Nos 60 anos do golpe de 1964, ato em Natal diz não à anistia
Natal, RN 30 de mai 2024

Nos 60 anos do golpe de 1964, ato em Natal diz não à anistia

1 de abril de 2024
4min
Nos 60 anos do golpe de 1964, ato em Natal diz não à anistia
Foto: Jana Sá

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Por 21 anos o grito de “nunca mais” saiu abafado. Nesta segunda-feira (1º), contudo, familiares de vítimas da ditadura, entidades e ativistas vão às ruas de Natal lembrar os 60 anos do golpe civil-militar para que o horror não seja esquecido.

O ato faz parte do dia de mobilização nacional e luta pela democracia. Na capital potiguar, acontece a partir das 16h, na praça Pedro Velho.

A manifestação deve relembrar nomes como o de Anatália de Souza Alves de Melo, Édson Neves, Quaresma, Emmanuel Bezerra dos santos, Geraldo Magela Fernandes Torres da Costa, Hiram de Lima Pereira, José Silton Pinheiro, Lígia Maria Salgado Nóbrega, Luíz Ignácio Maranhão Filho, Luís Pinheiro, Virgílio Gomes da Silva, Zoé Lucas de Brito e ainda Djalma Maranhão (morto no exílio decorrente da ditadura) e Glênio Sá (pós-ditadura em circunstâncias suspeitas). Eles fizeram parte dos potiguares que foram perseguidos, presos, sequestrados, torturados e assassinados pela ditadura brasileira.

Em uma carta aberta divulgada à sociedade, os organizadores do ato desta segunda em Natal dizem que o esquecimento não pode se tornar política oficial no Brasil, e que ignorar o passado para evitar problemas no presente é perigoso. Para as entidades e organizações, ocultar os crimes do Estado brasileiro abre caminho para sua repetição.

Na carta intitulada “60 anos do golpe - ditadura nunca mais”, os signatários dizem que, nos últimos anos, o Brasil assistiu a um aumento do autoritarismo, “com crescente disseminação do ódio e intolerância política, de gênero, cultural e religiosa”. As ações, afirmam, foram empreendidas por líderes políticos e empresariais, junto com militares, numa tentativa de minar direitos e liberdades.

“Embora os desfechos das eleições de 2022 e do episódio de 8 de janeiro de 2023 tenham sido diferentes, o perigo autoritário persiste. A extrema-direita continua ativa, exigindo que lembremos de 1964 e rejeitemos também futuras tentativas antidemocráticas”, aponta o documento.

Os subscritores dizem que, após o fim da ditadura, o Brasil falhou em lidar com os crimes do passado, e que a interpretação da Lei de Anistia de 1979 como garantia de impunidade levou ao silenciamento e esquecimento forçados, em nome de uma suposta reconciliação nacional. 

“Isso permitiu que as práticas da ditadura continuassem, com violência policial e o papel dos militares sendo mais de articulação com grupos políticos do que de subordinação ao poder civil e à vontade popular”, traz trecho da carta.

O documento ainda diz que, “diante do retrocesso do governo Bolsonaro e da tentativa de golpe, esperávamos mudanças.” 

“No entanto, o governo Lula optou pelo silêncio para evitar conflitos com os militares, ignorando as lutas por justiça e verdade. Não aceitaremos a perpetuação do esquecimento. Exigimos que o governo Lula reconsidere sua posição”, reivindica a carta.

Assinam o documento o Sindicato dos Bancários do RN, SINAI, SINDSAÚDE-RN, Sintest RN, Associação Juízas e Juízes pela Democracia, Advogados e Advogadas pela Democracia, Justiça e Cidadania - Seção RN, Juristas Potiguares pela Democracia, MLB, ART - Aliança Revolucionária dos Trabalhadores, CSP Conlutas, Intersindical, PSTU, POR - Partido Operário Revolucionário, PSOL, Professor Robério Paulino, UP, Ministério Pão e Vida e Rede Pindorama.

Leia a carta completa:

O esquecimento não pode se tornar política oficial no Brasil. Ignorar o passado para evitar problemas no presente é perigoso. Ocultar os crimes do Estado brasileiro apenas abre caminho para sua repetição. Por isso, em 2024, quando completamos 60 anos do golpe civil-militar de 1964, afirmarmos com firmeza: Ditadura Nunca Mais! 

Nos últimos anos, vimos um aumento do autoritarismo, com crescente disseminação do ódio e intolerância política, de gênero, cultural e religiosa. Líderes políticos e empresariais, junto com as Forças Armadas, tentaram minar direitos e liberdades, repetindo a história de 1964. 

Embora os desfechos das eleições de 2022 e do episódio de 8 de janeiro tenham sido diferentes, o perigo autoritário persiste. A extrema-direita continua ativa, exigindo que lembremos de 1964 e rejeitemos também futuras tentativas antidemocráticas. 

A ditadura civil-militar representou um retrocesso para o Brasil. Implantou uma política econômica que acentuou a desigualdade social, perseguiu trabalhadores, povos indígenas, população negra e LGBTQIA+, e fortaleceu a militarização da polícia, dando origem a grupos violentos ainda ativos. Muitas pessoas foram sequestradas, presas, censuradas, torturadas e mortas durante esse período, e muitas ainda estão desaparecidas. 

Após o fim da ditadura, o Brasil falhou em lidar com os crimes do passado. A interpretação da Lei de Anistia de 1979 como garantia de impunidade levou ao silenciamento e esquecimento forçados, em nome de uma suposta reconciliação nacional. Isso permitiu que as práticas da ditadura continuassem, com violência policial e o papel das Forças Armadas sendo mais de articulação com grupos políticos do que de subordinação ao poder civil e à vontade popular. 

Diante do retrocesso do governo Bolsonaro e da tentativa de golpe, esperávamos mudanças. No entanto, o governo Lula optou pelo silêncio para evitar conflitos com os militares, ignorando as lutas por justiça e verdade.

Não aceitaremos a perpetuação do esquecimento. Exigimos que o governo Lula reconsidere sua posição. Convocamos todos os potiguares, entidades, militantes, movimentos sociais, sindicatos, partidos políticos, artistas e intelectuais para se juntar a nós e gritar: Ditadura Nunca Mais! Participe do evento público no dia 1º de abril, às 16h, na Praça Pedro Velho. 

Pela reinstalação da Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos Políticos! Pela reinterpretação da Lei de Anistia de 1979! Sem anistia para os de hoje e de ontem! Prisão para Bolsonaro!

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