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Réquiem para Ubirajara Macêdo: há Bira após a morte

Raimundo Ubirajara Macedo, nosso Bira, morreu dia 4 de julho. Deu adeus aos seus familiares e ao seu um milhão de amigos – ele devia ter muito mais que isso, colecionados em seus 99 anos de vida.

Estive com Ubirajara Macedo pela primeira vez em uma situação que eu sempre imaginei que aconteceria ao contrário: ele esteve em minha noite de autógrafos. Era o lançamento em Natal do livro “Vozes da Democracia – Histórias da Comunicação na Redemocratização do Brasil [Intervozes e Ioesp, 2007]”, cujo capítulo “A Coojornat e outras lutas na memória e na voz de Luciano de Almeida” fora escrito por este escriba – única história do RN contada no livro. O vi já em cima, não deu nem tempo de tremer.

Depois cheguei a vê-lo algumas vezes na praia de Pirangi em um condomínio no qual familiares meus têm um apartamento e onde Bira veraneou algumas vezes. Sempre o cumprimentava, mas não arriscava maior aproximação – era meu receio de “entrar” na história, já contada em outros escritos.

Em 2010, porém, apoiei uma chapa de oposição nas eleições da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e telefonei para alguns colegas para pedir voto. Eu era pouco conhecido, acabara de retornar ao RN depois de oito anos fora, além de ser muito jovem se comparado à maioria dos colegas sindicalizados. Será que Ubirajara Macedo votaria conosco? Perguntei-me.

O jornalista Rudson Soares autografando o livro para Bira (foto: arquivo/Rudson Soares)

Bira fora o primeiro vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas do RN (Sindjorn) ao final dos anos 70 e na histórica greve de 1986 – citada no livro de que fui coautor – foi o único jornalista do Diário de Natal (Associados) a aderir ao movimento. “Você quer meu voto? Venha aqui em casa mostrar as propostas”, convidou-me o decano do jornalismo potiguar, fazendo meu coração disparar – eu ainda com o fone do orelhão na mão naquele final de manhã de sol quente.

Nascia ali uma relação de confiança política da qual muito me orgulho. Por algumas vezes, o nonagenário Ubirajara Macedo saiu de casa para votar em eleições sindicais em chapas que compus – fosse da Fenaj, fosse do Sindjorn. O fez até onde a saúde o permitiu. Até vídeo ele gravou, em tempos de redes sociais. Fomos derrotados em todas as eleições, mas “minhas derrotas são minhas vitórias”, já disse Darcy Ribeiro.

Sempre que chegava para votar, Bira perguntava por outro gigante, Arlindo Freire, primeiro presidente do Sindjorn e que para meu orgulho, também se transformara em nosso eleitor. Quase 15 anos mais moço que Bira, Arlindo morreu ano passado. Perguntava também por Luciano de Almeida, personagem do livro já citado neste escrito, ex-preso político, vice-presidente do Sindjorn durante a histórica greve de 86 e, para nosso orgulho, também eleitor de nosso coletivo.

Ubirajara Macêdo gostava de falar e refletir sobre a história que viveu. Nas vezes em que conversamos isso ficava muito claro. Tinha a dimensão de seu tempo histórico, da importância do que testemunhou. Sempre afirmava que nunca fora comunista, visto que era católico praticante. Sua essência política era o nacionalismo, integrou o “Grupo dos 11” potiguar, células nacionalistas incentivadas por Leonel Brizola e compostas por 11 membros, numa alusão a times de futebol e chegou a se filiar ao PTB.

Bira vestindo a camisa do coletivo de oposição à diretoria do SindJorn “Luta em pauta” com Christiam Vasconcelos, Rudson Soares e Ana Paula Costa

Uma de suas lutas foi contra o imperialismo simbolizado pelas sete irmãs – megacorporações transnacionais de petróleo – e por isso engajou-se na campanha O Petróleo é Nosso, que resultou na criação da Petrobras, ficando ele conhecido no jornalismo potiguar ao assinar a Coluna Nacionalista, na Folha da Tarde, pequeno jornal empastelado pelo Golpe Militar de 1964.

Durante a 2ª Guerra Mundial, o jovem Ubirajara fora convocado para o exército brasileiro – servindo em Cotovelo e depois em Macau – sendo, por causa disso, ex-combatente. Foi ainda dirigente do ABC Futebol Clube, responsável pela “Voz do ABC”, programa veiculado na Rádio Nordeste, emissora em que trabalhava.

Trabalhou também n’A República e foi um dos editores da Tribuna do Norte, onde passou a madrugada de 1º de abril de 1964. Preso poucos dias depois do Golpe Militar, dividiu cela com Vulpiano Cavalcanti, Aldo Tinoco, Paulo Frassinetti, Meri Medeiros, Guaraci Queiroz, Geraldo Pereira e com o prefeito apeado do cargo Djalma Maranhão, entre outros perseguidos políticos.

Para melhorar o astral do ex-secretário municipal de educação Moacyr de Góes, também preso, os colegas de cela fizeram debates sobre o nome de seu filho, que nasceu durante o cárcere do pai. Prevaleceu a homenagem de Moacyr ao escritor francês Leon Bloy ao batizar seu herdeiro, o hoje conhecido ator Leon Góes.

Pouco depois que saiu da prisão, Ubirajara Macêdo, em 1966, foi morar em São Paulo, onde ficou mais de cinco anos. Os Correios, onde ingressara por concurso, o transferira. Chegou a ser vendedor de livros para melhorar o minguado orçamento doméstico, até conseguir ingressar em alguns veículos de imprensa, como a Rádio Piratininga, a Folha de São Paulo e a Editora Abril.

Aposentado dos Correios, retornou ao Rio Grande do Norte onde – em parceria com Carlos Lima, seu ex-colega de prisão – criou a revista “Cadernos do RN”, depois rebatizada de Folha dos Municípios. Em seguida, ingressou no Diário de Natal onde ficou por 17 anos, até se aposentar.

Participou das fundações da Cooperativa dos Jornalistas de Natal (Coojornat) e do Sindjorn. Com a redemocratização aderiu ao PDT, rompendo com o partido de Brizola quando este aceitou a entrada de Lavoisier Maia e Vilma de Faria na legenda, vindos do PDS.

Na década de 1990, Bira foi personagem importante na fundação do Clube dos Amantes da Boa Música (Clambom), ao lado de figuras como o radialista Luíz Cordeiro e a cantora Glorinha Oliveira, entre outros. O Clambom promoveu eventos importantes no cenário musical da capital potiguar, com presenças de convidados como Sérgio Cabral e Paulinho da Viola, e teve sua história contada no livro “Clambom – um Clube de defesa da boa música [Sebo Vermelho, 2008]”, de autoria de Ubirajara Macedo e Pedro Wiliam Cavalcanti.

Bira escreveu também “…e lá fora se falava em liberdade [Sebo Vermelho, 2001]”, livro em que conta algumas de suas lembranças da prisão. Publicou ainda, mesmo estando por esta época duas vezes em uma UTI, “No Outono da Memória – o jornalista Ubirajara Macêdo conta a história da sua vida [Sebo Vermelho, 2009]”, em concorridíssima noite de autógrafos na qual compareci, como sempre imaginei que aconteceria um dia. A publicação, em parceria com o jornalista Nelson Patriota, conta as memórias de Ubirajara Macêdo desde sua infância em Macaíba, cidade onde nasceu.

Seu último livro foi o romance “A Saga de Joaquina – do ateísmo ao cristianismo [Sebo Vermelho, 2014]”, cuja disputada tarde de autógrafos ocorreu no saguão do prédio onde morava em razão de suas limitações de saúde. Mesmo muito cansado, Bira demonstrou sua velha generosidade que seus amigos bem conheceram, dando-lhes, inclusive a este que vos escreve e aos colegas jornalistas Rafael Duarte e Yuri Borges, preciosos minutos de atenção.

Lançamento do último livro de Bira, no saguão do prédio onde morava, ao lado de Yuri Borges, Rafael Duarte e Rudson Soares

Há três anos – alguns meses antes de trocar o RN pelo Piauí, onde moro atualmente – lhe visitei pela última vez. Bira acabara de retornar de um período no hospital e a capacidade de me reconhecer já não lhe era integral, embora conseguisse se reportar a fatos do momento, como sua própria condição de saúde, além de manifestar preocupação com o golpe parlamentar que acabara de apear a presidenta Dilma do cargo.

Não fecha a lacuna deixada, mas ameniza a dor saber que Bira viveu intensamente, que combateu o bom combate, que foi amigo dos amigos. Sinto-me um privilegiado de nos últimos anos de sua vida ter ocupado uma pequena edícula (para chamar de minha) em sua casa-consciência.

Na última visita que lhe fiz percebi que o documentário que um dia desejei fazer sobre ele já não poderia ser produzido com sua presença, mas com a dos familiares e amigos. Dois anos antes, com os jornalistas Iano Maia e Yuri Borges – três amadores em produção cinematográfica – chegamos a fazer algumas reuniões com vistas a tal película, mas fomos engolidos por agendas da vida.

Vida após a morte é (também) a permanência do personagem nos corações e mentes dos que com ele conviveram, bem como nos das gerações seguintes, sob um olhar que contemple sua dimensão histórica e o seu legado. É compulsória a responsabilidade histórica dos familiares, dos amigos, da sociedade potiguar: manter Ubirajara Macedo vivo.

Bira vive!!! Viva Bira!!!

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