Futebol feminino: time potiguar com 40 anos de tradição enfrenta dificuldades para se manter
Natal, RN 19 de jun 2024

Futebol feminino: time potiguar com 40 anos de tradição enfrenta dificuldades para se manter

7 de agosto de 2023
6min
Futebol feminino: time potiguar com 40 anos de tradição enfrenta dificuldades para se manter

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Walessa Silva tem 41 anos, 27 são dedicados ao futebol feminino. Ela iniciou sua carreira como jogadora no time Sociedade Esportiva União, onde hoje é presidenta e técnica. O time que desde 2022 se chama ABC-União, por ter firmado parceria com o clube alvinegro, existe há 40 anos na cidade de Extremoz, localizada na Grande Natal.

A equpe é a atual vencedora do campeonato potiguar de futebol feminino, realizado em 2022, e enfrenta grandes dificuldades desde que foi impedida de participar da terceira divisão do campeonato brasileiro por erro da Federação Norte-Rio-Grandense de Futebol (FNF).

Segundo Walessa, a exclusão do time ABC-União do campeonato nacional “se deu pela falta de atenção e competência da federação que realizou o campeonato com um número insuficiente de equipes, uma vez que o regulamento geral da CBF pedia quatro equipes. A federação realizou com três equipes e mesmo assim garantiu que independente de qualquer coisa nós teríamos a vaga e isso não aconteceu. A federação não conseguiu cumprir com uma promessa feita”

Walessa Silva com a taça do ABC-União na mão (Foto: Paulo José)

Durante o campeonato estadual de 2022, a FNF divulgou várias vezes em suas redes que o título de campeã dava à equipe vaga na disputa A3 do Brasileirão Feminino. A não admissão do time potiguar pela CBF foi descoberto pelas próprias atletas e só foi noticiado oficialmente pela federação após o ABC-União solicitar informações por ofício. 

Indignada, Walessa conta que “até hoje a federação não procurou a nossa equipe, a federação não deu suporte nenhum à nossa equipe, não deu suporte nenhum, nem à diretoria, nem às atletas. Até hoje estamos com um saldo negativo de dívidas acumuladas de mais de 200 mil reais e tudo isso causado pela federação que errou na realização do único campeonato que ela promove no ano que é o campeonato estadual”.

A presidenta Walessa fala com tristeza do cenário atual do futebol feminino potiguar. Para ela, o estado vive um momento de retrocesso na modalidade. “Há alguns anos a gente tinha 12, 15 equipes. Falo dos anos 90, 95, 96, 97, 98. Nesses anos, nós tínhamos um campeonato forte, competitivo e as coisas aconteciam, davam certo. E hoje, com tanto avanço, com tantas coisas boas acontecendo, cobertura de mídia, são pouquíssimas equipes”.

A ex-atleta dá como exemplo da falta de incentivo e valorização da modalidade o fato de o último campeonato estadual ter sido realizado em estádios com portões fechados, sem a presença de torcida. 

Equipe ABC-União em campo (Foto: Paulo José)

Sobre o desamparo atual do time, ela conta: “a gente vê que desde quando a nossa equipe foi eliminada, a federação — que cometeu, causou todo esse transtorno, esse dano psicológico para a gente e financeiro — em nenhum momento usou os seus departamentos para dar suporte a gente”.

Walessa segue relatando: “nós estamos hoje numa luta grande junto ao governo do estado para que o governo encontre uma estratégia e um caminho lícito de fazer chegar a gente o valor de 200 mil reais que o governo do estado prometeu. Então a gente não vê o interesse da federação em chegar no governo do estado”.

Mesmo com as dívidas acumuladas, o ABC-União segue trabalhando. Além de manter a equipe de jogadores treinando, o clube iniciou o projeto “O maior do RN vai até o seu projeto” com o objetivo de visitar as 167 cidades potiguares e mapear as iniciativas de futebol feminino no estado.

Queremos levantar, através dessa pesquisa de campo, o número de praticantes de futebol que nós temos no nosso estado. Nós também iremos ter informações sobre faixa etária de atletas e sobre as dificuldades que elas enfrentam no dia a dia para praticar a modalidade em suas cidades”, afirma Walessa.

Walessa Silva, técnica do ABC-União (Foto: paulo José)

Sobre o andamento do projeto, Walessa conta que o clube já visitou dez cidades. “O que nos surpreende ainda é que em todos os projetos que nós visitamos, nós encontramos uma coincidência, algo que é muito comum entre eles e que a gente coletou: infelizmente essas equipes não têm incentivo e nem têm o apoio do poder público, elas sobrevivem de esforços próprios, elas sobrevivem de rifas e dependem da boa vontade de alguns que têm a máquina na mão, que têm o poder na mão de liberar um horário bacana para as meninas treinarem”, declara.

Segundo a técnica, já se observou na pesquisa que de todo horário disponível em espaços públicos, como campos e quadras, apenas 5% ou 4% são destinados ao público feminino.

Em desabafo, Walessa diz: “nós, mulheres, merecemos respeito e queremos ser valorizadas. Chega de machismo, chega de retrocesso e chega de falta de incentivo. Tá aí, a seleção brasileira foi eliminada da Copa, só que ninguém olha o motivo da eliminação. Não se trata só de um erro de treinador, ou porque as mulheres não foram bem, se trata da cultura, se trata da base, da raiz. As nossas escolas não oferecem hoje opções para as meninas escolherem jogar futebol. Hoje as federações não oferecem premiação em dinheiro, como é oferecido para os times masculinos, para que os times femininos possam lutar por uma premiação digna”.

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