Na vibe do fim do mundo
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Na vibe do fim do mundo

19 de março de 2024
6min
Na vibe do fim do mundo

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Talvez não exista, na modernidade, uma manufatura de sonhos mais poderosa do que o cinema. A indústria do audiovisual, em todas as suas dimensões, não simplesmente catalisa as ansiedades e as espectativas do seu público para oferecer um produto de entretenimento que possa ser consumido pelas massas, quer seja nas salas de exibição que ainda resistem ou nas plataformas de streaming. O cinema produz, de modo industrial, as imagens que vão povoar nosso inconsciente.

Acho mesmo que parte substancial de nossos sonhos tenha sido, em algum momento, como canta Anthony Kiedis em Californication, produzido em algum porão de Hollywood (“Space may be the final frontier, but it's made in a Hollywood basement”).

O fato é que, quando a gente olha as produções de block busters audiovisuais, disseminados pela zona ocidental da terra, pululam as distopias apocalípticas. De Walking Dead até o “Não olhe para cima de 2021, passando por uma série incontornável como The Handmaid´s Tale (O conto da Haia), até aterrissarmos na atual produção executiva do casal Obama (Michelle e Barack) “O mundo depois de nós(onde a indústria audiovisual norte americana, pela milésima vez, destrói NovaYork), parece que estamos atolados até o pescoço numa vibe de fim do mundo.

É claro que há uma evidente função ideológica nesse tipo de produção. Alimentar os afetos distópicos ajuda a consolidar a noção de que a única alternativa à ordem vigente é o colapso da civilização, a derrocada da sociedade, o fim do mundo como nós o conhecemos ou a extinção da espécie humana. A ideia de que a única alternativa ao sistema liberal de capitalismo tardio é um apocalipse zumbi, uma distopia totalitária fundamentalista, uma guerra civil sangrenta ou um armagedon nuclear; é uma das estratégias de apavoramento epistêmico mais eficazes em momentos em que uma articulação de crises parece fazer nascer no horizonte a tempestade perfeita para uma onda revolucionária global.

Isso é um fator que impulsiona substancialmente as forças politicas conservadoras e reacionárias porque, afinal, se o futuro será pior do que o presente e o presente é pior do que o passado, a única saída é retroceder no curso da história até um momento idealizado perdido no ontem, onde “as coisas começaram a dar errado”; e tomar um outro rumo na caminhada da humanidade.

E é justamente essa força retrotopica e conservadora que anima a extrema direita pós apocalíptica, que deve ter ficado ouriçada com o pronunciamento de Donald Trump em Vandalia, Ohio, durante o comício de um senador que disputa uma vaga por aquele estado norte americano. Ao falar sobre a necessidade de aumentar as tarifas de importação de veículos Trump veio com um típico “apito de cachorro” para a sua turba de apoiadores e soltou um: “agora, se eu não for eleito... será um banho de sangue para o país”.

A primeira vista dá até para pensar que o candidato republicano à presidência dos EUA está fazendo parte da campanha de marketing para a estreia do filme “Guerra civil”, previsto agora para o mês de Abril, com direção de Alex Garland e contando com a presença no elenco do nosso Wagner Moura. Mas existem índices objetivos bem claros de que a situação pode se deteriorar num horizonte de tempo não muito distante. Como uma profecia que se auto cumpre, esse jogo retórico de “fim do mundo” pode mesmo sair do controle e, em algum momento, arrastar o mundo para uma guerra como a gente não via por esse quadrante estelar desde 1945.

Seguindo a mesma vibe do candidato norte americano, o presidente da França, Emmanuel Macron, ligou, na semana que passou, o sinal de alerta na Europa afirmando a necessidade de serem enviadas tropas da OTAN para tentar conter o avanço russo na Ucrânia. Fato esse que arrastaria a Europa para uma guerra com os russos.

O trauma da derrota militar iminente do exército ucraniano (o mais bem equipado e mais bem treinado exército europeu), dizimado pela artilharia russa após a fracassada tentativa de contra ofensiva contra as linhas de defesa preparadas por Moscou, no último verão europeu, lançou o estabelishment político da zona do Euro em um estado de pânico generalizado.

   Como justificar para o seu público interno, diante de uma derrota cada vez mais evidente na Ucrânia, que os europeus foram para o sacrifício econômico em uma guerra inútil que produziu inflação, desemprego e recessão? A única opção para livrar a pele das lideranças políticas que arrastaram a Europa para a derrota no campo militar e para a crise no campo econômico é dobrar a aposta e, para manter as populações de seus países em estado de alerta, surfar com as ameaças de Vladimir Putin de um ataque nuclear.

Em um ano no qual mais de 50 países ao redor do globo vão mobilizar suas populações para irem as urnas, manter o medo como o afeto político da estação, parece ser, para muitos dessas lideranças, a chave da sua própria sobrevivência ou da permanência de seus grupos políticos no poder.

No fim das contas esse é um jogo muito arriscado porque o problema com nossos sonhos inconscientes é que, vez ou outra, eles parecem que se realizam e quando isso acontece, muitas vezes, a gente percebe que aquilo que parecia um sonho era, na verdade, um pesadelo.

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