Viva e deixe viver: um ano novo sem intolerância religiosa
Natal, RN 30 de mai 2024

Viva e deixe viver: um ano novo sem intolerância religiosa

1 de janeiro de 2024
7min
Viva e deixe viver: um ano novo sem intolerância religiosa
Agência Senado

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Quando alguém aponta que sou uma intolerante religiosa, abaixo minha cabeça e reflito, afinal sou uma cristã de orientação protestante e posso estar, inadvertidamente, reproduzindo os discursos propagados por milhões de evangélicos no Brasil.

Incontáveis vezes ouvi os “irmãos” criticarem católicos, espíritas, candomblecistas, umbandistas, ateus, gays, lésbicas, mulheres independentes, tatuados etc. As críticas eram terríveis, mas, nas vezes em que vieram com “efeitos especiais”, até pareciam atraentes. Algo parecido com as músicas “infantis” da cantora gospel Ana Paula Valadão, que cantava acompanhada de um coro: “Quem pecar, vai pagar; quem pecar, vai morrer...”.

Por bastante tempo compactuei com essa cultura porque frequento igrejas desde criança. Mas quando passei em um concurso para a prefeitura de Natal (sou psicóloga, especialista em psicologia social) e me deparei com uma parcela frágil da população que sofre com a intolerância causada por crenças religiosas, acordei do meu “sono injusto”.

Hoje, após trabalhar por 15 anos entre as Secretarias de Serviço Social e de Saúde, tenho certeza: o conservadorismo de uma parcela significativa de cristãos brasileiros prejudica (para dizer o mínimo) física e mentalmente pessoas com orientação homossexual e identidade trans, alvos frequentes de sua intolerância.

As queixas mais comuns nos meus atendimentos na unidade básica de saúde são: violência física e psicológica contra mulheres e contra homossexuais. Quando começo os atendimentos, invariavelmente me deparo com mães e pais cristãos que não aceitam a homossexualidade dos filhos mesmo diante de uma situação dramática como a ideação suicida, ou com esposas abusadas por maridos que frequentam templos cristãos e contam, inclusive, com prestígio social por serem os “varões” da casa.

Já aconteceu de testemunhar olhares de censura e até mesmo de raiva contra duas adolescentes que se davam as mãos enquanto aguardavam atendimento. Ou de abrir a porta do consultório e me deparar com um marido que veio para constatar que eu era mesmo uma profissional do sexo feminino como a esposa dissera. Se fosse outro homem, a esposa deixaria de vir.

No caso da violência contra mulheres, a igreja defende posições que contribuem para o sofrimento das vítimas. Em texto da cientista social evangélica Simony dos Anjos para CartaCapital vemos que:

“...No contexto evangélico, no qual a família tradicional e a ideia de que casamentos devem ser mantidos a qualquer custo são amplamente defendidas, as marcas da violência doméstica são silenciadas e apagadas. O poder atribuído ao marido, tido na religião como o cabeça e o sacerdote do lar, faz com que a violência contra a mulher possa ser justificada pelo fato de ela não ser uma esposa virtuosa. E esse discurso é recorrente dentro das igrejas: mulheres devem edificar o lar, ser prudentes, garantir o bem-estar dos filhos e dos maridos...”.

Milhões de crentes pelo Brasil afora não fazem avaliação de consciência sobre esses temas, mas se um desavisado os criticar por isso, ficarão ofendidos. Farão textões muito sérios afirmando e reafirmando suas crenças. Você não verá essas mesmas pessoas enraivecidas pelo sofrimento de mulheres e adolescentes vulneráveis. Não os verá defendendo abertamente essas vítimas em suas igrejas porque isso parecerá que defendem a homossexualidade e o divórcio (uma vez perguntei a um pastor conhecido, qual a posição dele a respeito de uma mulher que naquele momento encontrava-se internada no hospital Walfredo Gurgel por ter levado um tiro na vagina do próprio marido. Ele reafirmou que a vítima deveria continuar tentando “salvar” seu casamento.

Muitas denominações evoluíram para uma atitude “neutra”: não criticar a homossexualidade. Como se isso fosse tirar sua responsabilidade sobre o assunto. A consequência para os jovens é que se veem sem o apoio essencial da família em um momento de intensa fragilidade, já que pais e mães optam pelo “não dito” como forma de resolver o assunto. “Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”, afirmou Ângela Davis nos idos da década de 60. Mas os crentes, em sua maioria, desconhecem a frase porque preconceito racial não costuma ser uma pauta de interesse para eles, bem como homofobia, transfobia e feminicídio.

Quando o Papa Francisco autorizou, em 12 de dezembro último, que padres abençoem casais do mesmo sexo nas igrejas, ele incentivou cristãos do mundo inteiro a fazerem o mesmo e só posso imaginar o quanto aliviou os corações de mães, pais e filhos gays que frequentam igrejas católicas.

Quem está na linha de frente como eu, faz isso todos os dias, inclusive, usando a própria fé para angariar a confiança dos familiares dos adolescentes e tentar convencê-los a apoiarem seus filhos na luta contra uma sociedade intolerante. Quando falo do direito às liberdades individuais, as mães olham-me assustadas, pois na igreja, o que mais se prega é o controle sobre as pessoas. Elas temem se colocar em pecado ao acolher a homossexualidade dos filhos. É uma luta inglória para o profissional de postinho de saúde tendo em vista o poder de influência que os líderes religiosos têm sobre suas ovelhas. Mas, comemoro a cada novo ano, ter ajudado a salvar vidas lindas que estão apenas começando.

Se você for acusado de ser um intolerante religioso faça como eu, abaixe sua guarda, deixe de lado os pecados comezinhos que os pastores te cobram (quantas vezes orou hoje? Dizimou corretamente esse mês? Vestiu-se de modo recatado para ir ao culto? Foi o líder espiritual da sua casa? É uma mulher virtuosa?) e encare um exame de consciência mais sofisticado: “Você combate todas as formas de violência?”. Posicione-se abertamente contra a violência física e psicológica que leva ao suicídio de adolescentes e adultos jovens. Talvez assim, você possa erguer sua cabeça e dizer: “não sou um intolerante!”.

Escrevo essa crônica porque desejo e preciso me posicionar. Não serei uma agente secreta em defesa de gays, lésbicas, bissexuais etc. Declaro abertamente: sou uma cristã de orientação protestante e defendo que qualquer tenha o direito de viver publicamente sua orientação sexual e identidade de gênero sem ser ameaçada, agredida, coagida ou assassinada por isso. Declaro que apoio a promoção integral dos direitos dessas pessoas e que rejeito qualquer discurso religioso que as aponte como doentes, desviadas ou pecadoras. Defendo que mulheres vítimas de violência sejam apoiadas e protegidas, inclusive podendo se afastar e solicitar medidas protetivas contras maridos agressores com o apoio de sua congregação religiosa. Por fim declaro que uma igreja que não acolha LGBTQIA+s e não combata a violência doméstica não me terá em suas fileiras. 

A expressão “viva e deixe viver” surgiu nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial (que resultou em 15 milhões de mortos). Não foram líderes políticos ou religiosos que a criaram e propagaram, foram os combatentes que estavam em seu limite quando viver passou a ser mais importante do que morrer pela pátria, por um ideal ou por uma verdade absoluta que não contemplava a existência do outro.

Você que me lê agora saiba: mesmo dentro das denominações, podemos romper com a intolerância declarando para um irmão: “Viva e deixe viver!”.

Desejo um 2024 de paz e verdadeira harmonia em nossas vidas!

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