O guardião: padre do RN acolhe fiéis na igreja de Dom Helder Camara
Natal, RN 26 de mai 2024

O guardião: padre do RN acolhe fiéis na igreja de Dom Helder Camara

7 de abril de 2024
26min
O guardião: padre do RN acolhe fiéis na igreja de Dom Helder Camara
Padre Fabio Potiguar dos Santos é guardião da memória e dos fiéis na igreja onde morou e militou o bispo considerado santo / foto: Rafael Duarte

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Um lugar sagrado e habitado por um santo profeta que mantinha uma relação de profunda intimidade com Deus. As palavras, cuidadosamente alinhadas, são do padre Fabio Potiguar dos Santos, capelão que acolhe fiéis há mais de seis anos na igreja de Nossa Senhora das Fronteiras, onde morou e militou em defesa dos mais pobres Dom Helder Camara, o mítico bispo emérito da arquidiocese de Recife e Olinda.

Dom Helder morreu em 1999, aos 90 anos, em Recife. O processo de beatificação e canonização do santo padre cearense tramita desde 2014 e aguarda resposta do Vaticano.

Natural de Currais Novos (RN), Fabio viveu no Rio Grande do Norte, rodou o Brasil, a Europa e chegou a Pernambuco após viver uma experiência espiritual marcante durante uma visita, em 2009, ao túmulo de Dom Helder, sepultado na igreja da Sé, em Olinda:

- Na época eu estava na paróquia de São Miguel do Gostoso (litoral potiguar). Vim a Olinda visitar o túmulo de Dom Helder e quando eu toquei a sepultura tive uma emoção muito grande, uma experiência espiritual, mística, nada de extraordinário, mas uma emoção especial que eu ainda não tinha sentido. Fiquei pensando naquela emoção toda e, na volta, falei com dom Jayme (arcebispo de Natal), que conversou com dom Antônio Fernando Saburido (arcebispo emérito de Recife e Olinda) e fui muito bem acolhido aqui”.

A igreja das Fronteiras é uma construção barroca do século XVII e, pela geografia católica do Recife, é considerada uma capelania localizada na área da paróquia da Soledade. O capelão é nomeado pelo bispo emérito da arquidiocese.

Igreja das Fronteiras construída no séc. VII / Foto: Rafael Duarte

Direitos Humanos e Comissão de Justiça e Paz

Com um perfil ligado à defesa dos direitos humanos e das causas sociais, a exemplo do mais famoso morador da igreja das Fronteiras, padre Fabio foi convidado em 2018 por dom Fernando Saburido a coordenar o processo de reinstalação da Comissão de Justiça e Paz, fundada por Dom Helder durante a ditadura e que cumpriu um papel fundamental nas garantias dos direitos sociais e também acolhimento e na defesa dos perseguidos políticos.

Como não havia defensoria pública nos anos de chumbo, a Comissão de Paz e Justiça oferecia assessoria jurídica e encaminhava as demandas que surgiam com as denúncias de violações aos direitos civis, políticos e sociais. Hoje, a comissão não tem mais a função jurídica, mas cumpre um papel de assistência, levando as solicitações para o Executivo estadual e municipal, bem como ao Ministério Público e aos demais órgãos de vigilância e investigação:

- Coordenei esse processo, tirando do baú coisas novas e velhas, trazendo tanto pessoas mais antigas, experientes, como pessoas novas. Pensávamos, nessa nova fase, trabalhar a questão da indivisibilidade e interdependência  dos direitos humanos, sejam os direitos civis e políticos, assim como os  direitos  econômicos, sociais, culturais e ambientais. A minha atuação na promoção, proteção e reparação dos direitos humanos sempre foi um compromisso de vida. Atuei nessa área na igreja, na sociedade civil organizada e no poder executivo no Rio Grande do Norte e também no Ministério dos Direitos Humanos", descreve.

Igreja das Fronteiras e o Instituto Dom Helder Camara

Padre Fabio chegou à igreja das Fronteiras em 2018 / foto: Rafael Duarte

Aos 55 anos, Fabio ainda se emociona ao falar de Dom Helder e de como se sente feliz e realizado trabalhando na igreja das Fronteiras:

- Esse é um lugar sagrado. Quando as pessoas visitam o Memorial Dom Helder Camara eu costumo fazer uma citação que está no livro Êxodo quando Deus se encontra com Moisés para libertar o povo da opressão na escravidão, no Egito, ele diz assim: “tira a sandália dos teus pés”. Eu costumo fazer esse pedido também: tira as sandálias dos teus pés, porque para nós esse é um lugar sagrado, foi onde viveu um místico, um santo, de profunda intimidade com Deus".

Padre Fabio não mora nas dependências da igreja, hoje transformada em um memorial com peças, registros escritos, documentos, imagens, vestimentas e lembranças do patrono nacional dos Direitos Humanos. O lar do padre potiguar fica próximo ao Memorial, no bairro das Graças, onde também é vigário-paroquial, na paróquia Nossa Senhora das Graças.

O Instituto Dom Helder Camara (IDHec) é o órgão responsável por manter o complexo das Fronteiras, que inclui igreja, casa museu, exposição permanente, o acervo de Dom Helder e a Casa de Frei Francisco, braço social do projeto.

"É graças a essa gente brava do instituto que podemos dizer que foi preservado tudo isso que temos no memorial e disponível em forma digital. Ao IDHeC a nossa imensa gratidão", completa.

Com Dom Helder, dois encontros

Padre Fabio reinstalou a Comissão de Justiça e Paz em Recife / foto: Rafael Duarte

Fabio esteve com Dom Helder em dois momentos, mas não chegaram a conversar. No primeiro, nos anos 1980, o potiguar ainda era um jovem seminarista. De passagem por Recife, assistiu a uma missa que o bispo emérito celebrava na igreja das Fronteiras:

- O que nos encantava de imediato era ver como Dom Helder celebrava, com que piedade. Dom Helder era um profeta da justiça, da fraternidade, da paz, mas sem sombra de dúvida era um profeta da Justiça. Profeta é quem passa na cara da gente, e ele denunciava as injustiças, como os profetas do antigo testamento também denunciavam”, explica.

O segundo encontro ocorreu no Rio de Janeiro, já na década de 1990, durante a celebração dos 50 anos de ordenação sacerdotal de Helder Camara. A missa foi realizada na catedral do Rio sob a condução do arcebispo emérito do Rio de Janeiro, o potiguar Dom Eugênio Salles, idealizador da Campanha da Fraternidade. Camara e Salles tinham respeito mútuo:

- Eram duas figuras diferentes e símbolos da unidade e da diversidade da igreja. Dom Eugênio chamava Dom Helder de “profeta” e Dom Helder chamava Dom Eugênio de “patriarca”. Lembro quando Dom Eugênio anunciou que só o papa João Paulo II havia sentado naquela cátedra e que agora seria a vez de Dom Helder. E então Dom Helder celebrou a missa dos 50 anos. Foi a única vez que pude chegar perto, abraçá-lo e pedir a bênção”, lembra.

Dom Helder e os 60 anos do golpe de 1964

Dom Helder foi um dos principais opositores à ditadura / foto: acervo IDHeC

Na sacristia da igreja das Fronteiras, padre Fabio fala devagar e parece procurar as palavras no tempo no meio de tantas lembranças que lhe trouxeram até ali. Após nosso primeiro encontro, em Recife, conversamos outras vezes. Pergunto sobre a importância de celebrar Dom Helder Camara em 2024, ano em que o Brasil relembra os 60 anos do golpe civil militar:

- Sem sombra de dúvidas a figura do Dom foi uma das mais destacadas nacional e internacionalmente para denunciar a ditadura e suas práticas. Era conhecido como o Dom da Paz, Dom da Justiça e da fraternidade. Defensor ardente da democracia, dos direitos humanos e sociais. Por causa disso foi perseguido, silenciado e teve o padre Antônio Henrique, seu assessor para a juventude, assassinado brutalmente, em 1969.  Criou a Comissão de Justiça e Paz e diversas pastorais sociais, onde à luz da doutrina social da Igreja, atuou na promoção da dignidade humana. Depois de 60 anos do golpe, o legado de Dom Helder continua importante para a gente reafirmar a democracia, tão fragilizada no mundo. Ditadura nunca mais. Nem de direita nem de esquerda. Democracia sempre", destaca o padre potiguar.

Na sacristia adaptada, um palácio franciscano

Quarto onde Dom Helder via a lua pelas frestas / Foto: Rafael Duarte

Dom Helder Camara desembarcou em Recife em 1964, já com a ditadura instalada e para substituir o então arcebispo Dom Carlos Gouveia Coelho, que não resistiu a complicações de uma cirurgia. Logo na chegada, o bispo cearense relutou em morar no palácio episcopal, residência oficial das autoridades religiosas, e passou a procurar um lugar mais simples para viver. À época, uma parte da igreja católica já resistia às insígnias e ao luxo dos palácios.

Um ano depois, no Concílio de 1965, os bispos selaram o “pacto das catacumbas”, renunciando aos símbolos que remetiam a algum poder econômico. Era o que faltava para Dom Helder mudar de mala e cuia para a igreja das Fronteiras, de fácil acesso e construída em homenagem à Nossa Senhora Assunção, padroeira de Fortaleza, cidade natal do santo padre. O endereço não podia ser mais propício. Ele brincava dizendo que morar perto da casa "das irmãs filhas da caridade" era garantia da boia.

Para receber Dom Helder, a igreja precisou adaptar a sacristia, transformada em uma morada simples, sem ostentação, chão de madeira e paredes no reboco. Já hospedado no novo lar, chamava a atenção pelo bom humor ao atender o telefone saudando a quem estava do outro lado da linha:

“Aqui é do Palácio episcopal”.

Estátua em frente à igreja das Fronteiras

Os cômodos da casa estão preservados como deixou o antigo morador. No quarto, pequeno, estão lá a cama, guarda-roupa, três pequenas cômodas de madeira, oratório e quadros na paredes. Ao deitar, Dom Helder conseguia ver a lua e as estrelas pelas frestas do teto.

- Era muito devoto de São Francisco de Assis, fazia votos pelos pobres, amava a natureza. Em seus escritos, Dom Helder já falava sobre a questão ambiental. Dom Vicente de Paula também era uma referência para ele”, conta padre Fabio.

A biblioteca, além da mesa e dos livros que não foram para o acervo, estão duas cadeiras e uma escrivaninha. Na saleta de estar, onde se vê uma TV, uma mesa redonda com cadeiras e uma rede armada, Dom Helder recebia as autoridades políticas e artistas famosos. Passaram por ali para um dedo de prosa com o bispo personalidades como Chico Buarque, Milton Nascimento, Luiz Gonzaga, Maria Bethânia e Elis Regina.

Sala onde dom Helder recebia autoridades políticas, religiosas e artistas / Foto: Rafael Duarte

Em depoimento dado ao IDHeC disponível no youtube, Chico Buarque conta uma história curiosa de um show realizado no ginásio Geraldão, em Recife. O compositor sentia que a apresentação não estava empolgando muito a plateia e que ele mesmo não estava muito bem. Isso até o momento em que lhe informaram da presença de Dom Helder no local. A partir daí,  a energia mudou e Chico se jogou nos braços do público.

O bispo emérito de Recife e Olinda era um amante da cultura. Gostava de frequentar cinema, teatro, exposições de artes e, todos os anos, o Bloco da Saudade parava em frente à igreja das Fronteiras para festejar seu aniversário, que quase sempre coincidia com o carnaval. Dom Helder também promovia no Palácio dos Manguinhos os saraus culturais com as mais diversas manifestações culturais.

- Com a aprovação do IDHeC, e juntamente com a diretoria do Instituto e a articulação com os artistas locais, estamos estamos retomando esse projeto", conta o padre potiguar.

O pequeno quintal também guarda muitas histórias no palácio episcopal franciscano de Dom Helder. Os jasmins e roseiras plantadas por ele levavam até a uma portinha, que no tempo do bispo era a entrada principal da casa. Por ali, centenas de pessoas pobres e flageladas pediam ajuda ao homem considerado santo. Também passavam as autoridades políticas e religiosas do país e do mundo inteiro, além de artistas que vinham se apresentar no Recife.

Jardim onde Dom Helder plantava rosas; ao fundo a porta sempre aberta aos fiéis / Foto: Rafael Duarte

Outra história que cerca o imaginário em torno do santo padre envolve um homem que bateu na porta em dia de muita chuva, entrou na casa e começou a chorar. Quando Dom Helder perguntou o motivo de tamanho sofrimento, o homem contou que chegou até ali com a missão de matá-lo, mas não teria coragem de executar o serviço, saiu e nunca mais apareceu. 

Há outro episódio sinistro envolvendo o bispo e a ditadura. As paredes da casa de Dom Helder foram metralhadas em 1969 por apoiadores do regime de exceção. Os autores dos disparos nunca foram identificados. Após o episódio, os militares chegaram a oferecer segurança a Dom Helder, que recusou dizendo que não morava sozinho, mas “com o Pai, o Filho e o Espírito Santo”.

Censura

Como não podia matá-lo, a ditadura tentou silenciar ao máximo a voz de Dom Helder. Proibido de dar entrevistas no Brasil, aproveitou uma viagem a França para denunciar na Sourbonne, a mais tradicional universidade francesa, as torturas e mortes cometidas pelo Estado brasileiro. Ainda hoje, Dom Helder Camara é o brasileiro com mais indicações ao prêmio Nobel da paz. Foram quatro, ao todo. Por pressão do governo brasileiro na época, todas foram negadas:

- Um grupo do Japão ofereceu um Nobel alternativo. A Comissão Nacional da Verdade provou a interferência do governo militar para que ele não recebesse o prêmio”, diz o padre potiguar, durante um passeio pelo memorial.  

Mesmo antes da ditadura militar, Dom Helder já era muito respeitado e reconhecido como um hábil articulador nos bastidores. Ele se tornou bispo em 1952, mesmo ano em que idealizou e ajudou a fundar a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), sendo o primeiro-secretário-geral da entidade. Em 1955, ainda coordenou o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional. Foi também uma das figuras mais importantes do Concílio Vaticano II que renovou a igreja, realizado de 1963 a 1965.

Dom Helder deixou mais de 100 mil páginas escritas

Biblioteca onde Dom Helder escreveu mais de 100 mil textos / foto: Rafael Duarte

Nas Fronteiras, Dom Helder acordava pontualmente às 2 horas da madrugada para rezar e depois começava a escrever. Ele deixou quase 100 mil páginas, das quais aproximadamente 65 mil escritas à mão, entre cartas, crônicas para jornal, discursos, entre outros textos. E também usava uma máquina de escrever para registrar suas mensagens.

Todo o acervo do bispo emérito foi catalogado pelo Instituto Dom Helder Camara e, desde o último arrombamento no local ocorrido em 2020, está armazenado na Universidade Católica (Unicap). Incluindo registros em jornais e revistas sobre o bispo emérito, são mais de 200 mil documentos. O acervo completo está digitalizado.

A rotina do guardião

Padre Fabio celebra missa nas Fronteiras / Foto: Rafael Duarte

Guardião da igreja que acolheu Dom Helder, padre Fabio tem uma rotina semelhante. Acorda às 6h, faz as primeiras orações, incluindo a liturgia das horas, e inicia suas atividades eclesiásticas e pastorais: 

- A primeira coisa que a gente tem na vida é um momento de espiritualidade, oração, ficar a sós com Deus, a centralidade da celebração eucarística, a administração dos sacramentos, as reuniões de trabalho ... eu também gosto muito de andar de bicicleta. Vou voltar a celebrar missa no Parque da Jaqueira de bicicleta”, diz.

A Comissão de Justiça e Paz tem uma sala dentro da Cúria principal da Arquidiocese, sede das reuniões quinzenais do grupo. De um lugar para outro, Fabio se locomove quase sempre de bicicleta, meio de transporte preferido.

Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso

Padre Fabio também é o presidente da Comissão para o Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife. O ecumenismo é a relação da igreja católica com as outras igrejas e comunidades cristãs. Já o dialogo inter-religioso é a ligação com as religiões não-cristãs. Essa demanda não chega a ser novidade na vida do padre potiguar. Fabio já trabalhava nessa área quando era presbítero na Arquidiocese de Natal.

As reuniões do Conselho Nacional de Igreja Cristãs (Conic) e também no Fórum Diálogo Inter-religioso de Pernambuco acontecem uma vez por mês. Participam do Conic, além da igreja católica, as igrejas ortodoxas, luterana, anglicana e aliança de batistas. O encontro é no terraço das Fronteiras, transformado em lugar de convivência fraterna, oração e trabalhos. Já do Fórum Diálogos participam, além das igrejas já citadas, os judeus, muçulmanos, espíritas, religiões de matriz africana, budistas, hindus e fé baraii.

A Arquidiocese promove dois importantes encontros. Na dimensão ecumênica, a Semana de Oração pela Unidade Cristã ocorre na semana que antecede o Pentecostes. Já na dimensão do diálogo inter-religioso, o evento é incluído no calendário dos festejos de São Francisco de Assis, um encontro de oração pela Justiça e a Paz.

- No fórum diálogo inter-religioso estamos engajados na luta para incluir o ensino religioso nas escola para garantir a liberdade religiosa. Essa questão é um problema. Percebemos como tem sofrido os terreiros de matriz africana. Hoje, quando há uma denúncia vamos onde o terreiro foi agredido, fazemos ato de reparação, além de acompanhar as medidas judiciais cabíveis”, conta.

Padre Fabio destaca que a promoção dos Direitos Humanos à luz da doutrina social da igreja católica, juntamente com o ecumenismo e o diálogo inter-religioso, segundo os documentos da igreja, está no foco da ação pastoral que desenvolve à frente da igreja das Fronteiras:

- Temos que superar a intolerância religiosa, temos que respeitar as diferenças. Discurso de ódio, racismo, homofobia, misoginia e todas as formas de preconceito e discriminação não são condizentes ao discipulado de Jesus. Não somos do ódio, somos do amor. Jesus disse: Amai-vos! Não somos da guerra, somos da paz. O Cristo nos disse, eu vos deixo a minha paz", ensina.

Projetos sociais

Outro foco da igreja das Fronteiras é nos projetos sociais tocados em parceria com o Instituto Dom Helder Camara, que abriga a Casa de Frei Francisco, fundada por Dom Helder desde 1984. O trabalho é realizado com jovens adolescentes em situação de vulnerabilidade, no bairro dos Coelhos, oferecendo, no contra-turno da escola, oficinas de música, artes, cidadania e direitos humanos. Há parcerias ainda com o sistema S, voltadas para cursos profissionalizantes, seguida de entrada no programa Jovem Aprendiz, como forma de entrada no mercado de trabalho.  

"Temos o apoio entidades internacionais católicas, as contribuições de sócios e benfeitores e importantes convênios com o poder público municipal e estadual, além da Assembleia Legislativa", cita.

O ciclo da existência humana

Sobre a rotina na igreja, Fabio classifica como uma “experiência profunda” e ainda hoje se surpreende quando se dá conta de que, por vezes, num único dia, precisa lidar com todo o ciclo da existência humana:   

- Imagine que num dia só eu vou batizar uma criança, em seguida faço a unção dos enfermos no hospital, celebro um casamento e depois vou a um cemitério sepultar uma pessoa. A vida, com suas lágrimas e sorrisos, atravessa a vida do padre. A gente precisa ter estrutura emocional, espiritual e suporte para poder ajudar”.

Midiático nos anos 2000, padre Fabio mergulhou em busca de paz

A fala pausada, em tom baixo, não é de um homem triste, mas contrasta um pouco com a efusiva alegria de outros tempos. O padre Fabio Potiguar é lembrado ainda hoje em Natal como “o padre cantor” e pela militância cultural e na área de Direitos Humanos.

No início dos anos 2000, época que arrebanhava milhares de fiéis em missas na catedral de Natal e realizava shows em todas as regiões do país, os louvores cantados o colocaram na prateleira dos padres pop stars ao lado de outros ícones, como Marcelo Rossi, Padre Zezinho e padre Zeca, de quem é amigo ainda hoje.

No ano 2000 foi a quase todos os shows JC 2000 realizados nas capitais brasileiras, além de ter participado dos principais programas de auditório na televisão da época, como o Show da Xuxa, onde esteve por duas vezes. No período, lanço um disco autoral pela MZA - Universal Music, que incluía louvores, uma música de Rita Lee (José), outra de Raul Seixas (Tente outra vez), além de canções mais ligadas à justiça social e músicas das comunidades eclesiais de base.

- Não sei explicar com exatidão sobre aquele momento. Sou filho do tempo, a gente acontece no tempo, o encontro entre você e a história. Tenho certeza que cumpri meu papel de levar a alegria do evangelho através das canções nos shows e nos meios de comunicação da época. Cantava músicas da renovação carismática, da teologia da libertação e MPB. Mas depois, com todo carinho e respeito aos que cantam, percebi que não era o meu lugar. Jesus me pedia mais”, lembra, sem querer se aprofundar muito no tema.

Fabio falava com muitas pessoas no período mais midiático de sua trajetória religiosa. Ele apresentava um programa na rádio Cabugi, líder de audiência no Rio Grande do Norte, escrevia uma coluna nos jornais Diário de Natal e Tribuna do Norte, também fazia uma oração às 6h e outra às 18h, na rádio 96 FM, e realizava diariamente o programa “Coração em Deus”, na TV Ponta Negra, afiliada do SBT.

Mais de duas décadas depois, Fabio parece cultivar outra relação com os órgãos de comunicação. Não mantém nem rede social própria. Senão nas missas que celebra, prefere se comunicar com os fiéis através das contas oficiais da igreja das Fronteiras:

- A paróquia tem suas redes, se eu quiser falar eu falo no instagram, facebook e youtube da igreja ou, então,  nas entrevistas que dou. É tão bom assim... não sinto falta nenhuma de ter conta própria, eu não gosto. Se gasta muita energia nisso. Ninguém é obrigado a gostar de rede social”, afirma.

Por falar em padres midiáticos, ele nega que o epíteto Potiguar tenha sido incluído no nome para diferenciá-lo do padre Fabio de Mello, hoje mais conhecido.

“Não tem a menor possibilidade. No tempo em que eu cantava, o padre Fabio de Mello não tinha ainda projeção nacional", frisa.

O Fabio Potiguar, conta, vem da época de seminarista, no Rio de Janeiro:

- O seminário era imenso com seminaristas de várias dioceses de muitas partes do Brasil. Me dei esse nome. Não era gaúcho nem capixaba, era um potiguar. Daí para homenagear o Rio Grande do Norte me dei esse nome que só pegou mesmo bem mais na frente, quando a partir do ano 2023 eu comecei a escrever meu nome assim”, explica.

Com as mãos no coração: a comunicação pelos livros

Lula recebe exemplar do livro "O Santo Revelado", em Recife / Foto: cedida

Outra forma de comunicação é a literatura. E padre Fabio também tem o dom da palavra. Em julho de 2023, lançou, em Natal e Recife, com sucesso de público, o livro “Com as mãos no coração 2”. Da tiragem de mil exemplares, só restam 200. A obra saiu pelo selo potiguar Sebo Vermelho, conta com orelha do frei Leonardo Boff e depoimento do escritor e dramaturgo Ronaldo Correia Brito.

- É um livro que trata do abraço e do beijo de Deus que canta e dança  com a gente. Tem vários capítulos, como o Mistério de Deus, trevas luminosas, o Sofrimento de Deus e o nosso sofrimento, a Humildade de Deus com jarra, bacia e toalha nas mãos e, finalmente, Deus que grita no pobre e geme na criação sobre as questões sociais e ecológicas”, descreve.

Do lançamento em Natal, participaram amigos, familiares e a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT).

Presente a Lula

Durante visita do presidente Lula a Recife em 2020, após deixar a prisão e ainda durante a pandemia, Fabio entregou a ele um exemplar do livro "O Santo Revelado", uma fotobiografia de Dom Helder Camara organizada pelo jornalista Augusto Lins Soares.

Dois anos após o registro fotográfico da entrega do livro, Lula venceu as eleições de 2022 e exerce hoje o terceiro mandato à frente da presidência da República. Sobre a expectativa em relação ao governo, padre Fabio destaca a garantia da democracia:

- Foi fundamental, ao meu ver, a sua vitória para garantia do estado democrático de direito e retomar várias políticas públicas estruturantes nos mais diversos setores. Contudo, vivemos ainda um momento de muita tensão, polarização. Esse clima ainda não está resolvido, mas está melhor. Sem deixar de considerar a fragilidade de sua base no parlamento. Torcer para que dê certo e aumentemos os indicadores econômicos, sociais e ambientais para que todos vivam com dignidade".

Os fiéis de ontem e os de hoje

Padre lava e beija os pés de José

A porta no quintal da igreja das Fronteiras que ficava sempre aberta na época de Dom Helder hoje permanece fechada por motivos de segurança. O templo religioso já foi vítima de roubos e arrombamentos. Mas os pedidos por socorro continuam, embora com menos intensidade. Pergunto sobre os desejos de hoje. O que pedem os mais aflitos e necessitados ao padre que acolhe os fiéis na igreja do bispo considerado santo ?  

- As pessoas costumam fazer o mesmo pedido. Têm fome de Deus e fome de pão. Dom Helder tinha o grande sonho, levar o pão da vida, Jesus para o coração de todas pessoas e, em um mesmo sonho, um Brasil e um mundo sem fome e sem guerras. Ele fez conferências no mundo inteiro, principalmente na Europa e nos EUA, lotando estádios, ginásios, auditórios, igrejas, universidades com esta mensagem. Dom Helder, mais do que ninguém viveu as bem-aventuranças evangélicas dos que têm fome e sede de justiça e são artífices da paz, como está escrito no evangelho de Mateus capítulo cinco. Daí, que ele pôde ouvir com certeza as palavras de Jesus que estão no capítulo 25 do mesmo evangelho: “Vinde benditos de meu Pai para o Reino preparado para vós, porque tive fome e me destes de comer", recita o guardião das Fronteiras.  

Padre Fabio também vê semelhanças entre Dom Helder e o papa Francisco, especialmente no cuidado com a justiça social:

Nesses tempos de ódio e desigualdade temos um papa que prega o amor. É um escândalo para o Ocidente a gente produzir tanta miséria, fome. A igreja deve ser esse lugar de acolhida e não de um legalismo moralista, um neoliberalismo espiritual. A igreja tem que ser o lugar que acolhe todos, todos e todos”.

Fabio compara a figura do padre a de um “lavador de pés”. A imagem sugere humildade, renúncia e amor ao próximo: 

- Eu entendo que o padre é um lavador de pés. Jesus, na última ceia, não tomou somente o pão e o cálice de vinho, mas a bacia, a jarra e a água. A mensagem ali era: “se eu sou o Senhor e lavei os pés de vocês, vocês devem passar a lavar os pés uns dos outros”. Me toca quando as pessoas percebem isso”, diz.

Santo sorriso

O sorriso é uma das marcas do padre Fabio Potiguar / foto: cedida

Pergunto agora como o guardião dos fiéis de Dom Helder gostaria de ser reconhecido. Ele volta à figura do lavador de pés e lembra de uma experiência na paróquia do novo Guararapes, onde também atuou em Recife. Lá, os primeiros pés que lavou foi do seo José, um dos fundadores da capela do bairro.

- As pessoas falam muito do meu sorriso. Já mudei tanto, morei em outras cidades, trabalhei em outras paroquias, vivi em outros países. Já ficando coroa, eu quero ser lembrado pelo sorriso, mesmo que esteja chorando por dentro. Porque o padre não está isento por isso. O padre é capaz de se compadecer. O padre super-herói, lá em cima no pedestal, não é muito compatível com o evangelho”, reflete.

Se servir é o verbo mais conjugado na igreja das Fronteiras, sorrir é uma espécie de ator coadjuvante no filme da vida do padre Fabio Potiguar:

- Estou feliz, mas essa felicidade não significa estar numa plenitude, ela (a felicidade) vai se construindo. É como a lua.... a gente se reinventa quatro vezes no mês: na lua nova, cheia, minguante, crescente... É como o sol que, teimosamente, nasce e renasce todo dia”.

Assim como Dom Helder, o atual guardião da igreja das Fronteiras também gosta de cinema, vai ao teatro, assiste ao desfile dos blocos líricos e do maracatu no Recife Antigo durante o carnaval, e se deixa guiar pela literatura.

Já ao final da entrevista, ele pede para citar o escritor russo Dostoievski "que escreveu que a beleza vai salvar o mundo, tanto no livro Idiota, como em Os Irmãos Karamazov". E emenda:

- Não dá para ser só a dimensão da espiritualidade e do trabalho. Porque no fundo, no fundo, a gente não quer só comida. A gente também quer bebida, diversão e arte”, encerra. 

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