O Brasil evangélico e o Israel imaginário
Natal, RN 16 de abr 2024

O Brasil evangélico e o Israel imaginário

28 de fevereiro de 2024
7min
O Brasil evangélico e o Israel imaginário
Foto: do site Congresso em Foco

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Fiquei realmente espantado com o espanto de alguns camaradas diante da resiliência do bolsonarismo, expresso na manifestação que ocorreu no último domingo, 25 de Fevereiro, na avenida Paulista.

Parecia bastante óbvio, desde o fim das eleições de 2022, que a disputa política pelo poder no Brasil não iria arrefecer com a eleição de Lula e a derrota de Bolsonaro.

Mesmo inelegível, ligado a todo tipo de falcatrua envolvendo vendas de joias e transferência de dinheiro para o exterior, atolado até o pescoço no movimento que culminou na tentativa fracassada de golpe do 08/01 e com o fantasma da prisão cada vez mais perto, o ex-presidente neofascista ainda é um nó na rede da extrema direita global.

Não pense, amigo velho, que uma constatação desse tipo é sintoma paranoide, desses de quem se alimenta com teorias da conspiração. Entender que há em atuação uma espécie de “internacional neofascista”, que vai da Rússia de Dugin até os EUA de Steve Bannon, sobrevoando praticamente todos os países europeus e aportando agora com força na Argentina de Javier Milei é atestar um fato geopolítico bastante evidente da nossa época, fartamente documentado em pesquisas como a de Benjamin Teitelbaum, por exemplo.

Em função disso não parece ser de modo algum surpreendente que os bolsonaristas estejam tão empenhados em defender as políticas do recém eleito presidente argentino, em criticar a inoperância senil de Joe Biden (agora chamado também por setores da esquerda norte americanos de “genocide joe”) e defender com unhas e dentes as ações do governo Netanyahu na faixa de Gaza.

Esse apoio ao sionismo não é novidade e tem muito pouco a ver com as falas recentes do presidente Lula, condenando o genocídio palestino. A quantidade de bandeiras de Israel em manifestações da extrema direita, levantadas junto à brandeira norte americana e à bandeira brasileira, já vem chamando atenção há muito tempo, mesmo que algumas sejam pintadas com um pentagrama no lugar de uma estrela de David (o que mostra que muitos bolsonaristas são pouco instruídos não apenas em filosofia e história, mas também em geometria). 

Na verdade esse alinhamento à Israel, especialmente por parte da extrema direita evangélica, é um fenômeno de muitas décadas e não tem uma origem autóctone aqui por nossos litorais e nossos sertões. Ele surge da guinada teológica dos movimentos conservadores norte americanos, particularmente os neopentecostais, que começaram nos últimos anos a migrar de uma teologia neocalvinista calcada na ideia de prosperidade, para uma teologia escatológica da guerra santa contra o oriente muçulmano. Nesse sentido há uma mudança de rota na mitologia religiosa da extrema direita fascista.  

Se no fascismo clássico europeu dos anos 20 e 30 o antissemitismo lançava o “judeu” ao lado do comunista e do liberal como os inimigos da “civilização cristã ocidental”, expoentes de uma intromissão cultural oriental e sintoma de uma decadência moderna, globalista e cosmopolita, no neofascismo evangélico dos dias atuais os judeus assumiram um outro lugar.

A partir de 1973, com a guerra do Yom Kippur e com o estreitamento do alinhamento geopolítico entre os EUA e Israel, a narrativa ideológica ocidental começou a mudar e os setores conservadores da sociedade norte americana passaram a vender a ideia de que haveria uma “civilização judaico-cristã” em confronto com o médio oriente mulçumano e o extremo oriente chinês. Essa narrativa, projetada inicialmente por schollars nas principais universidades ocidentais e por think thanks vinculados ao sistema de segurança norte americano, aportou nas igrejas evangélicas e se transformou, aos poucos, em um novo sistema simbólico teológico que afastava os cristãos norte americanos dos aspectos mais pacifistas, humanistas, universalistas e emancipatórios dos evangelhos e guinava a leitura e interpretação bíblica em direção aos livros históricos do antigo testamento, que narram o mito da conquista da terra de Canaã pelo povo de Israel. Essa guinada fez com que, aos poucos, os evangélicos norte americanos (e seus correlatos brasileiros) afastassem a figura de Jesus da sua centralidade exegética tradicional, girando o foco da sua leitura em direção à figuras como Josué e David, aquele que teria sido “ungido por Deus”.

Subitamente o judeu imaginário do conservadorismo católico e da contra reforma, que alimentou por séculos a inquisição e que deu sustentação a falsificações históricas antissemitas clássicas do tipo da dos “Protocolos dos sábios do Sião”, se tornou uma espécie de “cruzado”, posto na linha de frente da defesa do ocidente em sua luta, na terra Santa, pela reconstrução do templo de Salomão e a recriação da Israel que aparece no mito bíblico.

Dai não é difícil entender a proeza que muitos expoentes da extrema direita evangélica fazem ao condenar agora, diante das reações do mundo ao que acontece em Gaza, o antissemitismo, sem mencionar o dado histórico de que, durante séculos, foi justamente em nações cristãs que o ódio aos judeus mais prosperou. Os novos teólogos da extrema direita evangélica começam agora a identificar o antissemitismo com o islamismo e o “comunismo” (esse eterno fantasma que os fascistas sempre evocam para justificar suas barbáries), e ajudam a criar, no imaginário de suas ovelhas (conduzidas por pastores cada vez mais ideologizados e turbinados com o capital norte americano) a ideia de um “judeu-cristão”; um combatente ocidental na linha de frente de um confronto cósmico com as forças do mal, justamente na terra onde Jesus nasceu.

    Obviamente os setores sionistas da comunidade judaica sabem disso mas firmam, sem nenhum pudor, sua estreita aliança circunstancial com o evangelismo cristão para combater seu inimigo comum e completar a tarefa de colonização do que sobrou do território palestino.

É por isso que aqueles que se dizem vinculados ao campo da esquerda não podem se dar ao luxo de se surpreender com a resiliência dos movimentos neofascitas brasileiros, nem cair na ilusão de que eles aceitarão em algum momento as regras do jogo democrático. Muitos desses setores se enxergam como fazendo parte de uma luta metafísica, uma guerra santa que transcende os aspectos mais circunstanciais da política tradicional.

Diante do fervor dessa nova “teologia da dominação”, da atuação em rede da internacional neofascita e da força do capital norte americano, que apesar de combalido ainda dá as cartas na banda ocidental da terra, não podemos esperar outra coisa para os anos que virão que não seja o confronto ideológico constante, a luta política sem trincheiras e o combate cultural diuturno.

Baixar a guarda imaginando algum “cessar fogo” democrático é um erro estratégico fatal, que pode custar o preço do que ainda resta da nossa liberdade.

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