Nada será como antes
Natal, RN 18 de mai 2024

Nada será como antes

21 de março de 2024
4min
Nada será como antes

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Ainda vai demorar para que tenhamos a dimensão real e coletiva do que a pandemia significou em termos de sociabilidade, ou da falta dela. A imposição ao isolamento, a morte, os medos, as sequelas, os lapsos de memória, os médicos oportunistas e seus falsos remédios milagrosos de cura, a luta por vacina e contra a desinformação, e até o direito negado ao luto... isso sem falar no projeto de extermínio social liderado pelo futuro inquilino da Papuda.

A falta do abraço, do toque, do contato, da visita surpresa e da presença física provocaram traumas irreversíveis. Cada um absorveu e enfrentou como pode. Nem todos conseguiram superar o sofrimento que tudo isso causou. 

Em recente passagem por Natal, no percurso até a Cidade Alta, perguntei ao motorista da uber que me conduzia como tinha sido o período de pandemia para ele. E o que mais sensibilizou João Paulo foi justamente as diferentes reações de pessoas comuns que não tinham a menor ideia de como lidar com aquela tragédia sanitária, mas sobretudo humana.

Numa das corridas que fez, uma mulher de vestido e cabelos longos entrou no carro e pediu que a levasse até a via Costeira, avenida que corta a Mata Atlântica ladeada pelo mar e onde estão localizados os principais hotéis da cidade.

Não havia destino certo na parada. A mulher só queria ir. Não disse uma palavra ao longo do trajeto até pedir parada, descer do carro e fazer um sinal com mão para que o motorista aguardasse alguns minutos antes de levá-la de volta. Num trecho da avenida, ao cair da tarde, a moça saiu do veículo, caminhou com os pés descalços sob a areia por alguns minutos e voltou. Dentro do carro de novo, comunicou ao motorista que a deixasse em casa. O silêncio só foi interrompido próximo ao portão de casa para agradecer e pagar a corrida.

Em outra chamada, João Paulo precisou socorrer uma família em desespero. O pai da mulher que pediu o carro pelo aplicativo havia sumido de casa e, sem telefone, com mais de 80 anos, ninguém sabia como encontrá-lo. O motorista saiu em disparada, rua por rua, primeiro no bairro Cidade Satélite, onde morava o idoso, e depois no percurso da BR-101, que corta a cidade. O homem foi encontrado já próximo ao Centro. Ele caminhava, caminhava e caminhava. Confrontado pela filha, disse que não aguentava mais ficar em casa. E simplesmente foi.

Antes que meu destino chegasse, João Paulo ainda lembrou uma terceira história, essa mais dolorosa. Uma jovem baiana que morava há poucas semanas em Natal pediu que a levasse ao aeroporto, de onde embarcaria para Salvador. Aos prantos, contou que tinha acabado de perder a mãe para a covid-19, menos de uma semana após a morte do pai. No percurso, entre um soluço e outro, a menina buscava consolo no motorista, que tentava, ao seu modo, segurar as lágrimas para não piorar a situação.

Difícil esquecer as histórias do João Paulo. Fiquei imaginando quantas outras passaram pelo carro dele durante os três anos mais longos dos últimos tempos.

Me despedi desejando boa sorte e agradecendo por dividir comigo as dores passageiras que de certa forma passaram a ser dele também.

Faltavam poucos minutos para o desfile da Banda Independente da Ribeira. Meu destino era o carnaval, a festa das sociabilidades, do povo, da cerveja com a galera, do abraço, do beijo, do contato, da presença física.

Ali nas ruas mal iluminadas da Cidade Alta e da Ribeira, reencontrei amigos, antigos colegas de trabalho, pessoas queridas que fazia tempo não via.

Voltei para casa feliz e aliviado, um privilégio depois de tudo o que atravessamos.

Porque a vida continua.

Ainda que nunca mais como antes.

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