Trancistas: a valorização da cultura afro-brasileira na Zona Norte
Natal, RN 2 de mar 2024

Trancistas: a valorização da cultura afro-brasileira na Zona Norte

11 de dezembro de 2023
8min
Trancistas: a valorização da cultura afro-brasileira na Zona Norte
O trabalho de uma trancista pode levar de 8h a 12h para ser concluído. Foto: Freepik

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O trabalho de trancistas na valorização da beleza e cultura negra é imprescindível. A técnica ancestral africana vai além de simplesmente trançar os cabelos, é de preservar, ampliar, reforçar e valorizar a identidade preta. Em Natal, especialmente na Zona Norte, os trancistas resistem e ampliam seus trabalhos empoderando e embelezando pessoas negras.

A história dos trancistas e das tranças remonta às tradições africanas e desempenha um papel crucial na cultura e na estética. Nos dias de hoje, muitos afroempreendedores tiram seus sustentos trançando os cabelos nos mais variados penteados e estilos, como as Tranças Nagô e Box Braids que carregam história, simbologia e beleza. 

A ocupação de Cabeleireiro Étnico e Trancista é reconhecida pelo Ministério do Trabalho desde 2009. Porém, esses profissionais precisam enfrentar muitos desafios para conseguir se manter de pé. Em Natal, se o profissional for da Zona Norte, a batalha é dobrada. Isso quem conta é Lucas Freire, proprietário do Estúdio Lucas Afroateliê, que fica no Brasil Novo, no bairro de Pajuçara, Zona Norte da capital. 

É muita dificuldade ter um espaço na Zona Norte, sabe? Porque a galera que mora lá do outro lado, em grande maioria, tem um pensamento muito limitado do que é a Zona Norte. Tô cansado de escutar ‘ah, e é na Zona Norte? Eu achei que não era, eu achei que era aqui do outro lado mesmo. Infelizmente, não vai dar pra eu ir.’ Ou até mesmo, alguns clientes que decidem vir e falam: ‘nossa, foi até fácil de achar. Eu achei que ia ser mais difícil”, desabafa o cabeleireiro. 

O trancista descreve como isso é chato, porque não era um problema que ele enfrentaria morando ou trabalhando na Zona Sul.

Fazendo um comparativo, a maioria da população da Zona Norte vive na Zona Sul, pra trabalhar, pra servir eles. Porque as oportunidades, querendo ou não, acabam sendo lá. O investimento da cidade é mais lá. As decorações de Natal estão mais lá. Então, até hoje se tem essa visão totalmente desumana da Zona Norte”, avalia o cabeleireiro lembrando o quanto isso ainda impacta na sua clientela.

O ser trancista enquanto profissão 

Lucas sempre amou a estética das tranças e quando criança era apaixonado por elas.

Acho que o ser trancista sempre esteve comigo”, contou.

Inclusive, sempre que via uma trança ele já tentava fazer nas primas e de primeira conseguia. Mas foi somente no ensino médio que ele veio a fazer sua primeira box braids, trança que mistura fios sintéticos com o cabelo natural, podendo ser de várias cores e tamanhos, em sua amiga que queria começar a transição capilar. A transição capilar é quando a pessoa decide deixar de fazer química no cabelo, como as progressivas, para assumir os fios naturais, principalmente cachos e crespos.

Ela já não aguentava mais ter que pranchar e alisar o cabelo. Fora o cheiro de formol, que às vezes durava uma semana no cabelo. E eu a apoiei, e assim rolou; ela passou a transição inteira fazendo tranças com linhas de lã”, relembra. 

O cabelo da amiga, que trabalhou um período de auxiliar de trancista com ele, foi o primeiro de muitos.

Eu aprendi tudo sozinho. A gente vai aprimorando várias técnicas, vai vendo vários vídeos na internet”, completa.

Outro problema que o profissional enfrenta é a desvalorização do seu trabalho. O trancista revela que é muito comum as pessoas quererem impor valor ao seu trabalho. 

“No início da profissão isso me abalava muito, porque já eram preços baixíssimos que eu tentava fazer, e eu sentia que mesmo assim a galera não abraçava. E tipo, do início da profissão até agora, eu sinto que as tranças e a identidade visual e cultural negra têm sido cada vez mais abraçada, mais ‘vestida’ mesmo. Então, eu acho que é um processo realmente de empoderamento que tem surgido”, pontua.

Além do valor, é necessário reconhecer que esse processo é longo e trabalhoso.

A gente fica de 8h a 12 horas de pé traçando um cabelo. Sai com as mãos, os pés e as costas acabadas. E é triste não poder cobrar o valor necessário porque as pessoas não valorizam. É como se fosse uma profissão do: ‘Poxa, isso é só uma trancinha’”, finaliza. 

Tranças como um modelo de resistência

Esse orgulho de recontar a história e preservá-la é uma batalha que homens e mulheres pretas enfrentam sempre que decidem trançar seus fios crespos, cacheados ou lisos. Iasmim Cruz, que mora em Nova Natal, no bairro Lagoa Azul, revela que desde que colocou box braids nada mais tirou sua autoestima.

Iasmim Cruz com tranças feitas por Lucas Afroateliê. Foto: cedida

A estudante conta que até pouco tempo era difícil encontrar um salão de beleza especializado em cabelos crespos e cacheados. E essa falta de conhecimento, por muito tempo, afetou a autoestima dela e de inúmeras meninas pretas que não enxergavam beleza em seus cabelos naturais. 

Poder contar com pessoas como Lucas e tantos outros e outras, que trabalham enaltecendo a beleza dos cabelos de pessoas com curvatura, em sua maioria negras, é um avanço grande na manutenção da autoestima do povo preto”, pontuou Cruz. 

Vale lembrar, que durante o período de escravidão no Brasil, as tranças eram utilizadas para identificar as diferentes tribos africanas, além de serem usadas para enviar mensagens ou utilizadas como mapas para as rotas de fuga, como aponta o artigo “Longa História de Penteados com Tranças”, do pesquisador e tricologista Evandro Carvalho.

As tranças fazem parte da história do afro-brasileiro. Elas significam cuidado, beleza e conexão com nossa ancestralidade.”, lembrou Iasmim. “Quando coloquei as tranças do modelo box braids não tinha olheira que derrubasse minha autoestima”, finalizou. 

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Essa reportagem faz parte do projeto "Saiba Mais de perto", idealizado pela Agência SAIBA MAIS, e financiado com recursos do programa Acelerando Negócios Digitais, do ICFJ/Meta e apoio da Ajor.

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