Sisal e Barão do Rio Branco: resistência humana nas galerias do Centro
Natal, RN 24 de fev 2024

Sisal e Barão do Rio Branco: resistência humana nas galerias do Centro

4 de dezembro de 2023
10min
Sisal e Barão do Rio Branco: resistência humana nas galerias do Centro

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Por Anna Karla Fontes

Um tem 56; o outro, 51. Separados no tempo por apenas cinco anos e no espaço por 140 metros de distância, os edifícios Sisal e Barão do Rio Branco têm muito mais em comum do que aparentam. O primeiro foi inaugurado em 9 de fevereiro de 1967, à Rua João Pessoa, e o segundo, em 16 de julho de 1972, na avenida de mesmo nome, com passagem para a Rua Princesa Isabel. Os dois prédios estão localizados nas vias mais importantes e movimentadas de Cidade Alta, bairro que originou Natal. As galerias de ambos resistem às adversidades da economia e à falta de projetos vigorosos para revitalizar a área.

A resistência dos dois edifícios se alicerça em pessoas que vivem ou trabalham ali há décadas. Inquilinos do Grande Ponto, como o lugar ficou conhecido nos áureos tempo. É o caso de Francisco Pereira da Silva, famoso alfaiate, condecorado como “tesoura de ouro” e mais conhecido por Xikinho. No início dos anos 1970, todos os dias, ao final do expediente, ele saía do trabalho para acompanhar o andamento das obras do Barão do Rio Branco, onde sonhava se estabelecer. Hoje se mostra feliz por sua escolha.

“Tive a sorte de comprar uma sala no prédio. Eu trabalho com o que gosto, respeito é importante e caráter não tem para vender. Minha mãe era viúva e eu trabalho desde menino. O 'cara' que não tinha profissão ia parar na frente do cais, carregando frete” .

Francisco Pereira da Silva é alfaiate e conhecido como Tesoura de ouro / Foto: Anna Karlla Fontes

Xikinho, que ama prosear com os vizinhos e contemporâneos do bairro, mantém em seu ateliê objetos de decoração que são verdadeiras relíquias.  As peças talvez indiquem a permanência da glória. Exímio no que faz, o alfaiate é altamente requisitado por dez entre dez dos homens mais elegantes da cidade. Atraídos pelo corte perfeito e caimento impecável dos ternos confeccionados artesanalmente pelas hábeis e experientes mãos, os clientes são fiéis às salas 103 e 104 do Barão. Ali provam as artes do Tesoura de Ouro ou enviam o próprio motorista para apanhá-lo e levá-lo até onde estão. Por outro lado, Xikinho também sente as mudanças: já foi espancado durante um assalto e alterou o horário do expediente. A jornada se inicia às 6h, uma hora mais tarde do que era antes, e se encerra às 16h

Como o alfaiate, outros resistem. Em meio ao fechamento de lojas, placas de vende-se, aluga-se, evasão dos grandes magazines, recessão e uma pandemia no meio, quem mora e trabalha no Centro ilustra bem como o local, mesmo envergando, luta para não quebrar. Apesar de todas as adversidades, pessoas como Agleci Medeiros jamais pensaram em se mudar. Permanece a esperança de que “as coisas melhorem, o poder público intervenha com soluções criativas ou Deus nos ajude”, como afirma a mulher emocionada, ao relembrar décadas de uma trajetória do bairro de, ultimamente, mais baixos que altos.

Relojoaria Seko é inspirada em marca japonesa e existe há 50 anos no Sisal / foto: Anna Karla Fontes

A comerciante administra com os irmãos e marido a Relojoaria Seiko. A loja de propriedade da família na galeria do Sisal  foi fundada há meio século pelo pai Aguinaldo Lins, falecido recentemente. O patriarca fundou a loja inspirado na marca japonesa, criada em 1881 por Kintaro Hattori. A Seiko natalense é o paraíso dos saudosistas, pois além da venda de relógios, também oferece aquele algo a mais que passa longe do universo das compras on-line: o atendimento personalizado, a assistência técnica sem demora e o conserto das peças. De quebra, para dar aquele toque ainda mais vintage, o local conta com o “elevador” de relógios. Trata-se de um suporte com o qual ela e o esposo transitam para cima ou para baixo as peças em conserto, indo do térreo para o primeiro andar e vice-versa.

Agleci orgulha-se de seu pai ter mantido a família de sete filhos com a renda proveniente da loja. Ela, que começou a frequentar a Seiko aos 8 anos, levada pelos pais, viu e sentiu todas as transformações vividas no bairro. E assim como o costureiro Xiquinho, não se enxerga instalada em outro local.

Na galeria do Sisal, ilustrando bem a recessão e a mudança de perfil dos novos ocupantes, as lojas com oferta de crédito pessoal estão em profusão.  “Tivemos bons tempos com o Grande Ponto, houve uma época em que as lojas desse setor ficavam abertas até tarde da noite, com as ruas bem enfeitadas por ´cordões de luz´ e muita movimentação”, relembra. Profunda conhecedora do próprio negócio e da temperatura comercial da área, Agleci sugere:

“Aqui o valor do aluguel é altíssimo, mas também deveriam baixar impostos para que os empresários tenham interesse de vir”.

Luzes de outrora

Berço de Natal, a Cidade Alta teve, em diferentes momentos da história, seus dias de glória. Centralizava, sem trocadilhos, um comércio efervescente. No período natalino se enfeitava, atraía famílias vindas de todos os bairros, vestidas com suas melhores roupas para ir às compras ou para simplesmente passear e admirar as sempre muito bem iluminadas ruas e vitrines. Era um programão.

“A gente vinha e ficava até tarde, passeando, comprando, hoje é triste ver tanta loja fechada”, diz Irismar Oliveira, que no momento da entrevista esperava com seu marido o conserto do relógio na Seiko, de onde são clientes há anos.

Na Natal de um tempo passado, a Cidade Alta estava para as famílias da época, assim como os shoppings estão para as de hoje. As coisas mudaram. Waneuma Melo Souza, uma das recepcionistas do edifício Barão do Rio Branco, afirma que ama trabalhar no local. Já são mais de 20 anos nesse que foi o seu segundo emprego.

“São muitos anos aqui. Já vimos a cidade superlotada, cheia, com disputa mesmo pelo espaço, mas foi caindo”.

Waneuma Souza é uma das recepcionistas do edifício Barão de Rio Branco / foto: Anna Karla Fontes

Contudo, a percepção das pessoas que conhecem o lugar encontra saídas. José Eugênio de Andrade Filho é síndico do edifício Barão do Rio Branco, onde há oito anos mantém seu escritório, no 10º andar.

“Apesar dos descasos, o centro resiste, mas a duras penas. Falta um olhar com sensibilidade para o bairro. Não digo grandes investimentos, mas pequenas iniciativas que contribuam para fixar o consumidor, seja oferecendo vagas no sistema rotativo de estacionamento, seja uma programação recreativa nesta época natalina que promova a vinda do natalense para cá. O centro padece é da falta de boas iniciativas, não necessariamente de mega investimentos”.

Síndica do Sisal, Mariane Fabrício construiu uma antiga relação com o lugar, onde começou a trabalhar como advogada e o qual frequenta desde criança, levada por sua mãe, que por sua vez trabalhou anos em um consultório odontológico no edifício. Formada em Turismo, externou suas preocupações quanto às muitas mudanças de sede por parte dos órgãos e entidades que funcionavam em prédios históricos e se deslocaram para outros bairros, afastados dali.

“Quando a gente vai estudar a parte histórica, aqui em Natal há essa deficiência. Enquanto nos outros estados a gente viu uma valorização da cultura, da história como um todo, de um resgate dos prédios históricos, sinto uma perda para a Cidade Alta com a saída de alguns órgãos e com a mudança, por exemplo, da sede da OAB para Candelária. A gente precisa de prédios funcionando aqui, sobretudo os prédios históricos, porque quando uma entidade ou órgão sai aqui do centro, por mais que o prédio permaneça à disposição, ele não passa a ser cuidado como quando era antes e acaba tendo uma desvalorização da história e do lugar”, lamenta.

Moderno e retrô

Edifício Barão do Rio Branco, em Natal / Foto: Anna Karla Fontes

No campo das semelhanças, o Sisal e o Barão do Rio Brancos também são galerias ou passagens, surgidas no final do século XVIII em Paris, quando o comércio varejista migrou das feiras, praças e mercados para o novo espaço, que também abrigava as artes. E estiveram, ambos, na vanguarda do processo de verticalização de Natal, como prédios mistos, que é a denominação da arquitetura para as construções com função residencial e comercial.

Os edifícios de uso misto foram inaugurados nos anos 1950 pelo edifício São Miguel, na Avenida Rio Branco, segundo Nilberto Gomes de Sousa, em sua dissertação “A forma do edifício residencial em Natal, 1969 a 2000”. A pesquisa, concluída em 2005, no programa de pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFRN , indica que depois do São Miguel veio o edifício 21 de Março, que fica na praça Padre João Maria.

O Barão do Rio Branco conta com dez andares, sendo 17 pontos comerciais em cada, além das 20 lojas do térreo e quatro unidades habitacionais. Consultórios médicos e odontológicos, além de escritórios contábeis e de advocacia constituem a maioria de seus inquilinos, assim como no Sisal. É um cinquentão que tem todos os corredores em cobogó, propiciando iluminação e ventilação naturais. O projeto arquitetônico foi idealizado para oferecer um contato visual com a natureza. Sim, ele “tem vista”. Do corredor ou da porta do escritório, a depender da localização e do andar, se tem a visão do rio Potengi ou do mar.

O Sisal, com 106 unidades, sendo o 7º e 8º andar para uso residencial, foi considerado muito moderno para a época de sua construção. Até hoje, os vitrais e o piso original nos corredores encantam quem observa o tempo. O cuidado a eles dedicados na sequência dos anos lustra a resistência. Ao contrário da ausência por parte de muitos gestores públicos, a síndica Mariane e os conselheiros fiscais se preocupam com a manutenção, limpeza e reparos regulares. Sabem que assim valorizam o prédio para continuar atraindo lojas e escritórios.

Receita simples e eficaz, pois hoje o Sisal tem 85% de ocupação. Mariane se diz desacreditada de iniciativas vigorosas para reacender, no Centro, a potência que o lugar já foi um dia:

“É preciso um trabalho muito grande de credibilidade e essa semente inclusive já foi plantada por algumas iniciativas. Projetos em que os lojistas foram convidados a participar e nos venderam a ideia de que não era para deixar isso aqui morrer, mas infelizmente a gente só vê as lideranças se beneficiando politicamente e nada vai para a frente”, lamenta a síndica, que conhece profundamente e respeita a história do Sisal e do bairro como um todo e, com esperança, diz:

“Aqui tem muita história para se contar. No mínimo, o Centro daria um livro”.

Um livro sobre o tempo que resiste nas humanas galerias dos edifícios.

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