A biruta do governo
Natal, RN 5 de mar 2024

A biruta do governo

19 de dezembro de 2023
3min
A biruta do governo

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Saber perder é tão importante quanto saber ganhar. A lição é comezinha na política e em tudo o mais, menos para o Governo do Rio Grande do Norte, que avacalhou o brocardo de autoajuda no processo de prorrogação do ICMS majorado e saiu da refrega com direito a pedir música no Fantástico: foi derrotado antes, durante e depois da votação. A decantação do tema já permite a conclusão.

O governo perdeu antes nos dois fronts em que se trava a guerra política – os bastidores e a mídia –, por excesso de fé nos milagres de São Ezequiel, por inépcia da sua articulação e, externamente, por falta de discurso que se contrapusesse ao do patronato sem compromisso com o RN e ao do bolsonarismo em desforra da surra sofrida nas urnas estaduais e federais, no ano passado.

Sem verbo para a sociedade e sem verba para os invertebrados da Casa, o governismo sucumbiu aos próprios erros e chegou já derrotado ao plenário da Assembleia Legislativa. Por três dias, ainda negou quórum para votação, aferrado a algum tipo de pensamento mágico sem qualquer correspondência no real tomado pelo desejo de vindita dos adversários.

Consumada a derrota, o governo não teve humildade, galhardia ou inteligência para sair do oito em que se confinou voluntariamente e dizer algo que, diferente das duas primeiras fases, amenizasse os danos políticos (os orçamentários já eram sabidos de antemão) acumulados antes e durante a votação. Preferiu transformar o duplo fiasco em triplo, lançando-se numa torrente de acusações e desinformações que nada acrescentaram ao seu capital de imagem.

A nota oficial mal-ajambrada e as declarações erráticas dos seus porta-vozes fizeram foi realçar as debilidades e contradições desnudadas durante o processo. No exemplo mais eloquente de desinteligência, o secretário de Tributação, Carlos Eduardo Xavier, o Cadu, veio à ribalta jurar que, a despeito do rombo aberto na previsão de receitas pela perda dos 2% extras de ICMS, não havia, não há e não haverá risco de atraso salarial nos próximos meses, negando, assim, o argumento que era central na estratégia (?) pré-votação.

Seria fácil apontar outras contradições de igual naipe evidenciadas nesta terceira derrota – como se o governo fosse uma biruta de aeroporto, exposto aos humores incontroláveis dos ventos da política. Mas leitores do Saiba Mais têm tutano para enxergá-las sem indução. Então, mais interessante é registrar um curioso efeito lateral da sova que o governo tomou: a projeção do secretário de Tributação. Guindado a porta-voz de uma gestão que age como se pouco ou nada de relevante tivesse a dizer nas crises, Cadu é um vencedor na derrota, se o paradoxo é possível.

Ele tem sido, no apelido típico dos boleiros da posição e no papel tático exercido, o médio-volante pegador e agressivo que o governo escala nas horas mais ásperas, para caçar os adversários e manter indevassável sua zona do agrião. Pode parecer duro, pode ser desgastante, mas o anverso de tanta sofrência tem algo de promissor: assegura uma projeção nada desprezível para, se este for seu desejo, cacifar-se interna e externamente em aventuras eleitorais futuras.

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