Sampa tem samba e amor até mais tarde
Natal, RN 17 de jul 2024

Sampa tem samba e amor até mais tarde

14 de setembro de 2023
6min
Sampa tem samba e amor até mais tarde

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Ela tinha outros planos, mas a vida adora lhe presentear com doces e inusitadas surpresas. A proposta inicial era ir pra São Paulo encontrar a filha pra celebrar, na sua companhia, aqueles 20 anos da existência dela, que já estava solta na pauliceia desvairada há quase uma semana, numa viagem com outra amiga que, igualmente, havia completado 20 anos, dias antes.

Certo que as jovens também tinham outros planos, afinal estavam sozinhas em Sampa e, na verdade, o motivo da viagem, além da dupla comemoração, era a realização de um desejo reprimido, alimentado por mais de dois anos de intervalo de vida e de espera, já que uma pandemia acabou roubando os melhores momentos do ensino médio delas: se jogar no primeiro festival de rock de suas vidas, como se não houvesse amanhã.

Sabendo disso, chegou na hora do almoço, na véspera do aniversário da filha, que coincide com o feriado de 7 de setembro, data em que as duas amigas estavam com ingressos já comprados para o tal festival. Mas, mesmo com pouquíssimo tempo para aproveitar, mãe e filha possuem esse laço ancestral que ninguém explica, e os poucos dias de distância foram suficientes para provocar as também inexplicáveis saudades, que buscaram matar em pouco mais de 24 horas.

Embora cansada e ansiosa para curtir toda a line up do dia seguinte, a aniversariante topou a programação frenética acertada com a mãe, pra marcar a data, formada pelo combo: Beco do Batman + stand up comedy, no Clube do Minhoca + restaurante peruano com o melhor alfajor do mundo. Mesmo que quase nada tenha saído conforme milimetricamente planejado, foi um dia intenso e feliz, que acabou por volta da meia-noite, com o tradicional parabéns.

Na manhã seguinte, a mãe e a amiga da aniversariante se alternaram em demonstrações de carinho que incluíram desde bolo, coxinhas e churros ao acordar até um churrasco gourmet num almoço apressado, enquanto se preparavam para o festival, já que o transporte saia no início da tarde, ao mesmo tempo em que também arrumavam as malas, pra deixar tudo pronto, afinal o voo das meninas, de volta pra Brasília, estava marcado para as primeiras horas da manhã do dia 8. E na velocidade 2.0, as duas estavam prontas pra serem despachadas pro melhor, e até então único, festival da vida delas.

Assim que fecharam a porta do apartamento que gentilmente uma grande amiga da mãe havia disponibilizado pra hospedagem, libertaram uma mulher que não tinha a menor ideia do que fazer com tanto (e raro) tempo livre. Até então, pensava que teria a companhia da amiga, dona do apê; mas ela acabou viajando para a casa dos pais, no interior, deixando apenas Joventina, a gata cega (que depois descobrimos ser a real proprietária do imóvel), aos cuidados das hóspedes.

E mesmo que a tentadora preguiça, além dos olhos, os sentidos e o ronronar da bichana, começassem a lançar um feitiço para mantê-la dentro daquele apê gostoso, ela decidiu que tinha a obrigação de aproveitar, seja lá o que isso significasse. Não demorou a descobrir outros amigos que coincidentemente estavam na cidade, dispostos a ajudá-la a cumprir tal obrigação. O convite pra cerveja a levou ao Bar Moela, onde um bom papo despertou o desejo de mais e a sede de samba.

Como os amigos também a abandonariam em breve, pra irem ao mesmo festival em que sua filha (e 99% da população que invadiu a cidade) estava, perguntou a um casal que morava lá onde poderia encontrar um bom samba. “Rua Aspicuelta, na Vila Madalena”, responderam sem hesitar, mas também sem endereço muito específico, como aliás costumam ser os endereços dos melhores sambas, aqueles que brotam da vontade de quem alimenta a alma com as batidas do surdo e do tamborim.

E foi esse destino incerto e inexato escolhido no aplicativo de transportes que provocou a curiosidade natural do motorista. “Você colocou aqui Rua Aspicuelta, mas não indicou o local. Em que altura da rua pretende ficar?” - perguntou. Revelou que tinha sede de samba, e lhe disseram que nessa rua ela encontraria. Aquela resposta desarmou o profissional, que, contagiado por todo aquele desejo, olhou firme para a passageira, seriamente tentado a encerrar o expediente e acompanhá-la no samba.

No entanto, como não tinha certeza de que ela aceitaria aquela proposta, seguiu estratégia mais inteligente, e a levou ao melhor samba da Aspicuelta, enquanto lhe perguntava se estava indo sozinha e lhe contava das intenções de largar o serviço e que, se o samba tivesse bom, poderia dar uma passada, de repente. Pediu apenas que ela pegasse o whatsapp dele para o caso de, se não gostasse do lugar, ele levá-la a outro, ou, se gostasse muito, apenas lhe avisasse se estava bom, que ele iria. Ela entendeu a mensagem subliminar e o interesse, mas não teve coragem de dizer em voz alta o que pensava, embora o corpo todo dela gritasse: só vem!

Não é que o danado do samba tava mesmo incrível! Depois de dançar as primeiras quatro músicas, com a alma, a mente, e cada músculo do seu ser, e tomar duas heinekens de coragem, enviou o convite com uma selfie, dizendo que o lugar tava maravilhoso, e que, se fosse ele, não perderia aquele samba por nada. “Já tô na porta, te vendo dançar”, respondeu. Foi ali que ela percebeu que além da sede de samba, tava com fome de se sentir viva. E a noite inteira eles dançaram, dançaram, dançaram, dançaram, dançaram e dançaram, por seis lindas e deliciosas vezes, a fazendo esquecer até mesmo que precisava estar em casa antes das 3 da manhã, pra ajudar na partida das jovens de 20 anos, que no fim das contas se viraram bem sem ela, apesar de estranharem ao perceberem que só Joventina, a gata, viera se despedir.

Depois que ele a deixou em casa, já pela manhã, saciada de tanto carinho, ela abriu novamente o aplicativo, que pedia: avalie o motorista. Não teve dúvidas: 5 estrelas; muito simpático; bom condutor; sabe o caminho. Na observação, um recado: descobri que Sampa tem samba e amor até mais tarde; volto em breve...

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