Pesquisadora da UFRN investiga efeito da maconha nos sonhos
Natal, RN 27 de mai 2024

Pesquisadora da UFRN investiga efeito da maconha nos sonhos

13 de abril de 2024
4min
Pesquisadora da UFRN investiga efeito da maconha nos sonhos

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“Os sonhos podem trazer respostas e inspirações, podem trazer aquilo que por vezes escondemos de nós mesmos. Podem nos salvar da realidade que criamos”. Quem diz isso é a psiquiatra Mariana Muniz, do Instituto do Cérebro, da UFRN. Discípula do professor Sidarta Ribeiro, ela complementa:

“Os sonhos servem como preparação para situações difíceis que vivemos na vida, reencontrar pessoas queridas, viver situações de prazer, absurdo, terror, sensações que nossos corpos não podem experimentar, como voar, por exemplo. É um palco em que encenamos as profundezas de nossa vida num ambiente em que as leis são totalmente flexíveis”.

Atualmente no mestrado em Neurociência, Mariana tem investigado os sonhos, porém, a partir de um enfoque bem particular, condizente com sua trajetória na psiquiatria humanista, ciência psicodélica e medicina canábica. Seu objetivo é compreender quais os efeitos no sono relatados por quem usa a maconha e seus derivados.

A pesquisa, intitulada "A neblina dos sonhos verdes: um questionário exploratório", está na fase de análise preliminar dos dados coletados a partir de um formulário aberto na internet. Mais de 4 mil voluntários já participaram. Quem quiser contribuir, o material ainda está disponível clicando neste link.

Na segunda fase do estudo, alguns voluntários serão contactados para fornecer relatos de sonhos e fazer um diário de uso. "Assim poderemos acessar melhor e processar os relatos em IA gerando métricas que são bastante sensíveis e podem gerar mais conhecimento sobre o que habita o inconsciente dos usuários", explica a pesquisadora.

No mundo, pesquisas sobre impacto das drogas nos sonhos são antigas

Mariana comenta que dentro dessa área de pesquisa os estudos mais abrangentes são sobre sono. O que reforça não apenas o pioneirismo da sua iniciativa, mas a importância, uma vez que pode suscitar mais estudos em desdobramento.

Entretanto, ela destaca algumas curiosas pesquisas no campo dos sonhos envolvendo as drogas.

“Moreau de Tours, um psiquiatra francês da primeira metade do século XIX, escreveu sobre sua experiência com haxixe na época recorrendo ao sonho como ferramenta de descrição, criando uma hipótese que unia a psicose aos sonhos”, cita a pesquisadora. “Estudos em psicopatologia dos anos 70 relacionaram o Delirum Tremens, quadro extremamente grave de abstinência alcoólica, que é composto de psicose, convulsões e colapso cardiovascular, com conteúdo onírico”.

E, mais recentemente, ela destaca o cientista italiano Claudio Colace. “Descreveu em seus trabalhos que pacientes internados para suspender o uso de heroína sonhavam intensamente com a droga nos primeiros dias. E, a depender do enredo do sonho, se a pessoa sonhava que estava preparando a droga e despertava antes de usar, apresentava sintomas mais exuberantes de abstinência que aqueles que sonhavam que usavam heroína, sentiam os efeitos e lembravam-se que estavam em processo de tratamento, acordando com menos sintomas de abstinência e com maior sucesso no tratamento”.

Correlação entre tipo de uso da maconha e a violência policial

Quanto à sua própria pesquisa, Mariana explica que basicamente quer entender se há diferenças entre o uso do óleo de maconha com prescrição médica e o consumo adulto em diferentes frequências de uso. E se essas diferenças influenciam nas características qualitativas dos sonhos, frequência de pesadelos, sonhos lúcidos e na qualidade do sono.

Mas há muito mais a ser descoberto. “Quero entender também superficialmente se há alguma correlação entre violência policial com o tipo de uso e perfil sociodemográfico, partindo claramente de uma hipótese de que a guerra às drogas gera violência desnecessária, e que há uma elitização no acesso à maconha dita medicinal”, detalha a cientistas da UFRN. “Vivemos um período crítico no Brasil sobre maconha, e é muito importante produzir esse conhecimento para desmistificar o tema, e poder orientar melhor os usuários e a sociedade em geral”.

O assunto é importante e desperta bastante curiosidade. E como diz a frase no final do questionário da pesquisa de Mariana: "A ciência brasileira precisa dos seus sonhos".

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