OPINIÃO

Falta no Brasil uma direita liberal e democrática que enfrente Bolsonaro

Em agosto de 1977, o professor Goffredo Telles Junior lia a Carta aos Brasileiros no pátio das Arcadas do Largo São Francisco, onde funciona a tradicional Faculdade de Direito da USP. Seu tom era de enfrentamento ao regime militar e de defesa da democracia: “queremos dizer, sobretudo aos moços, que nós aqui estamos e aqui permanecemos, decididos, como sempre, a lutar pelos Direi­tos Humanos, contra a opressão de todas as ditaduras”.

Embora tivesse vários e ilustres signatários, não foi à toa que foi Goffredo o escolhido para lê-la. Longe de ser de esquerda, sua adesão à resistência tinha a pedagógica finalidade de demonstrar que o apreço por valores e princípios democráticos é ideologicamente transversal, indo de polo a polo. Legitimava-se, assim, a luta pela democracia não como uma pauta restrita à esquerda, mas como integrante de uma agenda humanitária e civilizatória.

A ideia que sedimentou a escolha de Goffredo costuma vir à tona em momentos de crise e acirramento. No Peru, o escritor Vargas Llosa, mesmo sendo de direita, costumar apoiar as candidaturas contrárias ao fujimorismo independentemente do espectro ideológico, de Kuczynski (direita) em 2016 a Humala (esquerda) em 2011. Em 1989, Ulysses Guimarães se dispôs a subir no palanque de Lula contra Collor. O PT vetou. Um erro imperdoável reconhecido pelo próprio José Dirceu em suas memórias recém-publicadas. Por razões também pragmáticas e de interesse maior, Luiz Carlos Prestes relevou a prisão e as atrocidades a que foi submetido junto com Olga Benário – enviada para a morte nos campos de concentração nazistas – durante o Estado Novo para apoiar Vargas em 1945.  Durante a Segunda Guerra, União Soviética, França, Reino Unido e Estados Unidos se uniram contra o nazi-fascismo. Churchill afirmava que, para derrotar Hitler, seria capaz de se aliar até ao capeta. Divergências ideológicas acabaram por se transformar em perfumaria diante do avanço das tropas alemãs, de modo que a urgência e a necessidade exigiam uma postura estratégica mais flexível com quem alimentava projetos diferentes de sociedade.

Em sua coluna no The Intercept Brasil, Mário Magalhães identificou essa necessidade e demonstrou que a formação de uma frente ampla democrática é fundamental para derrotar Bolsonaro[1], indo da esquerda a segmentos de uma direita liberal comprometida com liberdades individuais e com a defesa da democracia.

Todavia, o fenômeno que se vislumbrou nesse final de primeiro turno foi outro: uma forte migração de partidários do Partido NOVO e do PSDB[1] para o candidato do PSL antes mesmo do dia da votação[2]. Amoêdo, presidenciável pelo NOVO, já vem flertando com as hordas bolsonaristas na disputa contra Haddad[3], ao passo que João Dória já declarou apoio ao capitão[2].

Tal postura ratifica a tradição brasileira de não termos uma direita liberal à altura de Churchill e Roosevelt, e sim uma direita xucra, anti-iluminista, conservadora, estúpida, ignorante e autoritária – e pior: orgulhosa de seus relinchos fascistas e com um saudosismo escravocrata representado por manifestas intenções de reeditar a figura do senhor de engenho em pleno século XXI. Basta ver a entrevista do próprio Amoêdo no Roda Viva[4] e a versão pós-moderna do voto de cabresto levada à frente pelo dono da Havan contra seus funcionários. A expressão “escravidão assalariada” ganhou um sentido ainda mais literal no Brasil de 2018.

Em agosto de 1921, Antonio Gramsci dissecou a relação entre fascismo e legalidade: “surgiu assim o fascismo, que se afirmou e impôs fazendo da ilegalidade a única coisa legal. Nenhuma organização, salvo a fascista; nenhum direito de voto, a não ser quando dado aos representantes dos latifundiários e dos industriais. É esta a legalidade que a burguesia reconhece quando é obrigada a repudiar a legalidade formal”. Não surpreende a docilidade e o entusiasmo com que as burguesias nacionais europeias abraçaram o nazi-fascismo, tendo em vista os dividendos que poderiam tirar – e de fato tiraram – dessa relação.

A conjugação entre autocracia política e “liberdade” econômica também é velha e tem como um de seus adeptos o economista Paulo Guedes, postulante a czar da economia em um eventual governo de Bolsonaro. Guedes odeia política. E tem mais ódio ainda de instrumentos democráticos de controle e deliberação, conforme deixa claro no perfil feito pela revista Piauí no mês passado[5]. Seguindo a experiência de Pinochet, no Chile, acredita que política e economia andam separadas, não havendo incoerência em haver liberdade apenas na segunda.

“Eu afirmaria que o binômio Segurança e Desenvolvimento não tem o condão de transformar uma Ditadura numa Democracia, um Estado de Fato num Estado de Direito. Declaramos falsa a vulgar afirmação de que o Estado de Direi­to e a Democracia são a sobremesa do desenvolvimento econômico”, adianta o professor Goffredo em sua carta, direcionada também aos autoproclamados liberais que viram no PT o álibi perfeito para soltar a besta fascista dentro de si e aderir à candidatura de Bolsonaro. “Não há nada mais parecido com um fascista que um burguês assustado”, disse Brecht. Aqui sequer precisou de susto para que a paquera virasse namoro.

[1] https://theintercept.com/2018/10/02/frente-ampla-derrota-bolsonaro/
[2] https://oglobo.globo.com/brasil/em-minas-partido-novo-ja-prega-voto-em-bolsonaro-23122841?fbclid=IwAR1MTeSm8VC8TE303z2b2ZCCfC_fhvwm0iwYpQiETm1LZl8z5atuQaqgN9k
[3] https://veja.abril.com.br/politica/amoedo-nega-apoio-ao-pt-em-2o-turno-e-diz-avalia-pauta-de-bolsonaro/?fbclid=IwAR0s7i__oHwyXc_gmSKn383dlU83ufTEmktcpq6GzYV_b5Yvq6RSG2VyhiA
[4] http://www.justificando.com/2018/05/23/o-liberalismo-escravocrata-de-joao-amoedo/
[5] http://www.justificando.com/2018/09/24/os-delirios-autoritarios-de-paulo-guedes/

[1] https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,amigo-de-fhc-xico-graziano-deixa-psdb-para-apoiar-bolsonaro,70002531054
[2] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/doria-diz-que-criticas-do-psdb-por-maltratar-mulheres-foram-parte-de-campanha-dura.shtml

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