Como resiste o afroempreendedorismo do outro lado da ponte
Natal, RN 22 de fev 2024

Como resiste o afroempreendedorismo do outro lado da ponte

23 de novembro de 2023
6min
Como resiste o afroempreendedorismo do outro lado da ponte
Mariana sempre teve o sonho do emprego próprio pois o mercado de trabalho nunca foi fácil para ela | foto: cedida

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Empreender é a forma que muitos brasileiros encontram de ter o próprio negócio. Acontece que com a desigualdade social cada vez mais crítica no país, o movimento de empreendedores negros e negras luta para conquistar um espaço que é negado. Em Natal, capital do Rio Grande do Norte, não é diferente. Empreendedores pretos e pardos da Zona Norte batalham para conquistar frutos e manter seus pequenos negócios abertos. 

Segundo a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2020, realizada no Brasil pelo Sebrae em parceria com o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBPQ), os empreendedores pretos foram os mais prejudicados com suas atividades devido a pandemia da Covid-19. Além disso, eles também tiveram recuperação mais modesta, após a crise da pandemia.

Ainda de acordo com o estudo, em 2020, 62,3% dos adultos pretos e pardos apresentavam desejo em ter o próprio negócio, uma diferença de 9,6 pontos percentuais se comparado com os adultos brancos (52,7%).

Stefanny Costa é designer de sobrancelhas e iniciou sua carreira pouco antes do início da pandemia. A designer tem um stúdio na Avenida Itapetinga, bairro Potengi, e conta que enfrentou umas das maiores dificuldades logo no início da profissão e foi muito atravessada por isso. No período, ela realizava os procedimentos apenas nos seus amigos próximos e familiares que conviviam. 

Sempre tive vontade de aprender a fazer sobrancelhas, só que nunca tinha iniciativa. Junto da pandemia veio as dificuldades financeiras e, infelizmente, as escolas fecharam, me vi num cenário de que tinha que fazer algo, pois estava com 17 anos e gostaria de mudar minha realidade cedo e ser bem-sucedida cedo”, relata. 

Assim, a designer começou a usar a bicicleta do pai para trabalhar. “Peguei a bicicleta de pai e postei no Facebook que estava atuando na área. Comecei fazendo por 5 reais para ir aprimorando”, revela. 

O mercado de trabalho é extremamente difícil, e fica mais ainda para nós”, desabafa Mariana.

Mariana Gomes é Lash Designer, profissional que realiza extensão natural dos cílios, e conta que o seu sonho era se libertar do que não gostava e poder trabalhar com o que ama.

Antes de empreender eu trabalhei de carteira assinada em uma empresa e sentia diversos momentos que meu lugar não era ali”. 

A Lash aponta que o mercado de trabalho é hostil com os pretos e pardos e ter uma rede de apoio foi fundamental para seu início de carreira. “É um fato importante que meu maior apoio foi poder trocar experiências com outras pessoas pretas”, desabafou. 

Vinicius Augusto também compartilha esse sentimento. Para o jovem, que mora em Extremoz, achar uma profissão que se identificasse foi libertador. “Pela estrutura da nossa sociedade, é difícil conhecer outros empreendedores pretos. Sempre demorei pra me encaixar no mercado de trabalho até conhecer o ‘Agno Black’ um barbeiro preto e de origem periférica, como eu”, disse. 

O barbeiro revela que a todo momento pessoas brancas desconfiaram do seu trabalho. “A desconfiança de como você conseguiu montar seu negócio, questionam como você conseguiu, questionam seu talento, tudo”, contou. Acontece que pessoas negras sempre precisam provar suas capacidades muito mais do que pessoas brancas. “Eles sempre desconfiam da sua capacidade, da sua administração. Eles desconfiam até do modo que gasto meu dinheiro”.

Já com Stefanny, as coisas também não foram fáceis. Além de contar todas as vezes que foi seguida em um estabelecimento, a designer desabafa que já desconfiaram até de uma nota de R$ 5 que ela tinha. “Minha maior dificuldade é com a criminalização. Sempre que entro em uma loja de cosméticos me sinto vigiada e intimidada. Rolou até de uma vez eu dar uma nota de 5 reais para moça e ela validar na minha cara para ver se a nota era verdadeira. Eu fiquei sem reação”, desabafou.

Não troco minha zn por nada” diz Stefanny mesmo com o preconceito da região

Mariana lembra do início da nova profissão e o medo que teve de se sentir inferior. Medo comum para a maioria dos negros. Outro sentimento que relata, é a descredibilidade que sofre por morar na Zona Norte. A designer, que mora no Loteamento José Sarney, no bairro Lagoa Azul, fala que os clientes querem pagar mais barato pelo serviço ser na Zona Norte.

Mesmo com a excelência do nosso trabalho querem rotular nosso valor. Muitas pessoas pagam o dobro na Zona Sul e quando chegam aqui querem pagar mais barato pelo simples fato de ser aqui”, relatou.

Stefanny também conta que se sente desvalorizada a maioria das vezes. “Infelizmente, não posso colocar o preço justo porque as pessoas acham um absurdo de caro. Isso acaba impactando na minha qualidade de vida. Vamos dizer que trabalhamos para sobreviver e não para viver”, desabafa. “Talvez se fosse na Zona Sul seria bem mais tranquilo, mas não troco minha zn por nada!”, concluiu.

Já Vinícius é mais esperançoso quanto ao fluxo do seu trabalho. O barbeiro diz que sente o impacto do pouco movimento que tem na rua. Vale lembrar, que a população de Extremoz cresceu no último censo. “Sim, apesar de q todo lugar o começo sempre é mais complicado e lento, sinto que aqui ainda tem pouco movimento pelas ruas e isso acaba dificultando a divulgação e o fluxo de clientes. Mas creio eu que seja questão de tempo a movimentação das ruas aumentarem”, desabafou esperançoso.

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Essa reportagem faz parte do projeto "Saiba Mais de perto", idealizado pela Agência SAIBA MAIS, e financiado com recursos do programa Acelerando Negócios Digitais, do ICFJ/Meta e apoio da Ajor.

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