8 de março: quais os desafios que encontram as mulheres na ciência?
Natal, RN 20 de mai 2024

8 de março: quais os desafios que encontram as mulheres na ciência?

8 de março de 2024
7min
8 de março: quais os desafios que encontram as mulheres na ciência?

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Existem inúmeros desafios na jornada de um pesquisador, que vai desde a dedicação integral à sua pesquisa até a abdicação da vida social. Para homens, esse caminho, mesmo com obstáculos, se torna mais fácil por inúmeros fatores, e um deles está ligado ao gênero, visto que a responsabilidade em cuidar - seja da casa, dos filhos ou da família - recai na maioria das vezes sobre a mulher. Em uma pesquisa realizada por Luana Myrrha e Jordana Cristina de Jesus, professoras do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem), os dados apontam que as mulheres, mesmo quando possuem algum trabalho remunerado, ainda dedicam um tempo aos cuidados, que é 60% maior que o tempo dedicado por homens ocupados. 

Média de horas dedicadas aos afazeres domésticos e/ou aos cuidados de pessoas segundo o sexo e a situação na ocupação (horas semanais) – Gráfico: Luana Myrrha e Jordana Cristina.

As desigualdades de tempo dedicado ao lar e aos cuidados de pessoas é somente a ponta do iceberg que distancia mulheres do ambiente científico. É o que aponta Lara Gomes, pesquisadora em comportamento humano no Centro de Biociências da UFRN (CB).

Mesmo que eu esteja rodeada por mulheres, os louros em sua maioria são dados aos homens. Homens seguem a carreira acadêmica por mais tempo, ganham melhores salários, publicam mais e por aí vai”, afirma a doutoranda. 

Além disso, Lara explica que para estar em espaços científicos majoritariamente masculinos, como congressos e eventos, é um constante exercício de paciência. Segundo a pesquisadora, ela está sempre sendo subestimada sobre os seus conhecimentos nesses ambientes.

Já me senti assim quando pesquisadores [homens] renomados me fizeram perguntas óbvias por não acreditar que eu sei tanto”, comenta. No entanto, a doutoranda conta que continuar ocupando esses espaços é o que motiva. “Eu fui buscando formas de contornar essas situações. Uma delas é desenvolver meus projetos em colaboração com mulheres”, destaca. 

Realizar suas pesquisas junto a mulheres é o que motiva Lara Gomes a continuar na ciência - Foto: Lara Gomes.

Situações como essa fazem com que garotas, principalmente as jovens, desenvolvam a chamada síndrome da impostora, caracterizada quando o indivíduo constroi uma percepção de si mesmo de incompetência ou insuficiência. Para Juciara Gomes, mestranda em Serviço Social na UFRN, a pós-graduação sempre pareceu um lugar inalcançável.

Nós vivemos em uma sociedade marcada pela divisão sexual do trabalho, o que significa que as relações assimétricas entre homens e mulheres criam e reproduzem desigualdades, colocando as mulheres numa situação de subordinação e invisibilidade em todos os âmbitos nos quais estão inseridas, inclusive na universidade”, pontua a mestranda. 

Majoritariamente ocupado por homens, as áreas de ciência e tecnologia apresentam números desiguais, desde a quantidade de mulheres presentes até o abismo no comparativo da média salarial. Essas questões foram o que motivaram Mariana Almeida, coordenadora do projeto Meninas no Espaço, a construir um ambiente tecnológico para mulheres em 2014. A professora realizou uma pesquisa a partir de um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), cujo objetivo era investigar os fatores que influenciavam as meninas a não optarem por cursos de nível superior na área tecnológica.

A partir desse levantamento de dados, Mariana conseguiu identificar os cursos da UFRN entre 1994 até 2015 que tinham maior concentração de meninas. A equipe, formada por Mariana e alguns alunos de pós-graduação, descobriu a ausência de estudantes do sexo feminino em áreas tecnológicas e exatas. Desde então, a docente desenvolve o design desse projeto por uma estrutura de multiníveis. A estratégia multinível é formada por células de capacitação: tem um professor que coordena o curso e capacita um grupo de alunos, que, no caso, foram as tutoras. 

A coordenadora ainda conta que transformar a vida de outras garotas por meio da educação se tornou uma missão de vida.

Iniciei o mundo da pesquisa desde o ano 2000. Fui bolsista de iniciação científica durante toda minha graduação por diferentes projetos, no mestrado e doutorado. A pesquisa mudou a minha vida e hoje me inspiro nessa realidade para despertar o interesse de jovens meninas para ingressar nesse mundo da pesquisa”, comenta.

Por edição, mais de 75 garotas passaram pelo projeto Meninas nos espaços. Foto: Cícero Oliveira/Agecom UFRN.

Apoiar iniciativas como essa e desenvolver políticas voltadas às estudantes é o objetivo de Silvana Maria Zucolotto Langassner, Pró-Reitora de Pesquisa da UFRN (Propesq). A Pró-Reitora explica que nos últimos anos, a UFRN tem se preocupado em apoiar mulheres na ciência, entendendo suas demandas e suas dificuldades em permanecer no ambiente científico.

Quando assumi a Pró-reitoria de Pesquisa, comecei a me preocupar com essas questões por ser uma mulher pesquisadora, e agora possuir um cargo de liderança na área”.

A docente explica que agora trabalha para que as jovens cientistas sejam tão valorizadas quanto os pesquisadores homens, com categorias somente para elas em eventos premiados.

Honrar a luta histórica das mulheres pelo direito à educação também é uma das razões para que Juciara Gomes e tantas outras garotas continuem buscando um espaço no mundo científico e acadêmico. “Apesar das desigualdades que perpassam a experiência da vida acadêmica, para nós mulheres, filhas da classe trabalhadora, esse também é um espaço transformador. Transforma nossas mentes e o modo como a gente se percebe no mundo”, destaca Juciara. 

Mais fortes que os obstáculos 

Mesmo tendo incontáveis desafios em suas jornadas, as pesquisadoras continuam fazendo história nos espaços que ocupam. De acordo com os  dados apresentados pela Propesq, a quantidade de mulheres bolsistas de Produtividade em Pesquisa (PQ) da UFRN aumentou 65,3% entre 2018 e 2023. Os estudos desenvolvidos pelas pesquisadoras estão distribuídos em 38 áreas, sendo psicologia, genética e educação as mais estudadas. 

Média de mulheres bolsistas de Produtividade em Pesquisa (PQ) entre 2018 e 2023. Gráfico: Propesq/UFRN. 


Essa reportagem faz parte do projeto “Ser Mana, Mulher", idealizado pela Agência SAIBA MAIS para produção de pautas dedicadas a temas que impactam diretamente a vida das mulheres, ao tempo que contamos as histórias de Mulheres.

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