OPINIÃO

Ainda sobre um riso zen

Por Cellina Muniz

Em artigo anterior publicado nesta coluna (https://saibamais.jor.br/2022/02/um-riso-zen/), já comentei sobre a relação entre humor e espiritualidade. Pois bem, o mundo segue no seu caos habitual e eu prossigo me dedicando a ambos os temas; continuo encontrando na praça pública da internet uma gama imensa de textos que fazem uso de estratégias humorísticas a partir de assuntos ligados ao sagrado e ao divino. A conclusão, um tanto incipiente ainda, também é a mesma: do mesmo jeito que o sistema capitalista se apropria de tudo, tornando tudo mercadoria (incluindo aí as manifestações de espiritualidade), o humor segue se manifestando como nossa própria condição humana de ser, condição essa que pode se atualizar fazendo uso de um tipo em particular: o ato de rir de si mesmo.

Será esse o caminho do autoconhecimento e da evolução?

Sei não… Sei que tomar o “eu” como objeto de riso – uma estratégia conhecida como autoderrisão – não é de hoje. Mas, nestes tempos digitais – em que todos se vigiam e são vigiados a todo momento – estou cada vez mais propícia a pensar que essa estratégia de ridicularizar a si próprio tem menos a ver com uma forma de defesa psíquica (tal como apontou Sigmund Freud em artigo intitulado “O Humor”, de 1905) e mais com uma maneira de (re)afirmar-se narcisicamente.

Selecionei três exemplos de diferentes perfis do Instagram que abordam o tema geral da espiritualidade (como já comentei antes, esse seria o grande “guarda-chuva” sob o qual se abarcam tópicos como terapias holísticas, oráculos, magia natural etc. etc.). Vejamos:

 

A manipulação humorística nesses textos se dá sobretudo pelo exagero cômico e cria um efeito de identificação junto ao interlocutor por meio da construção desse personagem “sofrido”: o sujeito que pega ônibus lotado, que enfrenta no trabalho situações de estresse e tensão, que precisa muito que as coisas comecem a dar certo… Essa relação de identificação, além de se mostrar como um estratagema de persuasão (e de likes), parece-me sobretudo uma celebração do eu, tal como já apontei em pequeno estudo publicado em 2018 (ver http://www.dissoc.org/ediciones/v12n03/DS12(3)Muniz.html):

é possível considerar que os enunciadores, isolados e interconectados simultaneamente, tanto como produtores quanto como consumidores de memes, praticam uma autoderrisão que, em última instância, não necessariamente rebaixa a si mesmo; pelo contrário, coloca o “eu” em evidência, buscando no virtual interlocutor um sentimento de identificação e partilha, um sentimento de comunhão. As tribos digitais se afirmam e celebram a vida por meio do riso de si em memes que se filiam a estereótipos do “cidadão médio”, com aspectos e hábitos rotineiros.

A atitude de celebrar (e não de rebaixar) o “eu” que a autoderrisão nas redes sociais propõe, evidentemente, não se reduz a uma visão simplista e maniqueísta (será tão ruim assim, mesmo para cidadãos “espiritualizados”, festejar o ego?). Por outro lado, demonstra também a mesma estratégia “materialista” de estabelecer capital simbólico (e, por desdobramento, financeiro).
Mais produtivo, talvez, que acender velas.

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo