando pela João Pessoa é possível ouvir a missa pelo rádio de ambulantes, ir a celebração na Igreja Presbiteriana Independente e fazer parada na Paulinas, tradicional loja de artigos religiosos, além de acender velas na Praça Padre João Maria, lugar de culto. Quem segue a pé a partir da Praça em direção ao outro extremo, ainda consegue perceber que muito da arquitetura dos edifícios mais antigos permanece de pé. Alguns, com adaptações parciais de fachadas que encobrem os traços originais dos prédios.

Já quem olhar para o chão, vai notar que não há mais nem rastros dos trilhos, mas não deixa de ser interessante lembrar que, na época em que se fala tanto em sustentabilidade e veículos menos poluentes, o bonde elétrico já foi o principal transporte público de Natal durante as décadas de 1920 a 1950. Na própria rua João Pessoa passavam algumas linhas que vinham de diferentes bairros, uma delas seguia da Rua Dr João Barata, na Ribeira, até a praça Padre João Maria.

Foto de 1942 com guarda de trânsito que controlava o tráfego dos bondes vindos de Tirol, Petrópolis, Ribeira e Alecrim. O local era famoso pelo café Grande Ponto, frequentado por Câmara Cascudo e outros intelectuais da época. O registro é do fotógrafo norte-americano Hart Preston, que também fotografou a construção da base militar em Natal na II Guerra I Foto: Grande Ponto - Jornalismo de verdade

Na João Pessoa de 2023, ainda próximo à praça Padre João Maria, a loja de discos e acessórios Discol resiste. Quem sobreviveu ao fim da era do vinil, da fita cassete e do CD, sabe se reinventar. E, no ponto onde estão localizados, precisam.

A Discol fica no térreo de um prédio no qual é possível ver inscrita referência à Maçonaria. Em frente à loja inaugurada em 1975, está o prédio do Cine Nordeste (1958-2003). Entre imagens e músicas de grandes artistas, pode-se ver, do outro lado da rua, mais um cenário de silêncio e abandono atrás de tapumes pichados. 

Discol foi inaugurada em 1975 | Foto: Isabela Santos

Foi cinema, igreja, cinema de pornochanchada, em seguida, desceu ao fundo do poço, tinha sexo ao vivo no palco. Aí a Leader Magazine comprou o prédio, descaracteriza ele e depois fechou”, lembra o dono da Discol, Luiz Brás, que chegou ali adolescente, como office boy. Foi balconista, gerente e, mais ou menos no ano 2000, comprou o ponto, diante da desistência do patrão em um período de crise no setor: a substituição do vinil pelo CD. Depois passou também pelo fim desse produto, mantendo à venda mídias físicas como itens para nostálgicos. O comércio tem ainda camisetas de variadas marcas, colecionáveis, acessórios e estúdio de tatuagem.

Loja Discol, no andar térreo do edifício da Maçonaria I Foto: Isabela Santos

Do balcão, a filha Gabriela Almeida tenta atrair outros públicos, não só pela sua própria juventude, mas executando novas ideias. Uma delas foi a realização do evento Gela & House, no feriado de 15 de novembro. DJs, cadeirinha na calçada e cerveja gelada cumpriram a missão de reacender aquele ponto do Centro Histórico. A fórmula deve ser repetida no BalaDiscol, em 10 de dezembro.

Vídeo publicado no perfil @discoloficial

Mais uma vez, Brás está confiante. “Eu digo muito que uma coisa que faz dar certo é o trabalho. Não perder a identidade e acompanhar, acima de tudo, o tempo; ir mudando sem perder a raiz. Assim, fui mantendo os clientes”, aposta. E quanto aos reparos na frente do estabelecimento, ele acredita ainda na promessa da Prefeitura: “Eu espero muito que isso aqui se transforme em calçada. Vai ser como acontece na França e na Inglaterra, que tem ação de dia e de noite.”

Pai e filha reinventam venda de discos | Foto: Isabela Santos

A filha discorda, mas elogia: ‘Ele é muito otimista. Isso é importante. Deve ser por isso que ele consegue estar aqui há tantos anos. Mas eu não acredito que essa obra continue.”

Os dois se referem ao bonito projeto de requalificação lançado pela Prefeitura do Natal, que promete melhorar não somente a mobilidade urbana. No trecho entre as avenidas Rio Branco e Princesa Isabel, um calçadão com caramanchões e sem veículos tornaria a caminhada mais agradável, com espaços de convivência. As imagens do projeto deram esperança ao natalense que passa e trabalha por lá.

Projeto de requalificação da rua João Pessoa, centro de Natal I Imagem: Semurb

A obra começou em março, com a interdição de um trecho da via. A promessa era de que o transtorno seria transitório para alcançar o objetivo maior de valorizar o lugar. As valas para implantação da tubulação que substituirá a fiação suspensa nos postes por subterrânea foram feitas, mas até o início de dezembro as meadas elétricas ainda podem ser vistas. O projeto também prevê a revitalização da Praça Padre João Maria, com a criação de um espaço lúdico de descanso e de brincadeira para crianças na região. Seis meses depois do início das obras, as escavações foram fechadas de maneira precária e na avenida em que o paisagismo deveria chamar atenção, havia apenas uma nova camada de piche e calçadas remendadas.

Resultado da obra | Foto: Isabela Santos

É só olhar o que foi feito. Aquelas caixas estão ali há dois meses”, um homem aponta para a esquina com a Princesa Isabel. Ele trabalha na região há mais de três anos, não quis se identificar e demonstra completa apatia ao projeto: “A minha expectativa é que não vai dar em nada. Dizem que vão sair os postes e os fios vão passar por baixo, mas não acreditei e está aí o resultado.”

Fios pendurados e remendo de tubulações visíveis no Calçadão da João Pessoa, entre avenida Rio Branco e a rua Princesa Isabel I Fotos: Mirella Lopes
Esquina da João Pessoa com Princesa Isabel com obras em andamento

O que mais intriga os comerciantes é a completa falta de informação sobre a obra. Semurb, Semsur, Seinfra, STTU. Gabriela Almeida, da Discol, conhece as siglas de todas as secretarias municipais que poderiam explicar o que foi e ainda será feito, se for.

Nenhum número fixo chama. Dizem que não é na STTU. A Semurb só faz meio fio. A Semurb é responsável apenas pelo projeto. A Infraestrutura disse que era com Serviços Urbanos. Metade da rua é de um setor e a outra de outro. Ninguém sabe quem é a empresa responsável. é uma coisa que impacta diretamente o nosso comércio, mas se for acontecer amanhã, a gente não é informado”, reclama da saga, muito semelhante à percorrida pela reportagem da Agência Saiba Mais, também sem êxito.

Mas, os membros da Associação Viva o Centro, que reúne empresários da região, têm uma perspectiva mais otimista.

Em abril, salve engano, foi iniciada a obra. Ela será feita em duas etapas. A 1ª é a colocação de toda a tubulação subterrânea, e a 2ª, que seria a colocação do mobiliário e o trecho do Calçadão intertravado. Essa obra ia ser contínua, mas nós da Associação falamos com a Prefeitura para intercalar, justamente, para não atingir o final do ano. Ela será retomada em meados de janeiro, quando será feita essa segunda etapa. Foi isso que a Prefeitura nos prometeu”, revela o presidente da Associação Viva o Centro, Rodrigo Vasconcelos.

Rodrigo Vasconcelos da Associação Viva o Centro

Pesquisas e propostas de intervenção

Tendo crescido dentro do negócio do pai, a ligação de Gabriela com o lugar é tanta que virou pesquisa. Ao concluir a graduação em Arquitetura e Urbanismo, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, escolheu a Cidade Alta como tema, explorando a descaracterização de prédios que perderam traços de diferentes estilos arquitetônicos e apresentando propostas de intervenções.

Da rua João Pessoa, Gabriela selecionou 20 edificações. Dentre elas, existem as que estão localizadas na área definida pela Poligonal de tombamento e entorno do centro histórico de Natal, as que estão na área de entorno e as que não se incluem na delimitação. O trecho da rua João Pessoa entre a av. Rio Branco e a av. Deodoro da Fonseca não está inserida em nenhuma área de proteção.

“Foi constatado que grande parte dos edifícios analisados foram, de fato, modificados de alguma forma. Outrossim, averiguou-se que as edificações de uso institucional são as mais conservadas e preservadas; as de uso misto com comercial no térreo e comercial são as mais descaracterizadas; e existe uma diferença entre os pavimentos térreo e superior das edificações, muitas das edificações descaracterizadas no térreo foram apenas modificadas nos pavimentos superiores, existindo, ainda, as que mantiveram-se preservadas, como a fachada da Maçonaria”, destaca a monografia “A cidade descoberta: proposta de intervenção para as fachadas dos edifícios históricos de uma fração do bairro Cidade Alta, Natal/RN” (2021), que teve orientação do Profº. Dr. José Clewton do Nascimento.

A partir do diagnóstico, Gabriela propõe pintura e uso de cores nas fachadas; retirada de volumes incompatíveis adicionados às edificações obstruindo ou comprometendo a unidade das fachadas; placas e anúncios publicitários; instalações de ar condicionado “escondidas” em toldos ou realocadas de forma que não obstrua as fachadas e até a organização do encanamento e dos fios, que ela já não sabe se vai ocorrer.

Imagem: reprodução autorizada por Gabriela Almeida
Imagem: reprodução autorizada por Gabriela Almeida
Imagem: reprodução autorizada por Gabriela Almeida

Outra possibilidade de resgate do fôlego na região é sugerida pelos próprios comerciantes: a concessão de descontos no ISS (Imposto Sobre Serviços) para empresas de prestação de serviços que se instalarem na Cidade Alta, assim como descontos no IPTU para aquelas que recuperarem a fachada histórica do prédio onde estão instaladas.

A Prefeitura do Natal já fez concessão semelhante ao setor de transporte com desoneração parcial (50%) em 2020. Na época, a Procuradoria do Município calculou que o benefício resultaria numa economia de R$ 400 mil por mês para os empresários. A partir de 2021 a desoneração passou a ser total (100%) e está garantida até 31 de dezembro de 2024, apesar do aumento da passagem, da série de devoluções de linhas de ônibus e descumprimento da determinação judicial de retorno de 28 linhas de ônibus retiradas de circulação na capital desde a pandemia de covid-19.

Rodrigo Vasconcelos, do Viva o Centro
Rodrigo Vasconcelos, do Viva o Centro, aguarda negociação com Prefeitura sobre desoneração de impostos I Foto: Mirella Lopes

O Sisal

Apesar da promessa da Prefeitura de um novo ambiente na João Pessoa, atrativo e ‘instagramável’, Agleci acha difícil recuperar os tempos áureos da rua, onde o pai fundou a relojoaria Seiko há 50 anos, no edifício Sisal. Com o movimento em alta, ele trabalhava até as 21h para dar conta de criar os sete filhos. Hoje o atendimento na mesma loja não passa das 17h.

“Hoje meu pai se foi, fez um ano agora. Sonhava em ser médica, fiz duas vezes o vestibular e não passei. Hoje sou médica de relógios”, conta Agleci, que se emociona ao lembrar do pai, Aguinaldo Lins, e das histórias que viveu dentro da loja, que ela começou a frequentar ainda criança, aos nove anos, porque os pais não tinham com quem deixar as crianças.

Foto do fundador da loja Seiko ao fundo I Foto: Isabela Santos
Agleci mostra foto da família dela criada também dentro da loja I Foto: Isabela Santos
Esposo de Agleci atende clientes I Foto: Mirella Lopes

O pai da comerciante veio de Elói de Souza e começou trabalhando para outra pessoa no Alecrim, até conseguir montar a própria loja. Foi com a suada renda retirada do negócio que ele criou os sete filhos. Depois, foi a vez dela tocar a loja com os irmãos. Em seguida, cada um montou seu próprio ponto e Agleci seguiu com a loja no Sisal com o marido responsável pelos consertos, função aprendida aos trancos e barrancos com o sogro.

Meu pai começou a botar ele pra desmontar despertador, aí depois ele perguntava ‘seu Aguinaldo, e agora?’ e meu pai respondia ‘você não desmontou, agora monte de novo’. Se fosse hoje, tinha celular pra filmar, mas antes... o câmara ralou pra aprender, mas deu certo”, brinca.

Assim como o pai, Agleci criou os dois filhos (um casal) com o sustento que tirava da loja. Sua filha, apesar de formada em Psicologia, é o braço direito da mãe dentro do comércio hoje em dia.

“Meus filhos foram criados aqui dentro, dormindo embaixo da banca do meu marido”.

O nome pode até parecer estranho para quem não é do ramo, mas Seiko era a marca de relógios à qual o senhor Aguinaldo prestava assistência. A empresa continua ainda hoje no mercado, faz parte da grade da Oriente. “Antes não tinha ninguém que desse essa assistência aqui”, explica Agleci.

Entrada do prédio I Foto: Mirella Lopes

Apesar da demora para concluir a obra de revitalização do centro e do fechamento de algumas grandes lojas, como C&A, Marisa, Renner e Lojas Americanas, alguns setores parecem seguir firmes no comércio, principalmente, por causa da falta de concorrência. Numa espécie de lojinha bem estreita entre a avenida Rio Branco e a rua Princesa Isabel, duas funcionárias são abordadas a todo momento por clientes em busca de biscoitos da marca Trovo, bem conhecida por quem anda pelo centro.

Trovo é opção de lanche na Cidade Alta | Foto: Isabela Santos

Coisa parecida ocorre na tradicional Livraria Paulinas, já mais perto da Nova Catedral. Por lá, o público segue fiel não só pela busca de artigos e publicações religiosas, mas também, pelos itens de papelaria.

Loja atrai público católico | Foto: Isabela Santos

O Ducal

Não importa se você está indo ou vindo pela João Pessoa, de qualquer ponto da rua o Ducal está ao alcance dos olhos. O edifício, que fica em frente à Praça Presidente Kennedy, começou a ser construído em 1971 e foi inaugurado cinco anos depois, como um dos hotéis mais suntuosos do Nordeste. Sua forma arredonda ainda chama a atenção até hoje.

Além de hotel, o Ducal também já funcionou como sede de secretarias de órgãos públicos, mas, atualmente, o edifício está fechado. Porém, quem subir ao último de seus 18 andares, vai poder conferir uma vista panorâmica e privilegiada da cidade.

Busto do presidente Kennedy e edifício Ducal | Foto: Isabela Santos
Busto do presidente Kennedy e edifício Ducal | Foto: Isabela Santos

Grandes pontos

Um pouco mais à frente, onde hoje se situa um pichado prédio nº 669, está a antiga C&A. Mas, esse mesmo terreno já abrigou uma das grandes casas da elite natalense, além de um mercado municipal, cuja parte da antiga estrutura ainda resiste, ao lado da loja, na Rua João Pessoa. A memória do lugar foi impressa no painel feito pelo artista plástico Dorian Gray Caldas, à pedido da empresa, em 1992.

No século passado, a esquina da João Pessoa com a Rio Branco, assim como seu entorno, ficaram conhecidos como Grande Ponto, por concentrar a efervescência política, comercial e cultural da época, que se revezava entre cafés, cinemas, bancas de revistas, praças e calçadas.

Mas, ao contrário do que o nome pode sugerir, na verdade, o Grande Ponto abrangia não apenas um lugar, mas toda uma área que, além da rua João Pessoa, passava pela avenida Rio Branco, rua Princesa Isabel e avenida Deodoro da Fonseca. O passar do tempo modificou edificações, transporte e até a forma de viver a vida na cidade. Foi o que também aconteceu com O Grande Ponto.

Em um mapa, elaborado por Miranda (1999) e publicado na monografia de conclusão do curso de História, Augusto Bernardino de Medeiros resgata a história de alguns estabelecimentos que, ao longo do tempo, foram mudando de lugar ou deixaram de existir.

O ponto nº 1 seria o Cinema Nordeste, na João Pessoa; 2 - Natal Clube, na Praça Presidente Kennedy; o 3 se trata do antigo Cinema Rex; o 4 foi o Café Grande Ponto, na esquina da João Pessoa com a Rio Branco; no 5 ficava o Bar e Confeitaria Cisne; no 6 ficava o café O Botijinha; já no 7 era o famoso Café São Luiz, inaugurado em 1953 e transferido, em 1960, para a localidade 8.

Imagem: reprodução Augusto Bernardino de Medeiros
Painel pintado por Dorian Gray I Foto: Mirella Lopes
Na esquina do cruzamento da avenida Rio Branco com a João Pessoa já existiu uma residência onde mais recentemente funcionou a loja C&A I Foto: ihgrn.blogspot.com

Hoje, percorrendo a mesma rua João Pessoa, continuam de pé fachadas e histórias. Edifícios como Sisal, Canaçu, Mendes Carlos, Ducal, Cidade do Natal e Comercial João Pessoa abrigam parte delas. Se a rua é testemunha do passado e das transformações sociais e urbanas que moldam a cidade, não olhar para ela é um desperdício, pelo qual ninguém suporta mais pagar. Por isso, certamente, não há melhor momento para fazer da cidade o lugar onde se gostaria de viver, ainda mais, se ela tiver lugares tão especiais, como a rua João Pessoa.

Rua João Pessoa, do começo ao fim:

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