Nordeste tem menor absorção de mulheres pelo mercado de trabalho
Natal, RN 18 de mai 2024

Nordeste tem menor absorção de mulheres pelo mercado de trabalho

15 de março de 2024
11min
Nordeste tem menor absorção de mulheres pelo mercado de trabalho
Foto: Agência Brasil

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Apesar do maior número de mulheres em idade ativa, fenômeno que também se repete nas demais regiões do país, no Nordeste o subaproveitamento da mão de obra da mulher ocorre com mais frequência. Elas possuem a menor taxa de participação no mercado de trabalho, chegando a 44%, índice bem inferior à média do Sul (61%) e Sudeste (57%). No comparativo com os homens essa diferença é ainda maior: no Brasil a taxa de aproveitamento é de 62%, chega a 65% no Sudeste e cai para 54% entre os homens nordestinos. Os dados são de 2019 e estão no Relatório de Capital Humano Brasileiro, publicado pelo Banco Mundial.

O levantamento também mostra que 46% do potencial produtivo das mulheres brasileiras não foi aproveitado pelo mercado de trabalho. No Nordeste, esse número alcançou os 56%.

No Nordeste essa subutilização pode ser explicada por vários fatores, um deles é o menor desenvolvimento da região e menor oferta de empregos. Neste contexto, homens são ainda mais preferidos pelo mercado. Imagine o seguinte, há uma vaga e um candidato que é pai e uma candidata que é mãe, quem você acha que vai levar a vaga? Parte das empresas deixam de contratar mulheres porque enxergam a maternidade como um custo, presente ou futuro. Se engravidar, será um custo, se já é mãe, vai faltar mais...  Infelizmente, essa interpretação tende a ocorrer, mesmo em casos de maior capital humano feminino, que pode trazer mais ganhos para a empresa", explica a professora do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Luana Myrrha.

A docente aponta ainda que, "além disso, no Nordeste ainda há uma forte presença do machismo e do patriarcado, que reforçam a cultura da divisão sexual do trabalho. Nas classes mais baixas, as mulheres mães têm ainda mais dificuldade de se inserir no mercado de trabalho, pois, se não há escola integral e gratuita, quem vai cuidar do seu filho para ela trabalhar? Essa realidade é um pouco diferente nas classes média e alta, pois as mulheres conseguem pagar babás ou escolas integrais para seus filhos. Considerando que no Nordeste a desigualdade de renda é maior, esse fator também explica parte da subutilização do capital humano feminino”.

Fonte: Banco Mundial

O Índice de Capital Humano (ICH) ao qual a professora da UFRN se refere são as habilidades, experiências, qualificações e conexões sociais que cada indivíduo adquire ao longo da vida. É esse capital que vai determinar suas opções e atuações no mercado de trabalho.

Como a educação se estabelece como uma das principais formas de obter habilidades e qualificações, a escolaridade de um indivíduo é um determinante do capital humano. O Índice de Capital Humano é um indicador criado pelo Banco Mundial, que além de considerar as condições de educação, também incorpora as condições de saúde desfrutadas pelas crianças. Esse índice tenta estimar a produtividade esperada de uma criança nascida hoje aos 18 anos, se mantidas as atuais condições de educação e saúde, ou seja, é uma projeção do nível de capital humano que as crianças nascidas hoje levarão para o mercado de trabalho no futuro”, detalha Luana Myrrha.

Quanto mais vermelho, menor o Índice de Capital Humano I Fonte: Banco Mundial

Apesar do Índice de Capital Humano ser maior entre as mulheres, ele é menos aproveitado pelo mercado de trabalho. Em 2019, as mulheres representavam apenas 37% dos cargos gerenciais e 16% dos
cargos eletivos em conselhos. Elas eram apenas 11% das pessoas matriculadas no ensino superior nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. E apesar de terem mais altas taxas de conclusão do ensino superior do Brasil em 2019, as mulheres ganhavam, em média, 77% do salário dos homens.

Fonte: Banco Mundial

Os dados do relatório demonstram, em números, uma realidade que nós, mulheres, conhecemos da vida cotidiana. São as mulheres que cuidam dos filhos, idosos, pessoas com deficiência ou doentes da família, o que exige um tempo de trabalho que não é remunerado.

“Consequentemente, as mulheres não dispõem do mesmo tempo que homens para se dedicarem ao trabalho remunerado, ou em outras palavras, ao trabalho produtivo. Portanto, muitas acabam saindo da força de trabalho, ou preferem trabalhos informais com menor carga horaria para dar conta de tais demandas e outras sofrem preconceitos de gênero na contratação ou na carreira, principalmente quando são mães. Assim, mesmo que as mulheres estejam mais escolarizadas, a ausência de políticas públicas, como o investimento em creches e escolas integrais para crianças, por exemplo, dificulta a inserção e permanência delas no mercado de trabalho. Ou seja, o capital humano das mulheres é subutilizado pelo mercado”, acrescenta a professora do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da UFRN.

Assim como a professora Luana Myrrha citou, o relatório do Banco Mundial também identificou algumas barreiras para a inserção da mulher no mercado de trabalho. Nesses espaços, elas costumam ser tratadas desfavoravelmente por causa do seu gênero. Há discriminação na gravidez, perseguição, assédio sexual e demissão por licença maternidade, apesar de haver uma lei que garante o direito à licença maternidade.

É necessário políticas públicas que sejam capazes promover uma maior equidade de gênero na nossa sociedade. O trabalho doméstico e de cuidados apesar de não remunerado e invisibilizado é o que garante a sustentabilidade da vida humana e do próprio mercado. Os trabalhadores e trabalhadoras são vão trabalhar após ter recebido algum tipo de cuidado (café da manhã, roupa lavada e passada, casa arrumada, etc...) , mesmo que seja o autocuidado. Contudo, sabemos que geralmente esse é um trabalho feito por mulheres...  Portanto, a mudança principal refere-se a cultural em relação à responsabilização do cuidado, afinal, o cuidado do domicílio, crianças e idosos, devem ser responsabilidade dos adultos daquele domicílio e não apenas das mulheres. As mulheres se inserem cada vez mais no trabalho produtivo, aquele que é remunerado e fora de casa. Mas o inverso não vem ocorrendo, pois os homens ainda cuidam muito pouco dos afazeres domésticos e das pessoas ao seu entorno.  Uma mudança cultural é de longo prazo e uma política importante para ajudar nessa mudança é a maior licença a paternidade ou licença parental, que envolve os homens no cuidado da criança desde o nascimento”, sugere. 

Tendências

O relatório do Banco Mundial aponta que o Brasil tem seguido a tendência dos países desenvolvidos e da América Latina: as mulheres frequentam a escola por mais tempo que os homens. Porém, mulheres casadas ganham, em média, 24% menos que aquelas que não casadas. Outro detalhe é que elas gastam, em média, 30 horas a mais no trabalho doméstico e ganham 33% menos do que as mulheres que não dedicam tempo a tarefas domésticas.

Pelo estudo, a desigualdade para o desenvolvimento e futuro aproveitamento do ICH no mercado de trabalho aumentou em vários estados, inclusive, no Rio Grande do Norte.

Desigualdade no Índice de Capital Humano aumentou no RN I Fonte: Banco Mundial

Além disso, quase metade dos brasileiros acredita que ser dona de casa e ter um trabalho remunerado são igualmente gratificantes; mais de 1/3 das mulheres considera que ganhar mais que os maridos é um problema; e 1/5 das mulheres acha que os homens são melhores executivos ou líderes políticos que as mulheres.

“Enquanto uma mudança cultural ainda não acontece, é urgente o planejamento e implementação de políticas públicas que permitam as mulheres exercerem seu trabalho fora de casa. Políticas como creches e escolas integrais e gratuitas, casas de passagem para idosos, instituições de longa permanência, maior licença entre outras... E esse é um momento histórico no Brasil pois, pela primeira vez, será proposto pelo governo federal uma política nacional de cuidados. Esperamos que esse seja um importante passo para o nosso país em direção de uma maior equidade de gênero”, comenta a professora do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da UFRN.

Políticas públicas

Em Natal, por exemplo, por causa da falta de vagas na rede pública de ensino, a prefeitura fez um sorteio das vagas nas creches do município, deixando 1,2 mil crianças de fora em 2024.

Importante pontuar que no Brasil e no Nordeste há mais mulheres do que homens em idade ativa e mais mulheres escolarizadas. Portanto, a subutilização desse potencial demográfico, com maior capital humano, com certeza é um prejuízo para a economia. As empresas que têm maior diversidade de gênero, principalmente em cargos de liderança, têm apresentado resultados muito positivos. Para além do maior capital humano, as mulheres, no geral, têm boa capacidade de gestão de tempo e pessoas, empatia, horizontalidade nas relações e maior respeito com a equipe, resiliência e flexibilidade, características que geralmente melhoram a produtividade do grupo e contribui para bons resultados na empresa”, ressalta a professora do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Luana Myrrha.

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Essa reportagem faz parte do projeto “Ser Mana, Mulher", idealizado pela Agência SAIBA MAIS para produção de pautas dedicadas a temas que impactam diretamente a vida das mulheres, ao tempo que contamos as histórias de Mulheres.

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