O legado de Paulo Freire não passa de frase de efeito no Brasil
Natal, RN 12 de abr 2024

O legado de Paulo Freire não passa de frase de efeito no Brasil

17 de setembro de 2023
4min
O legado de Paulo Freire não passa de frase de efeito no Brasil

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Por Giovanna Mantuano - socióloga, mestre em ensino de ciências humanas e educadora.

Que o nordestino Paulo Freire é o patrono da Educação brasileira nós já sabemos – sendo o educador do nosso país mais citado internacionalmente no meio acadêmico. Embora fosse um grande defensor da educação no Brasil, a gente rolou ladeira abaixo, com governos totalmente hostis, à exemplo de Jair Messias Bolsonaro (para citar o mais recente), com um métier contra os ganhos já conquistamos historicamente. Movimentos como o Escola Sem Partido, o Homeschooling e a militarização de escolas públicas, são exemplos claros do avanço conservador das extremas e novas direitas nos assuntos que dizem respeito à Educação. Felizmente, projetos fracassados no âmbito institucional, muito embora eles não tenham sido diluídos enquanto movimento ideológico-político na sociedade.

Paradoxalmente, pesquisar sociológica e empiricamente compete em quebrar padrões científicos e paradigmas cristalizados no curso acadêmico. Especialmente entre os intelectuais de esquerda das Ciências Humanas e Sociais, a ideia reiterada é a de que a educação bancária, criticada por Freire, é a abordagem pedagógica preferida dos ricos, burgueses, “entusiastas do capital” - estes, supostamente querem que seus filhos assimilem conteúdos que cairão nos processos seletivos, provas, vestibulares, operando apenas pela lógica conteudista.

Ledo engano! Explico: em uma pesquisa rápida na rede, temos acesso a informações suficientes para que se saiba que quem usufrui de uma decente pedagogia, resultante de pesquisas e métodos científicos, modernos, inovadores e às vezes não tradicionais, que estimulam o livre pensamento crítico no lugar do puro e simples “conceber e operar” taylorista, são os filhos das elites. São as escolas particulares desse país que gozam de uma educação fundamentada em pedagogos considerados transgressores a pedagogia tradicional; eles se valem de métodos de Maria Montessori, Jean Piaget, Lev Vygotsky, o próprio Dewey, e em alguns e raros casos, o radical Célestin Freinet.

Sem descartar a tradicional aula magistral, por meio das escolas particulares, e em consequência delas, são os filhos das elites que desfrutam de uma educação de ponta, baseada, também, em movimentos como Escola Nova e Escola Moderna, com todo o conhecimento crítico ancorado nas Ciências Humanas, Sociais e Filosóficas, de maneira inter, multi, pluri e transdisciplinar.
Não é à toa que a maioria dos filhos dos pensadores, professores e artistas dos setores médios desse país estudam em escolas privadas. Não que seja um erro, mas um grande abismo entre teorias e práticas. A escola do povo e para o povo, aquela pensada por Freire, não é a escola frequentada pelos filhos dos críticos desse país!

Ao pesquisar Paulo Freire e os respectivos pedagogos humanistas, fica claro os abismos existentes em relação às grandes teorias e sua aplicabilidade cotidiana. Aqui, há uma grande contradição. A escola pública da classe trabalhadora não acessa os métodos pedagógicos pensados para ela. O legado de Paulo Freire não passa de frase de efeito no Brasil, enfeitando bibliotecas, escritas em cartazes ativistas e nada de aplicabilidade no cotidiano de quem precisa do ensino libertador de forma integral: os filhos das classes populares.

As ideias de Paulo Freire continuam fazendo cabeças nas escolas e principalmente nas universidades. Uma pena: ideias que não saem do papel. O discurso é bonito e as metodologias alternativas são louváveis e bem-vindas à educação, mas infelizmente só os filhos das elites desfrutam do ensino ancorado na ciência de ponta. Os métodos citados não alcançam a quem deveria. De nada adianta metodologia alternativa se este método não chega na base, nos filhos da classe trabalhadora. Lutemos não só por uma educação livre, mas, sobretudo, por uma educação pública, gratuita e libertadora, com menos frase de efeito e mais chão de fábrica.

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