Natal: Qual a cor de Deus ? 
Natal, RN 17 de jul 2024

Natal: Qual a cor de Deus ? 

25 de dezembro de 2021
5min
Natal: Qual a cor de Deus ? 

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Era noite. Tudo escuro. Homens pastores eram guardados por suas ovelhas. Um fogo de gravetos em chamas cintilantes refulgindo em rostos olhos de pessoas e animais. Não muito longe dali, numa lapinha, uma mulher dava à luz ao seu menino acompanhada daquele que lhe é enfermo de amor: José.  Tudo muito singelo e discreto. Não fosse o anjo e a estrela alumiada no céu a proclamar o nascimento, nada mais anunciava a noite revestida de luz. É preciso levantar a cabeça e contemplar os luzeiros acessos nos céus de noite... faz-se necessário e urgente sentir mais além e perceber a insustentável leveza de um anjo.

Era noite e escuro. Um anjo de Deus se apresentou aos pastores envolvendo-os de luz. “Tenho para vocês uma notícia boa e nova, uma grande alegria: nasceu hoje para vocês um menino, o Salvador!”

Sinto asas em meus braços, minha boca é cheia de riso e meus lábios de uma canção natalina. Sou o anjo do alegre anúncio. Digo com o coração bailando e iluminado: “Nasceu hoje para você, um menino, o Salvador do mundo!”

Veja, você está agora todo cercado e envolvido de luz. Sinta a mágica de luz e de cores. Da tela desse artigo sai algo mais do que sei lá. Seu rosto está todo iluminado, seu corpo é tomado de uma sinergia envolvente...  Você está vendo?

Há dois mil anos, um anjo apareceu aos pastores. Hoje um anjo aparece a você. Seja menino ou menina, porque só eles podem experimentar, iguais aos pastores, essa visão. Sim, com mente e coração abertos, você de novo criança, abra os olhos e veja anjos dançando nas nuvens cantando glória para Deus e cantado paz, alegria, força e amor à você. Você soltou sua imaginação. Você ver agora. Enquanto a multidão do coro celestial entoa hinos,  o meu anjo amigo e o  seu anjo amigo, diz a mim e a você a alegria: “Nasceu hoje o um menino”. Ele continua nascendo em cada criança que nasce, sem exceção, mas teima em nascer naquelas que nascem na miséria, na pobreza e na opressão como Ele nasceu. Sejam pastores para todas elas, repito, sem exceção, mas principalmente por aquelas que nascem nas periferias dos impérios de hoje como ele nasceu na periferia do império romano em Belém, Casa do Pão, sendo Ele mesmo o Pão, nos ensinando já no mistério da encarnação o que fez no mistério pascal, tomar o pão, partir o pão, partilhar o pão.

Nascemos a imagem de Deus. Hoje Deus nasce à imagem do Homem. Deus é carne de nossa carne de agonia e prazer. E por falar na carne de Deus, qual a cor de Deus, heim?

Estava morando na França, eu e Eduardo Loureiro começamos uma relação epistolar. Escrevíamos sobre tudo. Lá pelo meio das tantas, sendo eu um padre vivendo num mosteiro trapista e ele um poeta e  um intelectual professor universitário em Fortaleza, começamos a falar de Deus. Eduardo então me saiu com essa: “Qual a cor de Deus?” Respondi-lhe que perguntasse ao meu sobrinho João, com dois anos na época, ele como criança saberia como ninguém a cor de Deus. Chegou o dia. Com Joãozinho no colo, preferiu perguntar a Pedro, menino de uma sensibilidade fabulosa. Enquanto Pedro colocava a mão no queixo e levantava a cabeça e olhos pensativo, Joãozinho não perdeu tempo e mandou ver: “A cor de Deus?”. E tocando a pele de Eduardo disse. “A cor de Deus é essa aqui!”. Chorei quando recebi a carta com a resposta. A cor de Deus, como canta meu irmão gêmeo Fabiano, o pai dos meninos, a cor de Deus é índio, é negro, é branco é multicolor.   Natal... “e o Verbo se fez carne e habitou entre nós!” .

A cor de Deus está no poema de Carlos Marighella, um ateu, no Poema Canto para Atabaque. “Ei bum, Qui bum-rum. Bum! Bumba! Ei lu! Qui lu-lu! Çumumba! Ei Brasil... O Brasil é mestiço, mistura de índio, de negro, de branco” de seu pai italiano e sua mãe filha de escravos.

A cor de Deus no corpo dos ricos, no corpo das pessoas de classe média, no corpo da classe trabalhadora, no corpo dos pobre e oprimidos e, principalmente no corpo daqueles/as que sofrem toda sorte de preconceito e discriminação.

Natal. Deus se faz humano para o humano se fazer partícipe do divino pelo mistério da encarnação que é um único mistério da morte e ressurreição. Quando na Missa, por, com e em Cristo, no Espírito Santo se oferece ao Pai o Sacrifíco Pascal que nos recria, salva e nos redime, na preparação das oferendas, no momento que se coloca uma gota de água no cálice, se ora em silêncio: “Pelo mistério dessa água e desse vinho possamos participar da divindade do vosso Filho que se dignou assumir nossa humanidade”.

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