“Segunda de Vagabundo” se reúne nas Rocas para celebrar boemia
Natal, RN 16 de abr 2024

"Segunda de Vagabundo" se reúne nas Rocas para celebrar boemia

5 de março de 2024
10min
Foto: Valcidney Soares

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O carnaval acabou, fevereiro também, mas tem algo que é sagrado e dura o ano inteiro: vagabundear. Há dois anos, a “Segunda de Vagabundo”, roda de samba entre as ruas Pereira Simões e Donzelas, nas Rocas, zona leste de Natal, tem atraído a atenção não só de gente do bairro, mas de outras regiões para fazer aquilo que todo boêmio gosta: ouvir música, prosear e beber cerveja.

O projeto nasceu em março de 2022. Inicialmente era apenas um grupo de quatro ou cinco amigos, gente de bandas de samba e pagode de Natal que trabalhavam o final de semana inteiro e aproveitavam a segunda-feira para folgar e resenhar entre si, conta Marcelo Nogueira, 36, dono da Esquina Prime Conveniência, point que recebe os “vagabundos”.

“Em meados de março de 2022, começou a reunião dos amigos. Sentou ali, juntos duas mesinhas, cada um com seu instrumento musical, sem caixa de som, sem mesa de som, e foram fazendo acontecer a coisa”, lembra.

Eram nomes como Debinha Ramos, Hugo Xanana, Anderson Tchio e Carlos Arthur, que foram recebendo outros músicos como Eri da Balanço do Morro, Roberto Cabanhas, Denício Boaventura e mais.

Já a conveniência tinha nascido poucos meses antes, em setembro de 2021. Entre o início da roda na segunda-feira até o “estouro”, pouco tempo se passou.

“Foi um sucesso bem rápido, realmente. Em março começou a galera a se reunir, aí já foi botando uma caixinha de som, já foram chegando outros sambistas”, diz.

O público é variado: são jovens, adultos, idosos, gente que está desde as primeiras rodas, até aqueles recém habituados à vagabundagem da segunda. Há quem seja cria das Rocas, mas também de bairros distantes. Até mesmo gente da região metropolitana de Natal se faz presente naquela que pode ser considerada a "pré-ressaca" da terça-feira, como a estudante de Audiovisual Luiza Amorim, 21, moradora de Nova Parnamirim.

“Eu gosto dessa experiência de estar na rua também, aqui é aberto, e você está convivendo com vários tipos de pessoas. Isso é muito legal”, define.

O sentimento é semelhante ao de Yuri Paes, de 32 anos. Ele diz que já ouvia falar da Segunda de Vagabundo desde o ano passado, e começou a frequentar a partir do segundo semestre de 2023.

Yuri Paes conheceu Segunda de Vagabundo no ano passado | Foto: Valcidney Soares

“E me apaixonei por aqui, porque é um canto que você tem o povo da comunidade. Você tem o povo da cidade se juntando pra curtir o samba, pra curtir a cultura popular no meio da rua, acessível ao povo. É um samba, primeiramente, para quem é trabalhador. Porque começa depois do expediente, termina cedo, então dá tempo da gente voltar para casa. É a cultura acessível pro povo”, atesta.

E o local para um samba em pleno início da semana não poderia ser outro. É que as Rocas é o berço do gênero em Natal e, por sua vez, do carnaval. O bairro da zona leste abriga as escolas de samba Balanço do Morro, Em Cima da Hora e Malandros do Samba. No desfile deste ano, a Malandros foi a grande campeã do grupo A, principal divisão do carnaval natalense; a Balanço bateu na trave: ficou em segundo, com um décimo a menos. Já a Em Cima da Hora venceu na divisão de acesso e vai voltar a disputar com as outras grandes em 2025. Por isso mesmo, a “Segunda de Vagabundo” é um compromisso sério para Maria das Dores Campos de Sousa, 77, a “Dorinha”, matriarca da Balanço do Morro, que faz questão de ficar lado a lado da roda de samba.

“A galera do futebol das Rocas sempre tinha pelada na segunda-feira, principalmente o pessoal do samba que toca no sábado e domingo, e na segunda é a folga deles. Aí eles jogavam ali no João Câmara [estádio do bairro] e quando vinham se reuniam aqui. Marcelo fundou essa conveniência, e a gente começou a vir, fazia um sambinha na mesa mesmo, sem som, só voz, violão, cavaco, palma da mão. E aí começamos com quatro ou cinco mesas, e foi aumentando, foi aumentando”, conta Dorinha.

Dorinha comanda escola de samba Balanço do Morro | Foto: Valcidney Soares

A matriarca — viúva do sambista Lucarino Roberto de Sousa, fundador da Balanço — ainda conta que tem dia lá que “não cabe ninguém” de tanta gente.

A festa também potencializa a economia do bairro. Além do próprio comércio da conveniência, outros ambulantes ao redor tomam as ruas e calçadas para ganhar seu dinheiro com a venda de bebidas e comidas. É o caso da técnica de enfermagem Sandra Coelho, 50, que aproveita para vender cerveja, água e refrigerante. 

“Isso aqui tá conhecido em Natal toda”, conta Sandra, cria das Rocas, com seu sotaque ainda carregado de duas décadas em que viveu no Rio de Janeiro. Ela ainda diz que, ao ir para outros locais, como na praia de Ponta Negra, bem distante dali, fala que vende também na Segunda de Vagabundo e o local logo é reconhecido.

Para o empresário da Esquina, Marcelo Nogueira, o projeto tem feito quebrar a barreira com o bairro. Ele também é nascido nas Rocas e hoje mora em outro bairro, mas a família permanece por lá.

“Graças a Deus a gente conseguiu romper essa barreira, romper esse preconceito. Ainda estamos na luta, esse preconceito que o pessoal tem com um bairro periférico, que a Rocas não deixa de ser um bairro periférico”, afirma.

Para ele próprio, ter aberto um negócio próprio foi novidade. O pai de Nogueira sempre teve comércio na praia, uma barraca em Santa Rita. Já ele veio de outra área, e demonstra não se arrepender:

“Sou formado em contabilidade e meti a cara.”

Samba, cerveja e cachaça

A Balanço do Morro, por sinal, possui seu DNA espalhado por toda a “vagabundagem” da segunda. Outro que se faz presente pela roda é Eri, criado dentro da escola de samba e morador da Rua do Motor.

“Na Balanço do Morro eu cheguei com 13 anos. Comecei como passista, aí vim pra bateria, fiquei um certo tempo, depois passei para intérprete. Hoje eu componho”, explica, comentando que a função de compositor também é seguida ao lado do amigo Evilásio.

Já o músico Denício Boaventura rememora a história contada por outros precursores da Segunda.

“Nós começamos aqui sem nenhum instrumento ligado, só pra brincar mesmo. E aí foi chegando gente, foi chegando gente, e a coisa foi tomando uma proporção maior. Começamos a ligar [os instrumentos], e o boca a boca que foi legal, tanto pra gente de Natal quanto de fora, e hoje está nessa grande proporção. Mais de 500 pessoas aqui toda segunda-feira. Os componentes são daqui das Rocas, todos eles, e de vários grupos. Cada um tem seu grupo, mas na segunda a gente se junta”, diz.

Dorinha com músicos da roda de samba | Foto: Valcidney Soares

E se o samba já é garantido, o que mais não pode faltar na Segunda de Vagabundo? Para Dorinha, a cervejinha é certa.

“O samba tem que ter [uma cerveja]. Um calor desse…”, brinca a matriarca.

“O que não pode faltar é alegria”, garante Marcelo Nogueira.

Já para Boaventura, os frequentadores, das Rocas e de fora, é que fazem a harmonia nota 10.

“Não pode faltar é o público, que abrilhanta o evento.”

“Debinha Ramos é nosso axé"

Neste ano, a Balanço do Morro desfilou homenageando outro filho das Rocas, e um dos sambistas iniciais da Segunda de Vagabundo. "Vou pedir para Ogum com força e fé, na Balanço, Debinha Ramos é nosso axé" foi o enredo da escola.

Debinha, com suas quatro décadas de samba, continua mantendo a energia e vitalidade que o fizeram se tornar um dos principais músicos natalenses. Sobre o sucesso que o projeto da Segunda de Vagabundo tem tomado, ele diz que não era algo esperado.

“A gente nem imaginava que isso ia acontecer dessa forma. As pessoas vêm de fora e já têm uma ideia que tem a Segunda de Vagabundo, vem e visitam a gente”, aponta.

Debinha mora exatamente vizinho à Esquina Prime Conveniência. Por volta das 20h40 desta segunda (4), ele ainda estava em casa. Resolvia algumas coisas, mas não se faria distante da roda. Ainda iria dar sua canjinha da noite. Convidado pela reportagem, sai do sofá rapidamente para tirar uma foto em meio à roda de samba. 

Debinha foi homenageado da Balanço do Morro neste carnaval | Foto: Valcidney Soares

Logo, a coincidência (ou a fé?) tomam de conta. Filho de Ogum, Ramos chega bem no momento em que a roda toca “Meu lugar”, famosa canção de Arlindo Cruz, com os versos “O meu lugar / É caminho de Ogum e Iansã / Lá tem samba até de manhã / Uma ginga em cada andar”.

Em poucos metros de caminhada, Debinha é cumprimentado e até reverenciado por uma moça com um boné vermelho estampado com uma estrela branca ao centro. Há duas estrelas na Segunda de Vagabundo.

Embora a música de Arlindo Cruz fale de Madureira, no Rio de Janeiro, outras semelhanças são guardadas com as Rocas: ambas são berços do samba de suas respectivas cidades; também são bairros populares dos municípios. Arlindo ainda fala que seu lugar “é cercado de luta e suor, esperança num mundo melhor e cerveja pra comemorar”.

Para Debinha, o projeto ajuda a girar a economia do bairro.

“É bacana que as pessoas ganham dinheiro aqui com a Segunda de Vagabundo. Isso é importante também para o bairro”, define.

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