A Fortaleza dos Reis
Natal, RN 3 de mar 2024

A Fortaleza dos Reis

24 de setembro de 2023
6min
A Fortaleza dos Reis

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O Brasil foi “inventado” a partir das dores de suas mulheres e é importante não esquecermos esta história para podermos olhar de frente para nosso passado e aprendermos com ele. Daniel Munduruku

  A pichação do Forte dos Reis Magos ocorrida na madrugada de 7 de setembro foi intensamente comentada nas redes sociais. Agitação grande! Revolta de um lado; apoio ao ato, de outro. As palavras em letras garrafais: NÃO AO PL 2903, AQUI É TERRA INDIGENA, deixavam clara a intenção de protestar contra algo em tramitação no poder Legislativo. O nome “indígena” informava que o assunto tinha a ver, principalmente, com os povos originários. Ainda assim, muitas das críticas e textos contrários ao protesto afirmavam não ter entendido do que se tratava. Muitos dos que se deram ao trabalho de discorrer sobre o quanto foi aviltante a vandalização, não tiveram interesse de saber os motivos. Não foi coisa de rebelde sem causa, saiba o leitor. Há uma razão concreta por trás da ação. Um, que remonta há 520 anos, quando os portugueses chegaram à valiosa terra de proporções continentais povoada por mais de 300 etnias. Não sei se você percebe, que o que nós somos hoje não começou com a chegada dos europeus, embora a imposição violenta de uma nova língua, de uma outra cultura, organização social, religiosa, política e econômica tivesse nos feito, centenas de anos depois, esquecer as origens. Eu era uma menina nas Rocas em 1982. A fortaleza já havia sido revitalizada há muitos anos e os passeios em família eram o ponto alto do fim de semana. Fui muitas vezes à imponente edificação feita de pedra, que brilhava ao longe com sua brancura de cal. Lembro com imenso carinho de caminhar, embaixo de um sol escaldante, pela extensa passarela que dava acesso à fortificação, enquanto o mar de cor esmeralda agitava-se à minha esquerda. De vez em quando circundávamos a estrela seiscentista, enquanto as tias contavam as aventuras da sua mocidade. Sentia-me pertencendo a algo grandioso em comparação ao cotidiano simples que tínhamos e isso me fazia feliz. Se mamãe comprasse dindim, ou picolé, a vida era perfeita e nada, nem a saudade de papai, que viajara para o Sul em busca de emprego, tinha o poder de me entristecer. O Forte está no meu coração. Sempre estará. Assim como esteve no coração dos meus pais e avós, tios, primos e conhecidos do bairro. A construção é um xodó para os moradores da zona leste e uma fonte de renda para quem sobrevive do turismo local. Por isso, vê-lo pichado entristeceu-me. Tanto, que não voltei a ver a fotografia por alguns dias, como se a imagem tivesse o poder de profanar a minha infância. Ando melancólica com o meio século vivido, achando que meu mundo, pouco a pouco, diminui. Mas, enquanto escrevo essa crônica, uma frase do Eduardo Galeano acende dentro de mim feito um pirilampo: “... um passarinho me contou que somos feitos de histórias...”. A minha tem o Forte como uma das referências. E, antes que você me confunda, porque sou facilmente confundida com uma mulher conservadora (e detesto isso)... antes que você me confunda... quero dizer que minha bisavó sofreu na carne os efeitos que a colonização produz até hoje. Tendo nascido no final do século XIX nos arredores de Arês, ela foi trazida a Natal e criada como serviçal na casa de uma família religiosa. Praticamente tudo foi tirado dela, menos a consciência de quem era. Morreu afirmando-se indígena, em um tempo em que dizer isso era ainda mais suscetível ao preconceito. Ela não era uma entidade de quem se falava na família. Eu convivi com “Mãe” Joaninha durante o tempo em que morei com meus avós. Então, o seu sofrimento e a sua trágica história doem em mim mais do que doeria em uma pessoa que não tem parentes próximos sofrendo devido à sua identidade. Estou falando de algo sagrado: ancestralidade. Certas pessoas não entenderão isso, mas não vim ao mundo para suprir as expectativas delas ao meu respeito. Sou uma mulher de pele branca atravessada por outras origens que também me sensibilizam. Claro que, muitos dos que me lerão também possuem essa marca ancestral, mas se eles não se dão conta disso e preferem se imaginar apenas como descendentes de europeus, sinto muito por isso. Demorei dias para escrever esse texto porque eu queria que ele falasse da minha relação de afeto para com uma causa justa, da mesma maneira que dissesse da minha tristeza por termos chegado a um ponto em que, para chamar a atenção de uma sociedade desinteressada e desinformada, tenhamos que tocar em lugares sagrados da memória coletiva. A questão é que, apesar de chamar atenção, o protesto termina se tornando impopular porque as pessoas se indispõem com quem luta, tocando certos símbolos do passado. Mas se você me perguntar se tenho uma ideia melhor, de fato, não tenho. Gostaria de ter, como Conceição Evaristo, uma escrevivência com poder de “acordar a casa grande dos seus sonos injustos”. Assim como, a exemplo de Ailton Krenak, “ideias para adiar o fim do mundo”. Ainda assim, quando a notícia sobre o genocídio do povo Yanomami veio à tona, fiz uma crônica falando sobre o assunto (e não vi um único texto desses que aí estão, indignados pela pichação do Forte) o que me traz a incomoda impressão de que monumentos são mais importantes para alguns blogueiros, do que brasileiros com certa cor de pele e certa origem. Estou feliz pela restauração da pintura do Forte dos Reis Magos. Espero que ele se mantenha em pé para continuar a nos lembrar dos erros do passado. Espero que meninas ingênuas continuem a visitá-lo sonhando com um futuro diferente para elas e sua comunidade. Assim como desejo que os povos originários possam acessar seu legítimo direito à terra para continuar a viver nela do modo mais natural possível. Se você também pensa dessa forma, procure se informar a respeito e contribua com a luta contra o PL 2309. Entre outros retrocessos, o projeto de Lei prevê a construção de rodovias e hidrelétricas em territórios indígenas sem consulta prévia às comunidades afetadas e o fim da diferença entre posse tradicional indígena e posse privada, permitindo que fazendeiros assinem contratos de produção com indígenas e violem o direito dos povos originários ao usufruto exclusivo dos territórios demarcados.

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