Adeus, Cidade Alta
Natal, RN 23 de fev 2024

Adeus, Cidade Alta

15 de janeiro de 2024
4min
Adeus, Cidade Alta

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Leio nas telas que a Magalu fechou sua loja na Cidade Alta. É a terceira grande rede varejista a sucumbir ao esvaziamento progressivo do comércio local. A debandada reavivou o coro que cobra de autoridades públicas e de entidades corporativas providências para conter a sangria do bairro que já foi o centro da vida natalense. O coro é bem-vindo como sintoma da irresignação de quem ainda mora ou negocia naquelas quebradas, mas a cantilena terá a mesma ressonância dos lamentos anteriores: zero.

Não se trata de questão permeável a decisões estratégicas de gestores de Natalópolis e de empresários, por mais que suscitem demagogias. Trata-se da evolução natural do eixo de expansão urbana, que desloca moradores – portanto, consumidores – para sítios distantes das ruas, praças e becos onde a história da cidade deu os primeiros vagidos. É o mercado impondo sua dinâmica às frustrações e aos desejos revisionistas de quem, por nostalgia ou teimosia, prefere ignorar a lógica da economia, a verdadeira senhora do destino.

Pretender que a Intendência atual e sua extensão na Phynança tenham o condão de reverter a tendência estabelecida é atribuir a ambas compromissos e inteligências que – o tempo nos lembra – sempre lhes faltaram. O caso da Ribeira está aí, a demonstrar os déficits de pensamento e ação que abundam (valha o oxímoro) nos quadrantes decisórios desta aldeia-de-Poty-mais-fodida. Manobras como a do presidente da Intendência, que vende como feito de monta a instalação de seu gabinete entre os destroços urbanísticos do velho bairro, têm quilate de falso brilhante. Pois se a presença da Intendência fosse relevante, a Cidade Alta não teria embicado em decadência: o intendente despacha lá desde que Natalópolis foi inventada por Felipe II.

De fato, as manobras servem para azeitar as polias e alimentar as correias de transmissão do jornalismo de reclames, que assola feito praga bíblica nosso restolho de imprensa. Mas não vão acrescentar sequer um mililitro de seiva vital às adjacências do Putigy mui amado pelos esgotos, os metais pesados e os maus poetas que envenenam suas águas. Nem vão alentar as sombras decaídas que guardam, na sua impotência, a memória do que foram – elas e a cidade. E se o presente parece sem porvir, imaginem que futuro terá o passado.

O golpe de mídia da Intendência, embrulhada pelos bravos acólitos em papel de estampa renascentista, não passará – aguardem e contem ao pó que ainda seremos – de estágio intermediário para o objetivo final: assentar a Intendência em um dos novos sítios onde a cidade se re/faz incessantemente, ao ritmo das conveniências associadas aos mandões da aldeia. Ou alguém imagina que, após brincar por um tempo de reinventar bairros falidos, constatar a disfuncionalidade da pantomima e ver cessar o transitório ganho publicitário da armação, o/a intendente do momento vai subir de novo a ladeira onde ectoplasmas de xarias e canguleiros ainda se pegam a cacete nos livros de história?

Se as hordas de burocratas públicos e privados que controlam a Intendência e seu Conselho pretendessem realmente resgatar a Ribeira e a Cidade Alta, começariam por admitir o que ainda subsiste como fiapo de redenção econômica: a vocação para as coisas do lazer e do entretenimento, do patrimônio histórico e da cultura, associados ao turismo. Este mantra tem sido comum, mas apenas no gogó, a todo senhor e toda senhora que por lá reinaram ou reinam. Agora e antes, ninguém – com um, dois ou três mandatos, não faz diferença – foi além de pintar um beco aqui, tombar uma fachada ali, organizar uma fuleiragem de nome pomposo acolá.

Os dinheiros que poderiam – com criatividade, profundidade, continuidade e outras propriedades afins – fazer a diferença e dar concretude à retórica são carreados para ‘eventos’ que a preguiça erigiu em fórmula única e incontrastável de ação cultural. É pouco. É estéril. É preguiçoso. Em terra de ‘homens e mulheres de cultura’ soberanos em tudo e mais alguma coisa; surdos a qualquer dissonância do coro de louvaminhas; e ciosos da própria majestade como se todos e todas fossem a última tampa de Crush, deveríamos saber que aquela palavrinha carrega nas três pobres sílabas todo o seu sentido.

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