A discriminação contra os nordestinos no mundo da bola
Natal, RN 21 de fev 2024

A discriminação contra os nordestinos no mundo da bola

12 de abril de 2018
A discriminação contra os nordestinos no mundo da bola

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Existe discriminação contra nordestinos no futebol, no esporte?  Claro, vou logo avisando que sou suspeito em falar, suspeitíssimo. Mas também quero deixar claro que, por testemunhos, muitos, e experiência própria, eu sei bem o que é isso. Como diria Carlos Magno, ex-colega de redação do Diário de Natal, “corria o ano da graça de 1986...” O Alecrim, bicampeão estadual – 1985/86 – disputaria o Campeonato Nacional, uma  Série A daqueles tempos, com equipes divididas em grupos.  As porradas contra a inclusão dos clubes do Norte e Nordeste eram diárias.

Chegou a semana da partida contra o Botafogo/RJ, o jogo seria no Maracanã. A semana toda, toda, o achincalhe, malhação, criticas ácidas da imprensa do Sul-Sudeste, inclusive do cara que era, sempre fui e vou continuar sendo fã, João Saldanha. “Alecrim que eu conheço é aquela planta que a gente faz um chazinho para tomar e ficar mais calmo...”, dizia João Sem Medo. E durante toda a semana ele fez chacota com o Verdão  em seus comentários, demolindo  esse “campeonato absurdo que inclui, sem méritos nenhum, equipes sem expressão do Norte-Nordeste.”

Eu, ainda jogador,  fazia parte desse Alecrim criticado e humilhado.  Chegamos ao Rio. No Hotel Plaza, o ascensorista nos recebe no elevador e pergunta: “esse time é de onde?” Sorrio simpático, encantado por estar no Rio, já imaginando jogar no estádio dos sonhos de todos nós, e respondo:  “somos de Natal” . Acreditem, o cara se saiu com essa: “Natal? Natal que conheço é a época dos presentes, do Papai Noel...”, disse zombando, na maior cara de pau.

O bom humor passou na hora, afinal, já havia escutado e lido demais durante a semana. “É o que dá, meu amigo, você não estudou, nem leu, nada sabe de nada, talvez por isso esteja aqui sentado, todo dia, subindo e descendo nesse elevador e recebendo salário de fome”. O senhor se fechou, calou. Só Deus sabe, na hora não, tempos depois, o quanto me arrependo da grossura com o pobre homem. Eu, discriminador...

Hora do jogo. Frio na barriga intenso. Na entrada em campo, subindo as escadas da magia, de sonho, escutando a fúria dos torcedores nos vaiando acintosamente com todo tipo de impropérios discriminatórios: “passa fome, papa-jerimum, comedor de calango, desnutrido, pau de arara...” Uma verdadeira recepção às avessas. E se eles soubessem que eu fiquei olhando para o placar eletrônico (nunca tinha visto um) para ver meu nome aparecer...

No jogo, pensam que não? Discriminação de jogadores, tentativas de humilhações de alguns figurões da seleção – Alemão, Josemar – fazendo alusão a salários, zombando e perguntando “quanto tu ganha, passa-fome”? E do árbitro, então?  Romualdo Arpi Filho, nanico já falecido, juiz de Copa do Mundo, uma banca.... Não nos dava o direito sequer de dirigir a palavra, enquanto os caras do Botafogo comandavam  o apito.

O Alecrim perdeu para o Botafogo de 2 a 1, jogou muito bem diante de um público de 12 mil torcedores. Depois, teve até o reconhecimento do próprio João Saldanha ( passei a ser mais fã ainda). Reconheceu, no ar, isso mesmo,  que errou, e que foi injusto “com a boa equipe do Alecrim de Natal ”. Lavou nossa alma. Eu e De Leon, colega de equipe, recebemos a honra de sermos elogiados por ele. A glória que vou carregar para sempre. Mas, chega de saudade, de passado, é que não podia deixar de dar minha pequena colaboração,  quando sofri  na pele, eu e meus companheiros, a discriminação por sermos nordestinos.

Hoje, jornalista , esbravejo, em vão, é bem verdade, contra o complexo de vira-latas , potiguares, nordestinos, ora, se nós mesmos discriminamos, imaginem a turma da parte de baixo do mapa do Brasil. Minha bandeira, todos sabem, é a defesa de nossas categorias de base, eu não vou entender nunca porque, sempre, as chances dos que vêm de fora, inclusive na imprensa, são melhores e maiores. Entendo que isso também faz parte do que trato nesse texto.

Por falar em imprensa, registro o meu começo no Diário de Natal, discriminado e perseguido por “colegas” e sindicato, pois não era formado...imaginem aí... um ex-jogador de futebol, sem formação,  editor de esportes do grande Diário de Natal? Demais!

Assim, como profissional da imprensa esportiva,  posso dar testemunho sobre  futebolistas que entrevistei, torci e acompanhei a carreira. Souza, por exemplo, um dos mais talentosos meias da história do futebol do Brasil, quando vestiu a camisa da seleção, foi sacaneado pela imprensa, gritado pelo idiota Dunga, sacado por Zagallo para fazer entrar  “Beto Cachaça”. Depois da desavença com o “capitão” ele não teve mais oportunidades.  Lembro dos “comentaristas” quando se referiam ao craque potiguar, procurando defeitos, elogios acompanhados de “mas, poréns, todavias, contudos”. Poucos reconheciam, de verdade, Rivelino foi um deles, o quanto era fora de séria nosso conterrâneo de Itajá-Assu.

Todas as vezes  que Atlético/PR (onde foi campeão brasileiro no ano de 2001), São Paulo e Corinthians, Flamengo  não estava bem no jogo, treinadores cegos sacavam o potiguar. A torcida nunca reclamava. É mais fácil para o treinador, covardes, sacar o que não reclama, não vai à mídia. Tímido, humilde, caladão, sem amigos na imprensa, Souza precisava ser craque sempre (entendam, em todos os jogos) para ser lembrado, respeitado.

André Bigode, outro. Monstro artilheiro do futebol de areia. O melhor de seu tempo, tanto que, ainda hoje, brilha. Também caladão, humilde, vindo do Morro de Mãe Luíza, ficava na reserva para os peladeiros cariocas na seleção brasileira de beach soccer  de cartas marcadas e dos amigos de Júnior. Quantas coisas absurdas passou esse potiguar.

Até ele. Marinho Chagas, vocês sabiam? Foi discriminado também.  Certa vez, um cara da imprensa sapecou: “E aí, pau de arara, de Pernambuco, cuidado! Aqui no Rio não tem moleza do timinho de lá não...”, Marinho retrucou, corrigiu, dizendo que era de Natal. O cara, radialista conhecido da Nacional, do Rio, arrematou: “é tudo uma bosta só, se tu não jogar, ‘cabeça chata’, vai voltar de caminhão pra tua cidadezinha lá nos confins pra comer calango”. Essa passagem, Marinho nos contou quando estávamos trabalhando, eu e Alex de Souza, no projeto para escrever sua história, o que acabou não acontecendo.

Esse verme da imprensa, preciso completar a informação, tempos depois, comeu, bebeu, saiu com mulheres, pagou contas e recebeu muitos “favores” do nosso malucão querido. Nem precisa dizer que o fato de ser da nossa região encurtou o tempo da “Bruxa” na Seleção, isso eu não tenho nenhuma dúvida. Os cariocas queriam o fraco Edinho improvisado e Coutinho, capitão, atendeu.

E o pernambucano e feinho Rivaldo? Me digam aí, quanto não deve ter sofrido?  De vez em quando, entre pessoas que confia, ele narra passagens escabrosas.  E eu duvido que o meia cria do Santa Cruz merecesse menos atenção pela bola, que os Ronaldos, o Kaká...  mas é que ele foi outro “pecador” do estilo Souza, caladão, a sofrer horrores antes da consagração. O melhor do mundo em 1999, craque da Copa do Mundo de 2002, disparado,  na minha opinião, perdeu na escolha para Oliver Kahan. Se a decisão fosse da Globo, de Galvão Bueno, ele também não ganharia de Ronaldinhoooooooooooooooo! Fosse bonitão, paulista, carioca, mineiro, paraense, seria da mesma forma?

Tenho dezenas de outros exemplos. Junior Capacete quase nunca falava que era Pessoense, acho-o tolo, injusto, mas sabia, reconheço, fazer sua média,  e sempre passou a imagem de carioca, hoje é Global. Mazinho, ao contrário, que sempre  fazia e faz questão de lembrar suas origens , paraibano de Santa Rita, por isso, talvez, tenha alcançado maior sucesso e mais respeito na Europa que no Brasil, mesmo tendo sido decisivo em títulos inéditos de Vasco e Palmeiras, além da Copa de 1994. Ele era reserva de Zinho e Raí, vê se pode? Depois, todos viram, para nossa sorte, ele foi titular e decisivo.

Será que tem algo a ver o fato de um de seus filhos, o que herdou mais o seu talento, vamos dizer assim, jogar na Espanha?

A discriminação doentia desse povo do Brasil, dos ricos sudestinos e sulistas, claro, vai muito além do jogador. Posso dar exemplo da tentativa que fizeram para acabar com a Copa do Nordeste. A competição cresceu demais, ameaçou os donos dos públicos, do Clube dos 13, e foi preciso muita luta e acordos com os donos da bola da CBF, para continuar essa que é, hoje, uma das grandes atrações do calendário do futebol brasileiro.

Todos os atletas nordestinos, de ontem e os de hoje, não falam abertamente, mas sofreram e sofrem sim com o preconceito.  Quem não fala é porque tem um bom emprego, por isso a polêmica causada há duas semanas pela declaração de Juninho, após a demissão da comissão técnica do Flamengo e a má escalação do time.

“A torcida que escala o Vinicius Júnior, a torcida tirou o Renê... Você vai para um jogo, numa semifinal em que você tem a vantagem do empate... A torcida tira o Everton que joga lá na ponta esquerda, que é decisivo, para improvisá-lo na lateral porque o Vinicius Júnior tem que jogar e o Renê é ruim. Como que o Renê é ruim e chegou no Flamengo? O Renê é feio, é nordestino e não é amigo de ninguém. Isso é a realidade. O Brasil é preconceituoso, o brasileiro é preconceituoso e a torcida da massa é preconceituosa. Então, o que acontece no Flamengo é bagunça porque não se deixa ninguém trabalhar”, disse Juninho.

Juninho tem toda a razão. Hoje, no Brasil, o jogador tem que ser “comercial”, isso mesmo. Precisa ser alto, bonito, falar bem e, incluo, de preferência que não seja nordestino. E esse “não é amigo de ninguém” a que o comentarista se refere quando defendeu o nordestino Renê tem, implícita, a referência à parte da imprensa, chefes de torcida, direção e outras mazelas que infestam os clubes.

Atualmente, dois nordestinos, potiguares inclusive, estão bem na fita em seus clubes. Rodriguinho que, no seu retorno, Neto, ex-jogador do próprio Timão e comentador da Band, dizia “não ser jogador para o Corinthians”, mas claro, já se redimiu e vive elogiando agora, é o principal astro do Timão. E Ayrton Lucas. Esse menino de Carnaúba dos Dantas  foi do ABC para o Flu, mas para ser titular no tricolor teve que ser emprestado ao sulista Londrina, ganhar a Primeira Liga, sendo destaque da equipe paranaense, e ainda contar com a saída de vários atletas. Sim, gosto de lembrar, Ayrton, aqui no ABC, não ia nem para o banco, enquanto um treinador escalava Samuel, zagueiro improvisado, ou Somália, na ala.

O caso Rodriguinho, não se enganem, que também já foi vítima dessa discriminação (já li horrores nos comentários do site do clube em algumas ocasiões),  teve um desfecho diferente porque foi beneficiado pelos títulos, a boa fase e, também, precisa ser dito, por ser um cara articulado, inteligente, fala bem e sabe sim fazer a política da “boa vizinhança” com a imprensa. E também craque de bola diferenciado. Então, estranho ele não fazer parte dos planos de Tite na seleção?

Por último, nem sei se alguém teve paciência para ler esse texto até o fim, a discriminação no futebol é algo tão presente, tão doente que, acreditem, um treinador de nosso futebol, chamado de vencedor por amigos da imprensa, tinha horror a jogadores  que tivessem nascido e morassem no bairro das Rocas. Alguns atuaram com ele porque eram, absolutamente, acima da média. E sabem o que  mais: até Rodriguinho, ele mesmo, foi vítima dessa discriminação desse “professor.”

Não é fácil, gente. Uma tese de mestrado, doutorado, para tentar entender-explicar essa questão da discriminação contra atletas nordestinos. O pai da nossa estrela do vôlei, Virna Cristine, lembra, ele concordava quando eu escrevia na minha coluna no DN contra os exageros de Armando Nogueira nos elogios a Ana Paula, Ana Moser, Fernanda Venturini e quase nunca falava na potiguar. Até no vôlei...

Aproveitei a chance para mostrar também o preconceito e discriminação, absurdos, contra os nossos garotos crias de nossas bases.

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