X de Xandão
Natal, RN 21 de mai 2024

X de Xandão

16 de abril de 2024
7min
X de Xandão
Ministro Alexandre de Moraes I Imagem: reprodução

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O que há em comum entre o líder neo salazarista português André Ventura; o filósofo neo fascista russo, Alexandre Dugin; o chanceler sionista israelense, Israel Katz; presidente ancap da Argentina, Javier Millei; o presidente nazbol do PCO, Rui Costa Pimenta e o bilionário lacrador, Elon Musk?

Resposta simples e imediata: todos atacaram, na semana que passou, o sistema jurídico brasileiro, na figura do Ministro Alexandre de Morais e o governo do nosso país, na pessoa do presidente Lula.

O discurso que foi impulsionado na rede de propriedade de Musk (o finado Twitter) tinha um mesmo sentido e fazia eco a uma mesma construção narrativa: o Brasil, em função das ações judiciais de Alexandre de Morais (supostamente a mando de Lula) estaria caminhando a passos largos para uma ditadura em que os “prisioneiros políticos” do famigerado 08/01 seriam vítimas de ações feitas à margem do “devido processo legal” e onde a “liberdade de expressão” estaria sendo cerceada nas redes sociais em função das decisões judiciais impostas ao “X”, rede de propriedade de Musk.

Apenas em um sentido muito superficial a treta envolvendo Musk e Alexandre de Morais (nosso Xandão), que mobilizou toda a rede de extrema direita global para um ataque articulado contra o país e o governo Lula, tem a ver realmente com o ideal liberal burguês de “liberdade de expressão”. O buraco, amigo velho, é bem mais fundo e são muitas camadas que se superpõe ao involucro ideológico dessa disputa.

Num primeiro plano há o interesse óbvio de municiar a base bolsonarista de conteúdos narrativos para justificar a ideia de que o golpe fracassado, planejado por Bolsonaro e os seus generais, na verdade seria um “contra golpe preventivo”, que teria como objetivo “livrar o Brasil do comunismo”. Nesse remake de 1964, as ações de “Xandão” seriam, como atestaria uma grande e diversa fauna de apoiadores internacionais de extrema direita, a prova irrefutável de que esse plano de implantação de uma ditadura vermelha no país estaria em curso.

Por outro lado a entrada de Musk no jogo fortalece também os apoiadores internos de vários movimentos neo fascistas em outros países. De Israel à Argentina, passando por Portugal, pela Rússia de Putin e pelos EUA de Donald Trump, o discurso de que governos alinhados ao liberalismo de esquerda (como no caso do Brasil) são, na verdade, agentes do totalitarismo woke e do globalismo liberal (que não seria nada mais do que um braço do “marxismo cultural” que se infiltra no ocidente para minar as bases da “civilização judaico-cristã”) alimenta a turba com sua ração ideológica diária mundo afora.

Em um sentido mais profundo, a treta de Musk com Xandão também aponta para um conflito que envolve o protagonismo do Estado-nação (essa criação do liberalismo burguês do século XIX) em relação ao domínio econômico e político das grandes corporações transnacionais de tecnologia (as chamadas Big Techs). O que há na base dessa briga é um evidente choque entre a autonomia clássica do Estado nacional e uma nova ordem global do capitalismo digital, que passa o controle dos destinos das nações para quem comanda e controla a informação e o tráfego de dados pela internet.

Esse confronto, que opõe estados nacionais e big techs (expresso também no conflito envolvendo os EUA e o Tick Tock) aponta para um dado fundamental de nosso tempo: o neo colonialismo é agora, mais do que nunca, um neo colonialismo digital.

Os grupos que comandam e controlam os dados e a informação nas redes tecem as regras do jogo social dos povos e das nações que se contentam, apenas, em se posicionar como “usuários” das redes e não como agentes fomentadores dessas redes. Deu pra entender agora porque a China criou uma espécie de “internet” nacional com versões chinesas para os aplicativos mais usados pelas nações ocidentais?

A ideia de que o espaço privado do mercado é um espaço de liberdade e que o mundo público é um campo totalitário onde o Estado “malvadão” oprime os indivíduos no exercício do seu livre arbítrio, não é uma novidade. Essa estrutura ideológica, criada por pensadores como Von Misses e escritoras como Ayn Rand, no contexto da propaganda anti comunista da guerra fria, é requentada pela extrema direita global e usada para atender aos interesses dos países que criaram e controlam as redes sociais e o tráfego de informação e de dados na internet.

Narcotizados pela ideia neoliberal de que há um confronto político fundamental opondo os indivíduos ao Estado, os grupos neofascitas acabam atuando, especialmente em países como o Brasil, contra os interesses das suas próprias nações, travestindo de patriotismo aquilo que é, na verdade, apenas a mera subserviência.

Mas realmente, amigo velho, a camada de sentido que mais me deixa pensativo nessa disputa envolvendo Musk e Xandão é o papel da chamada “esquerda radical”.  E não falo apenas do PCO (um perfil que parece cada vez mais afinado com as tendências duguinistas da Nova Reistência), falo também da esquerda liberal e mesmo da esquerda dita socialista ou comunista.

Penso no que diria o camarada Prestes, se vivo fosse, e se visse a maior parte da esquerda brasileira defendendo valores que foram o esteio do estado nacional burguês nos séculos XIX e XX, como a “divisão de poderes”, a “liberdade de expressão” ou mesmo a abstrata “ordem democrática”.

Vou explicar para quem não era nascido no século XX: no tempo em que a URSS existia, nenhum comunista “raiz” defenderia coisas como “liberdade de expressão” ou mesmo “taxação de grandes fortunas”. A esquerda radical do século XX entendia que as grandes fortunas não deveriam sequer existir, por isso elas defendiam, não um aumento de impostos sobre Bilionários como Elon Musk, mas sim o fim desses Bilionários e a expropriação de suas fortunas. Do mesmo modo, quando alguém questionava um comunista Old School se Cuba, a China ou a Coreia do Norte eram ou não eram uma “democracia” a resposta era muito óbvia: “claro que não! São ditaduras do proletariado”. Isso significava dizer que a contradição básica da esquerda radical do século passado envolvia de um lado a chamada “democracia burguesa” (que na realidade seria uma “ditadura do capital”) e a ditadura do proletariado (que na realidade seria uma democracia operária).

Ao tentar demonstrar, com argumentos jurídicos, que as ações de Alexandre de Morais e do STF brasileiro obedecem aos preceitos liberais de devido processo legal e não ferem a tal liberdade de expressão, o que a esquerda faz é cristalizar a ideia de que o seu papel é defender a ordem democrática liberal burguesa.

Afinal, o que isso nos mostra?

Mostra que, desde o fim da URSS, há mais de trinta anos, o mundo ocidental migrou para a direita. Estamos tão à direita no espectro político, que retornamos a configuração de campo que existia no século XIX, opondo, no lado da esquerda os liberais, e no lado da direita conservadores e monarquistas absolutistas. O mundo ocidental de hoje repete essa configuração, trocando os velhos defensores do antigo regime, que foi derrubado pela revolução francesa de 1789, pelo novo neofascismo de Bolsonaro e dos seus sócios internacionais.

A pergunta que a esquerda brasileira, jogando a vários anos na retranca, precisa responder, antes mesmo de afiar o arsenal retórico na defesa de Alexandre de Morais, do STF, dos interesses nacionais e da constituição de 1988 é: “será que é só isso que sobrou pra gente?”

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