As demandas e as vivências de ser mulher entregadora de app
Natal, RN 29 de mai 2024

As demandas e as vivências de ser mulher entregadora de app

13 de março de 2024
6min
As demandas e as vivências de ser mulher entregadora de app
Imagem: Cedida.

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Há quatro anos, Nathalia Soares, 25, trabalha como entregadora de serviços de delivery. A rotina de trabalho dela é de domingo a domingo, doze horas por dia durante a maior parte da semana, começando às 11h da manhã e terminando às 23h. A exceção, às vezes, é no domingo, quando ela trabalha até o horário do almoço. 

Ela é uma das quase 90 mil mulheres que se encontram no ramo aqui no Brasil, segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2022.  Antes de ser entregadora de app, Nathalia trabalhava como CLT em um restaurante, mas saiu depois de ver nas entregas de app a oportunidade de melhores questões financeiras.

“Mas no aplicativo, quando a gente não pode trabalhar, não ganha dinheiro ”, disse.

No relato de Nathalia, ela conta as dificuldades de trabalhar no serviço de entregas por app. “A gente não tem patrão e tá livre, trabalha no horário que quer, mas às vezes quando a gente quer, não tem trabalho”, argumenta, se referindo, por exemplo, aos momentos em que a demanda no serviço de delivery não está alta.

“E se você tiver doente, não ganha dinheiro, mas CLT, querendo ou não, ganha. É um serviço bom [o de entregador], mas quando precisa dos benefícios, a gente não tem”, afirma.

Como Natal não dispõe de ponto fixo para as pessoas que trabalham com aplicativos de entrega, quando não está com altas demandas no serviço, ela precisa encontrar outros meios para descansar, como nas praças da cidade.

“Quando chove, por exemplo, a gente fica debaixo dos cantos mesmo, já que não existem pontos de apoio pra descansar”, explica.

Para ir ao banheiro, ela precisa esperar o aplicativo tocar para pegar a entrega em algum restaurante que disponibiliza o uso do banheiro para os entregadores, ou ir a um shopping, quando está perto.

Outra questão é a das entregas nos condomínios. Como muitos moradores que solicitam o serviço de delivery não vão até a portaria receber o pedido, Nathalia já precisou passar por situações de insegurança.

“Fui deixar o pedido lá dentro do condomínio e não podia entrar com a moto. Quando voltei, tinham levado meu capacete. Pedi para ver as câmeras, mas o condomínio não disponibilizou”, relata.

Mas as demandas ultrapassam o trabalho nas ruas. Quando chega em casa, Nathalia, que mora sozinha, arruma a casa, faz comida e cuida dos cachorros que ela cria. Quando precisa resolver alguma questão de saúde, precisa sair cedo da manhã de casa. 

“Tem mulheres que deixam o filho em casa pra ir trabalhar na rua doze ou mais horas por dia, e não tem suporte em nada, nem no trabalho nem dentro de casa”, narra.

Os assédios nos serviços de entrega

Outra questão que as mulheres entregadoras de app precisam enfrentar diariamente é a do assédio sexual, como explica Nathalia.

“Queria muito que as pessoas passassem a descer para pegar os pedidos. Eu passei por situações de assédio sexual, como nas vezes em que atendi clientes que estavam só de cueca. Também já me convidaram pra entrar, em troca de oferecer gorjeta”, narra.

“Eu tô ali pra trabalhar, não pra ver pessoas quase nuas”.

Ela também explica que os amigos entregadores passam por questões parecidas, mas ressalta a questão das mulheres.

“Eu acho que por ter mais entregador homem do que mulher, a plataforma não liga tanto pra essa questão do assédio", conta.

Os assédios que Nathalia relata vão além daqueles que acontecem no momento das entregas:

“Já sofri assédio em restaurante, pelos funcionários, e até mesmo nas ruas”, conta.

"Nóis por nóis"

Nesses quatro anos como entregadora de app, Nathalia já sofreu três acidentes. Em nenhum deles a plataforma auxiliou a trabalhadora de alguma forma.

Em um desses acidentes, ela conta que a outra pessoa envolvida estava errada, mas que quis resolver rapidamente a questão com a justificativa de que a vítima do acidente era uma mulher.

“Ele disse assim: ‘Aqui eu resolvo, é uma mulher’. Ele queria me dar um dinheirinho pra que eu fosse embora, mas eu disse: não é assim não”.

Naquele momento, Nathalia entrou em contato com os amigos entregadores, que prontamente compareceram no local para tentar resolver a situação e exigir respeito para a colega de trabalho.

“Os entregadores chegaram lá e disseram: não vai ser assim não. Não é porque ela é mulher que você, mesmo tendo batido na moto dela, vai ficar por isso. Os homens sempre acham que, por eu ser mulher, vão fazer o errado comigo e que vai ficar assim mesmo".

Desde outubro do ano passado, Nathalia faz parte da Associação de Trabalhadores de Aplicativos por Moto e Bike (ATAMB - RN), na qual ela é diretora de mulheres.

“Quando eu entrei na Associação, foi pra mostrar que mulher pode, também, estar nesse rumo. Não funciona só pra homens. Eu desenrolei, então outras também conseguem”.

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Essa reportagem faz parte do projeto “Ser Mana, Mulher", idealizado pela Agência SAIBA MAIS para produção de pautas dedicadas a temas que impactam diretamente a vida das mulheres, ao tempo que contamos as histórias de Mulheres.

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