Escola de samba de Natal acusa júri técnico de intolerância
Natal, RN 13 de abr 2024

Escola de samba de Natal acusa júri técnico de intolerância

24 de fevereiro de 2024
10min
Escola de samba de Natal acusa júri técnico de intolerância
Grupo fez novo desfile na sexta-feira (23) para fazer denúncia | Foto: Manoel Barbosa

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A Associação Recreativa e Cultural Escola de Samba Batuque Ancestral, que enaltece a cultura afro-brasileira, está acusando de intolerância religiosa a comissão julgadora dos desfiles das escolas de samba em Natal, com base em observações feitas na avaliação técnica. A escola ficou em terceiro lugar do grupo B, com 94,4 pontos. Contestações por meio de recursos serão discutidas pela mesa julgadora na próxima semana. O resultado será publicado em Diário Oficial do Município.

O desfile oficial da Batuque Ancestral foi realizado no dia 16 de fevereiro. Na última sexta-feira (23), o grupo saiu novamente na avenida para denunciar o que considerou preconceito contra as religiões de matriz africana, além de publicar carta aberta: "Não nos calaremos diante de falas ou fatos esdrúxulos, a luta continua sempre, e a nossa missão será combater posturas desrespeitosas e inconsequentes", anuncia.

No texto, a agremiação aponta que as justificativas usadas pelo jurado de samba-enredo incluem a existência de “palavras de difícil entendimento” e explica tratar-se de nomes próprios e cerimônias religiosas, tais como Legbá, Aluvayá, Ibadú, Ifá, Obatalá, Exú, Agô, Orun, Ayê, Olorun, Adakê, Mojubá, Laroyê, Calunga e Pomba Gira. Também reclamam da utilização do termo em inglês nonsense (sem sentido) na crítica do avaliador à sinopse.

“Se há a falta de alcance do julgador, não podemos ser punidos por sua ignorância, até porque se trata de uma divindade africana, como fazer referência sem usar palavras de termo único como saudações e nomes próprios por exemplo.”, escreve o grupo na nota.

O jurado de samba-enredo é Paulo Sarkis, músico, compositor, arranjador, produtor musical, fundador das bandas Catita Choro e Gafieira, Ribeira de Pau e Corda e Mad Dogs, além de contrabaixista da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte.

“Não houve intolerância religiosa em hipótese alguma. Posso por enquanto afirmar que há uma má interpretação do meu texto nas justificativas das notas.”, responde ele, que também se apresenta como filho de Oxossi, por ter frequentado terreiro de candomblé. “Sou admirador e frequentei em São Paulo, mas isso não me tornou praticante, apenas um admirador das religiões de matrizes africanas.”, pondera.

“Minha observação foi acerca da quantidade de nomes de difícil ‘pronúncia’ e não de ‘entendimento’, conforme a escola coloca. A colocação ‘entendimento geral’ foi em relação ao fato de a escola não ter apresentado uma explanação sobre o enredo que situaria cada jurado dentro do universo pretendido. Essa foi a falha da escola que lhe custou mais pontos.”, explica.

Quanto ao samba-enredo, justifica que um dos critérios de avaliação que se usa é a força que a letra e a melodia possuem para levar o povo a cantar junto: “No caso de usar nomes das entidades religiosas, é claro que todos nós sabemos ser inclusive importante tradição das escolas de todo o país, mas a dosagem na quantidade de nomes também é importante para que o canto fique mais fluente para todas as pessoas. Também é preciso considerar que julgamos a canção dentro da categoria samba-enredo e não como uma composição dentro de outros padrões como por exemplo uma obra da MPB.”

“Eu gostei muito da composição e fiz esse elogio nas minhas justificativas, além de não tirar pontos significantes na nota desse quesito. Dei 9,9 no sub-quesito ‘Força da letra e melodia’”, conclui Paulo Sarkis. “É um belíssimo samba.”

Além de Paulo Sarkis, a comissão é formada por Raphael Bender (Bateria); Diogo Spineli (Enredo); Stéphanie Moreira (Evolução); Júlio César (Fantasia); Flávia Nery (Mestre Sala e Porta Bandeira); André Carrico (Alegoria e Adereços); Joca Costa (Harmonia); Isabel Costa Araújo (Comissão de Frente) e Petrúcia Nóbrega (Duração).

Vídeo de divulgação da A.R.C.E.S. Batuque Ancestral:

Confira nota completa da agremiação:

A A.R.C.E.S. BATUQUE ANCESTRAL através de seus representantes legais, vem por meio desta abordar fatos que ocorreram durante e após sua apresentação na Avenida Duque De Caxias no dia 16 de fevereiro de 2024, na apresentação das agremiações carnavalescas de Natal/RN. O nosso objetivo é trazer esclarecimentos aos colegas e amigos referente aos questionamentos realizados pela diretoria da escola, os quais foram dirigidos à comissão julgadora carnavalesca de Natal. Inicialmente, o questionamento foi referente ao tema abordado/SAMBA ENREDO da BATUQUE ANCESTRAL, que este ano reverenciou uma divindade africana, EXÚ ao qual se faz presente no enredo nomeado pela escola: AGÔ MOJUBÁ A RUA É MEU LUGAR. Dessa forma, a escola trouxe para avenida grandes sentimentos, com muita responsabilidade e respeito por todos que compõe a família BATUQUE ANCESTRAL. A agremiação nasce com o intuito e a finalidade de dar visibilidade às vozes silenciadas pela opressão, abafada pelo preconceito, e perseguida por uma sociedade elitista arraigada de discriminação e intolerância, com temas de tamanha relevância para a sociedade, assim a BATUQUE ANCESTRAL tem o intuito de abrir diálogos e discussões através de um espaço importante, que se trata das manifestações pelas agremiações carnavalescas do RN e da sociedade como um todo, promovendo um processo de letramento Racial através do repasse de informações sobre a história e a cultura afro ameríndia. Todos os temas abordados pela BATUQUE ANCESTRAL até hoje teve a responsabilidade de um cunho social, cultural, econômico e político, que discute a desigualdade e o desrespeito referente aos recortes étnico-raciais, como por exemplo, tratar de heróis esquecidos pela sociedade, anônimos ou até mesmo desconstruir um preconceito pela ausência da discussão. Há séculos a história emoldura heróis colocados por grupos elitistas que abafam a realidade de nossa sociedade, pessoas que desconstruíram e apagaram a história, como por exemplo uma parte histórica do RN, que em vários livros de escritores renomados escreveram que o estado não tinha QUILOMBOS nem COMUNIDADES INDÍGENAS.

Um dos primeiros questionamentos realizados pela diretoria da escola, trata-se da justificativa usada pelo jurado de samba enredo, pois a escrita do samba foi realizada por quatro compositores que tinham conhecimento de causa e vivencia com o tema ali abordado, por existir palavras de difícil entendimento assim colocado pelo senhor jurado (clausula existente no manual do jurado, interno da FUNCART, desconhecida por todas as agremiações), como LEGBÁ, ALUVAYÁ, IBADÚ, IFÁ, OBATALÁ, EXÚ, AGÔ, ORUN, AYÊ, OLORUN, ADAKÊ, MOJUBÁ, LAROYÊ, CALUNGA, POMBA GIRA, sendo que se trata de nomes próprios que não podem ser modificados, e rituais realizados em cerimônias consagrada a EXÚ, por esse motivo a BATUQUE ANCESTRAL foi penalizada, ainda lembrando que a sinopsia é repassada para toda a comissão julgadora, não podemos deixar que seja usado o termo NONSENSE("sem sentido", "contrassenso" ou "absurdo" no termo em inglês) indiretamente com a linguagem africana (preconceito velado), se há a falta de alcance do julgador, não podemos ser punidos por sua ignorância, até porque se trata de uma divindade africana, como fazer referência sem usar palavras de termo único como saudações e nomes próprios por exemplo. Entre vários questionamentos o mesmo julgador diz que o enredo foi comprometido pela desenvoltura do samba na avenida sendo que o outro julgador escreve em suas justificativas que o samba estava sendo cantado por todos os componentes e até mesmo pelo público. Outra forma que foi encontrada para penalizar a escola, foi uma ala composta por povo de tradição que em respeito ao tema a sua realidade tradicional, se encontravam naquele momento com os pés no chão por se tratar da comissão de frente que fazia uma referência a criação do universo através da dança das cabaças e de uma ala por nome de XIRÊ, que simboliza a grande festa da Unidade Territorial Tradicional UTT. Em vários questionamentos trazidos pela diretoria da escola, esses são os que mais revolta pela nitidez da ausência de argumentos, porém as outros também não são descartados.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A A.R.C.E.S. BATUQUE ANCESTRAL vem por meio deste parabenizar as nossas coirmãs campeãs do carnaval da chave B em seu primeiro e segundo lugar, a escola de samba EM CIMA DA HORA e a ASAS DE OURO, e dizer que nossos questionamentos não refere-se as demais, mais sim ao desrespeito e intolerância colocada por pessoas que se acham donas de uma luta que nosso povo construiu arduamente há anos, pois sabemos o quanto é laborioso colocar uma escola na avenida, por mais que o nosso sentimento seja de dever cumprido com a missão posta pelos ancestrais, não podemos nos calar diante de tanta estolidez, nossa fala é para defender toda a história de um povo que foi jogado a margem da sociedade, MUITAS MÃOS CONSTRUIRAM AS ALEGORIAS E FANTASIAS que passaram na Duque De Caxias realizando o carnaval do enredo AGÔ MOJUBÁ A RUA É MEU LUGAR, não aceitaremos falas desrespeitosas para com a nossa luta, que não é só da BATUQUE mais sim de todos que compõe o carnaval de uma forma digna e honesta, nossas alas como BAIANAS, COMISSÃO DE FRENTE, ALEGORIAS, MESTRE SALA E PORTA BANDEIRA (PAVILHÃO) entre outras estavam todas na avenida, a BATUQUE ANCESTRAL fez uma proeza em trazer para a avenida do carnaval das agremiações os responsáveis de manterem a tradição da ancestralidade africana e afro Ameríndia viva em nossa terra, e em nome do povo de tradição deixo uma reflexão, que passa por toda história de carnavais de escola de samba, nossas escolas são sinônimo de resistência, a ALA DAS BAIANAS faz uma referência as nossas grandes mães do AXÉ , várias ALAS fazem reverencia aos nossos ancestrais, com indumentarias tradicionais, danças e toques do povo de axé, aqui finalizamos deixando registrado a honra de levar EXÚ PELA PRIMEIRA VEZ EM SUA ÍNTEGRA NO CARNAVAL DAS AGREMIAÇÕES DE NATAL, e dizer que não nos calaremos diante de falas ou fatos esdrúxulos, a luta continua sempre, e a nossa missão será combater posturas desrespeitosas e inconsequentes, assim lutando por dias melhores.

ATT: COLEGIADO A.R.C.E.S. BATUQUE ANCESTRAL . 23 de fevereiro de 2024. Natal /RN.

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