O Talibã nosso de cada dia
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O Talibã nosso de cada dia

16 de agosto de 2021
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A primeira vez que eu ouvi falar em “Afeganistão” foi no comecinho dos anos 1980, quando os soviéticos invadiram o país.

Naquela época, ainda criança, corri para um Atlas Barsa branco que tinha na biblioteca da casa dos meus pais no conjunto Mirassol, e fui buscar a localização do estranho lugar que repentinamente havia se tornado notícia constante no telejornal que meu pai assistia toda noite, quando voltava dos atendimentos no hospital colônia Dr. João Machado. Na época eu não sabia que aquele país, localizado muito longe do horizonte do meu mar, havia sido criado através de uma linha imaginária.

A Linha Durand era um traçado artificial desenhado pela diplomacia britânica ainda no século XIX para criar um “estado tampão” na Ásia central e proteger o Hindustão britânico (a joia da coroa do império colonial inglês) da influência do Império Russo.

Como todas as fronteiras que os europeus traçaram para as suas colônias, a Linha Durand não levava em conta as peculiaridades étnicas e linguísticas da região. A divisão, que atendia aos interesses geopolíticos do império britânico, acabou separando o território dos pashtûns, povo que habitava toda a região do rio Indo até as montanhas do Hindu Kush, empurrando parte deles para o sul do Afeganistão e outra parte para o oeste do que viria a ser o Paquistão.

No século XIX, essas mesmas tribos, especialmente após a derrota britânica na primeira guerra afegã e a vexatória retirada dos ingleses de Cabul em Janeiro de 1842, eram pintadas pela opinião pública ocidental como tribos incivilizadas que deveriam ser tratadas com o peso do chicote, o estrondo do canhão e submetidas aos rigores da “Lei de serviços fronteiriços”, que servia para manter a ordem em zonas selvagens, situadas na periferia do “império onde o sol nunca se põe”.

Eu não sabia, mas eram esses pashtûns que apareciam retratados como “guerreiros da liberdade” em um combate heroico contra o invasor comunista no filme “Rambo III”.

Com a graça da idade já não lembro de quase nada daquela bosta hollywoodiana de 1988, estrelada por um jovem Silvester Stallone no auge do sucesso. Daquele lixo cinematográfico só me vem à mente uma cena ridícula dos tais mujahedjins combatendo os blindados soviéticos, cavalgando de fuzil em punho junto a um Stallone que exibia seus músculos enquanto carregava o parecia ser uma bazuca.

Em 1996, já com a cabeça formada pelos auspícios do tal “fim da história” que embalaram os anos 90, vi novamente nos telejornais notícias do Afeganistão. A novidade era que os tais “guerreiros da liberdade” finalmente haviam derrotado os “malvados” comunistas e tomado Cabul. O que me deixou mais impressionado na época foi a informação de que os parceiros de Rambo haviam matado o ex-presidente comunista Mohammad Najbullah que, segundo a mídia paquistanesa, teria sido arrastado preso a um jipe pelas ruas de Cabul antes de ser fuzilado.

As notícias de que os “guerreiros da liberdade” haviam implantado um regime de terror com uma versão bem mais radical da Shariah e feito o país retroceder, em termos de direitos e garantias fundamentais, ao século VII da era comum; só passaram a ser constantes do lado de cá de Greenwich sete anos depois da execução de Nabjullah. Foi justamente o 11 de Setembro, que subitamente mudou tudo, transformando os amigos de Rambo em terroristas fundamentalistas sanguinários.

Depois da queda das torres gêmeas, seriam eles, os agora chamados Talibãs, que supostamente dariam apoio a Al Qaeda de Bin Laden. Por isso mesmo deveriam ser inevitavelmente varridos da face da Terra quando os norte americanos, seus antigos aliados, botassem as botas em território afegão após terem despejado suas milhares de toneladas de bombas sobre as montanhas do país.

Quem diria, amigo velho, que esse professor de província, 25 anos depois de ter assistido pela TV o Talibã entrar em Cabul para expulsar o que havia sobrado da invasão soviética de 1979, voltasse a assistir, dessa vez pela TL do seu celular, o mesmo grupo retornar a capital do país inventado pelos ingleses no século XIX, dessa vez para expulsar o que havia sobrado da invasão estadunidense de 2001.

A história não cansa de fazer os nossos vaticínios políticos derraparem em suas curvas.

Mas o fato é que o cenário ainda é muito confuso.

Hoje, o Talibã é um agregado de milícias tribais, formado em sua maioria por líderes pashtûns, mas que se aliaram com outros chefes regionais e que se apresentam com um relativo apoio popular. Eles aparecem como uma força que poderia por ordem no caos deixado no rastro da invasão norte americana de 2001. Um agregado de “guerreiros de Deus” que poderia varrer do mapa a corrupção dos políticos que colaboravam com Washington e fornecer ao povo mais pobre a segurança perdida no esteio do fracasso absoluto da intervenção ocidental.

Apesar disso o que costura toda essa nova tapeçaria étnica e essa ideologia de ordem, ainda é a mesma leitura religiosa que remota ao século X e que coloca uma perspectiva fundamentalista do islamismo como alternativa à decadência para onde a modernidade (identificada com os valores culturais ocidentais) teria empurrado o mundo.

Para um país como o Brasil, que durante a maior parte da sua história é tratado (e se comporta assim) como o quintal de potências coloniais, assistir os guerrilheiros Talibã botarem os norte americanos para correr depois de vinte anos de ocupação militar pode ser até auspicioso.

Mas a perspectiva de voltarmos a ver mais uma vez, como 25 anos atrás, a eclosão de um mundo pré-moderno em pleno século XXI; com punições penais medievais (como a mutilação de membros), apedrejamento de mulheres, destruição de obras de arte e queima de bibliotecas, acaba tornando a vitória Talebã na tal “guerra contra o terror” um auspício sinistro do que pode acontecer em nosso próprio terreiro.

Sim, somos muito diferentes.

Sul americanos, ocidentais, cristãos. Nações que se constituíram no esteio do avanço do capitalismo mercantil. Colônias formadas por africanos escravizados e povos originários massacrados. Não tivemos idade média nesses sertões (a despeito do esforço de Ariano Suassuna inventar uma pra gente).

Apesar disso, não há como negar que o mesmo espírito que alimenta a retrotopia reacionária do Talibã de 1996 já caminha há algum tempo entre nós.

No velho militar aposentado que quer ressuscitar a ditadura. No galinha verde tremendo de medo da ameaça comunista. No miliciano neo nazista que fala em decadência do ocidente. No católico ultraortodoxo que chama o Papa Francisco de usurpador comunista (porque o Papa “verdadeiro” seria Bento XVI). No incel ressentido que delira com imagens fantasmagóricas de orgias universitárias para as quais nunca é convidado. No monarquista saudoso da época da escravidão. No cidadão de classe média que quer ver o preto de volta pra senzala, o gay de volta pro armário e a mulher de volta pra cozinha. No apresentador de programa policial que baba de raiva quando clama para que a PM complete logo o seu genocídio penal. No pirado do WhatsApp que defende o terraplanismo científico da anti vacinação, saudoso de uma cosmovisão pre-copérnicana. No pastor que grita histérico no seu púlpito, clamando por uma interpretação radical do Levítico, enquanto sonha com um judeu imaginário que só existe nas novelas da rede Record.

Não precisamos de Cabul para temer o retorno do passado recalcado. No Brasil de Bolsonaro e dos seus milicianos, o Talibã já chegou em Kandahar.

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