Potiguar fala sobre viver em Israel durante guerra: “segundo holocausto”
Natal, RN 5 de mar 2024

Potiguar fala sobre viver em Israel durante guerra: “segundo holocausto”

15 de outubro de 2023
14min
Potiguar fala sobre viver em Israel durante guerra: “segundo holocausto”

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“Tá tocando a sirene de vez em quando aqui”, Hannah Hebron, 31 anos, avisa, antecipando eventual interrupção na conversa pelo WhatsApp na noite da sexta-feira (13). Potiguar de Natal, Hannah mora em Tel Aviv desde 2018 e é cidadã israelense desde 2019. Assim como os mais de 9 milhões de habitantes do país, há uma semana, no dia 7 de outubro, foi supreendida pelos ataques do grupo islâmico Hamas e declaração de guerra por parte de Israel.  

De acordo com a rede Al Jazeera, no sábado (14), o número de feridos no conflito armado ultrapassava 12 mil. A contagem de mortos estava em 2.215 palestinos e 1.300 israelenses. Três brasileiros foram assassinados. Judia e casada com israelense, Hannah classifica o período como “segundo holocausto” e comenta essas e outras perdas, com exaustão. 

“A gente já perdeu muita gente. Todo dia tem alguém que a gente conhece que ou morreu, ou tá desaparecido, ou foi convocado.” 

Confira entrevista completa:

Agência Saiba Mais: Como está a rotina de vocês desde que foi declarada a guerra? 

Hannah Hebron: Eu não sei nem te responder. Não tem rotina. É dia a dia.  

- Quando toca a sirene vocês precisam ir pra bunker, não é? Tem acesso à internet nesses espaços? 

Sim, eu tenho um bunker dentro de casa. A gente colocou um repetidor de internet lá. 

- Você já tinha alguma ligação com o país? Por que foi morar em Israel? Está trabalhando atualmente? Fale um pouco de você. 

Sou judia. Estava morando no Rio de Janeiro desde que me formei na faculdade. Fiz Jornalismo na UFRN [Universidade Federal do Rio Grande do Norte]. Trabalhava com Marketing e queria um up na carreira. Decidi vir pra Israel, porque é um país com muitas empresas de tecnologia, muitas startups. Fiz um intercâmbio pra jovens judeus que envolvia um estágio numa startup e passeios culturais que mostraram futuros possíveis de coexistência. Durante o estágio conheci meu marido, Amit, israelense. Decidi imigrar oficialmente e consegui um trabalho na área, numa empresa global de origem israelense, Wix. Fiquei lá por um bom tempo, depois recebi uma proposta e fiquei um ano em um e-commerce israelense de óculos que opera nos EUA, GlassesUSA, e depois voltei pra área de tecnologia. Agora eu sou gerente de produto numa startup do ramo do legal opera também nos Estados Unidos. Moro no centro de Tel Aviv. Meu marido é daqui. Ele é business analyst  em uma empresa de tecnologia francesa. A família dele tem origem no Iraque.  

Amit e Hannah, na Grécia. Foto: acervo pessoal

- Você mora só com seu marido? 

Sim, mas já recebemos cinco amigos que não têm abrigo em casa. Agora tem dois. Tá todo mundo assim: quem pode receber gente, amigos ou desconhecidos, tá recebendo. 

Vocês passam até quanto tempo no bunker? 

Dez minutos depois de cada sirene.  

- E quantas vezes chega a tocar por dia?

No Sul, as pessoas estão morando nos bunkers. Depende da área. Aqui, hoje já tocou três vezes. Teve dia que não teve míssil aqui em Tel Aviv, mas as ruas estavam vazias. Tá todo mundo com muito medo de outro atentado terrorista. Fora o que começou isso tudo. A gente já perdeu muita gente. Todo dia tem alguém que a gente conhece que ou morreu, ou tá desaparecido, ou foi convocado.  

Três brasileiros que estavam na festa [festival "Universo Paralelo", de música eletrônica, realizado no sábado (7) em deserto no Sul do país, interrompido por ataque do Hamas] foram assassinados pelos terroristas. O Renani era irmão de um colega de adolescência, a Bruna era amiga de várias amigas minhas, a Karla não só era amiga de muita gente que eu conheço, era uma pessoa incrível que ajudou muitas das minhas amigas que chegaram aqui sozinhas. Todo mundo numa festa. Podia ser um Rock in Rio, um Coachella. Imagina que caem terroristas de paraquedas num festival e começam a matar todo mundo, sequestrar e estuprar/executar pessoas do seu lado. Eu tô na base do Rivotril desde que isso aconteceu.  

- Continua trabalhando? 

Minha empresa transferiu quase toda a carga de trabalho para as sedes de Nova Iorque e do Arizona. Eu não trabalhei essa semana. Minha colega em NY pegou minha carga e a empresa não tá descontando dia de trabalho. Eu não consigo prestar atenção em nada. Tô com muito medo do antissemitismo. 

- Vocês conseguem sair de casa pra fazer alguma coisa? 

A gente saiu pra comprar mantimentos. E passear com a nossa cachorra bem pertinho. Só. Tem gente que tá saindo mais, que se recusa a perder a normalidade. Eu tô muito assustada, não tô saindo. Ontem a gente fez um jantar aqui em casa pro melhor amigo do meu marido e pra noiva dele. Era pra ser o casamento deles, mas foi cancelado por causa da guerra. Foi o único dia que eu sorri desde que isso tudo começou.  


- Percebe que a cidade está bem abastecida? Ou teme que falte algo?
 

Já não tem garrafa de água. Está com limite de ovo e laticínios. Legumes também não tem muito. Mas estamos bem abastecidos. Hoje de manhã [sexta-feira,13] tinham cafés abertos, mas fecharam de tarde quando começaram as sirenes. Ovo e leite (das marcas locais) têm preços controlados pelo governo. Desses produtos tem limite, não sei exatamente qual, porque a gente tinha bastante ovo em casa quando tudo começou e eu não bebo leite nem como manteiga, então não precisei comprar.

Nota da edição: De acordo com matéria publicada no site Roma News, durante a última semana, a rede de supermercados Grupo Shufersal limitou a compra por pessoa em 60 garrafas de água mineral de 1,5 litro, duas bandejas com 12 ovos ou uma bandeja com 30 ovos, 3 embalagens de leite e até dois sacos de pães. 

- A água encanada é apropriada para beber?

Não é recomendável, mas dá. A maioria das pessoas aqui tem uma jarra com um filtro de brita em casa. A gente toma água assim. 

- Você tem contato com comunidade de brasileiros em Israel? Tem amigos brasileiros vivendo aí? 

Sim. A maioria dos meus amigos são brasileiros. Eu trabalhei no marketing do Wix.com pro Brasil. O time é alocado aqui. Então, a maioria das amigas que eu conheci lá são brasileiras. 

- E como estão todos? 

A maioria das minhas amigas saiu do país. Duas foram no voo da FAB, mas a maioria voou para a Europa no primeiro voo que conseguiu.  

Hannah mostra rua vazia perto de casa. Foto: acervo pessoal

- Você também pensa em sair? 

Sinceramente, eu tô com medo da guerra, mas também tô com muito medo do antissemitismo. Temos visto muitos comentários como “mas é isso que eles merecem pelo que fizeram com a Palestina”. Mas assim, o povo civil não fez nada. A gente vive a nossa vida. Eu sou uma pessoa liberal, de esquerda, voto em partidos com representação árabe, porque eu acredito piamente que não existe futuro que não caibam dois estados, um palestino, um israelense. O problema é que eu tenho visto muitas pessoas ditas educadas e pró-direitos humanos falando que a Palestina vai varrer Israel, os colonos, a ocupação. Nós somos um país com criação legitimada e bancada pela ONU. O povo palestino merece um país soberano, mas o povo judeu também. Todos esses comentários estão me assustando muito. Minhas amigas judias na Europa estão escondendo símbolos judaicos e evitando ir à sinagoga ou em clubes judaicos, escolas. Uma amiga judia em Londres nos convidou pra ficar na casa dela. Mas eu sinceramente tô com medo da escalada do discurso de extermínio de judeus, um antissemitismo pautado numa causa nobre.  

- Elas escondem que são judias por precaução ou já perceberam ou foram alvo de antissemitismo lá? 

A recomendação da comunidade é se proteger. Tem vários vídeos de protestos na Europa comemorando mortes de israelenses e gritando coisas antissemitas como “morte aos judeus”. 

- O Brasil não seria uma opção? 

Eu tenho uma cachorrinha [Pipa]. Pra mim seria difícil voar pra tão longe. E no voo da FAB meu marido não poderia ir, só eu. E a gente só sai daqui juntos. A cia El Al ainda está voando pra Europa com limitações. E tá bem difícil achar um voo, mas ainda dá.  

"A gente só sai daqui juntos", diz Hannah, descartando voos da FAB. Foto: acervo pessoal

- Então ainda estão resolvendo se vão para a Europa?  

Por enquanto não vamos, porque estamos tirando os documentos da minha cachorra. Mas se escalar mais um pouco vamos sim.  

- Como está o contato com sua família aqui no Brasil? 

A gente se fala todo dia, mas não tem nada muito novo pra falar. A gente tá exausto. Eu dou notícias que eu tô segura e bem.  

Mãe, pai e madrasta de Amit ao lado de Hannah, em jantar semanal de Shabat. Foto: acervo pessoal

- Como estava a situação há uma semana?

Um dia antes de tudo começar fiz um jantar com os amigos brasileiros na casa do meu sogro. A gente não fazia ideia. Não tinha tensão nenhuma no ar. Eu inclusive tinha ingresso pro show do Bruno Mars que foi cancelado e pro filme da Taylor Swift hoje. Tudo cancelado. 

Jantar em família na véspera dos primeiros ataques. Foto: acervo pessoal

- Pelo que tem acompanhado, qual você acha que vai ser o rumo desse conflito? 

Honestamente? Ninguém sabe. A gente tava falando sobre isso agora. Uma solução viável pra começar uma conversa de cessar fogo seria a devolução dos mais de 100 civis reféns que o Hamas levou, vivos ou mesmo os corpos. Sem isso, a brutalidade vai continuar, e ninguém quer isso. Seis dias de guerra e tá todo mundo exausto. As cenas do atentado no festival e nos Kibbutz são as coisas mais horrendas que eu já vi na minha vida. E por ser judia eu cresci ouvindo sobre o holocausto. A minha família tem origem turca, então eu não tenho nenhum sobrevivente na minha família, não somos judeus europeus (ashkenazis). Mas não existe judeu que não tenha sido atravessado pelo holocausto, ou por outras histórias de perseguição. Isso foi um segundo holocausto. Os vídeos me dão pesadelo todo dia. Eu ainda não dormi mais de 4h por noite desde sábado. 

- Essas cenas estão circulando com acesso fácil por aí? E como está o noticiário?  

O Hamas, no dia do atentado, fez lives usando os próprios telefones/perfis das vítimas mostrando as execuções, fotos. Eles fizeram vítimas com algumas crianças sequestradas.

Captura de vídeo feita pela jornalista Natasha Raquel Kirtchuk Gutman.

Aqui tem histórias de sobreviventes: @survived.to.tell.

Essa menina, os terroristas fizeram live do assassinato da avó dela:


Uma família foi toda morta. Mãe, pai e três filhos, com tiros na cabeça.

Tamar, Yonatan e filhas Shachar (6), Arbel (6), Omer (4).

Aqui [@henmazzing] tem vários vídeos do festival. As ações do Hamas nesse atentado superaram em muito as ações da ISIS (Estado Islâmico).

Esse casal, da nossa idade, mataram os dois na frente dos bebês de meses (gêmeos) e o exército só achou eles horas depois do lado dos corpos dos pais.

Itai and Hadas Berdichevsky estavam em abrigo anti-bombas em Gaza com os bebês de 10 meses.

Noa foi sequestrada com o namorado. Ontem foi aniversário dela. O país tá sem palavras.


- A cachorrinha deve ajudar a distrair um pouco...
 

Com certeza, mas dá muita peninha porque ela também sofre. Ela treme muito quando a gente vai pro abrigo. E depois fica quietinha no canto. Eles sentem. 

Hannah mostra Pipa no bunker em story publicado na sexta-feira.

- Qual o tamanho e como é o espaço do bunker? O que tem lá? É subterrâneo? 

O mamad (como chama o abrigo em hebraico) é um cômodo da casa. O nosso é o closet. Pra outras pessoas é um quarto ou escritório. Prédios mais antigos não tem abrigo, então a recomendação é ir pras escadas. Outros prédios têm um bunker pro prédio todo, que fica no subsolo. O nosso é um prédio mais novo. Nessas estruturas, os apartamentos têm um bunker pequeno interno, que é um cômodo da casa.  

- Tem estrutura reforçada o cômodo? 

Nesses casos, esse cômodo é o mesmo pra todos os apartamentos e consiste de uma coluna de concreto e aço dentro da estrutura do prédio. O cômodo é um corredor estreito. Como se fosse um closet pequeno. 

- Você falou sobre ser judia... Como está a sua fé nesse período de atribulações? 

Eu nunca fui uma pessoa religiosa. Mas eu tenho muita fé no povo, em como a gente se ajuda e se coloca lá um pro outro na adversidade. A Bruna, uma das brasileiras que foi assassinada, morava aqui só com a mãe e a irmã, e pra realizar um funeral no judaísmo, você precisa de 10 pessoas pra fazer uma reza. A mãe pediu ajuda nas redes sociais (e foi repostado por muita gente) porque tava com medo de não conseguir juntar essas 10 pessoas. Quase 10 mil pessoas apareceram. Foi um dos dias mais tristes da minha vida, mas também um dos que mais me restaurou a fé nas pessoas. Eu tive que voltar pra casa porque tava com quase 1h de engarrafamento pra chegar. Dez mil pessoas saíram de casa, sob ameaça de foguetes, pra honrar a vida de uma pessoa que eles não conheciam. Esse é o povo judeu. Nenhum partido político vai mudar isso. 

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