“Fugi da prisão”: superação torna Chico Filho imortal em Martins
Natal, RN 24 de fev 2024

“Fugi da prisão”: superação torna Chico Filho imortal em Martins

10 de dezembro de 2023
7min
“Fugi da prisão”: superação torna Chico Filho imortal em Martins

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Até os 16 anos de idade, Chico Filho só costumava sair até o quintal de casa. Pela porta, vias as árvores do terreiro, mas não ia muito longe. A deficiência física que o acometeu aos três anos de idade e o pouco dinheiro para uma cadeira de rodas limitava seu caminho até para ir à escola. Só ganhou a primeira cadeira aos 16 anos, presente de uma tia. Mesmo assim, um dia ele tomou uma decisão que mudou sua vida. Foi a partir dela que Chico, hoje Chico Chapéu Filho, se tornou conhecedor do mundo, escritor, membro da Academia de Letras e Artes de Martins e comunicador na cidade serrana da região Oeste do Rio Grande do Norte, a 370 quilômetros de Natal.

Chico Filho nasceu em 28 de janeiro de 1967. Quinto de nove irmãos, viveu com o pai e a mãe até os 18 anos quando resolveu “fugir da prisão”. A prisão a que Chico se refere, na verdade, era sua própria casa.

“Imagina você, um jovem deficiente físico, que mesmo com todo amor e zelo da família, tenha sido criado em meio a desinformações e restrições; talvez por excesso de zelo. Eu me sentia ameaçado de perder a minha já limitada liberdade e essa ameaça vinha de minha mãe. Fadado a viver em um canto de parede, entregue ao acaso, planejei minha fuga de casa, e aos 18 anos fui parar em Mossoró, que para mim, era os Estados Unidos (risos)”.

Quase entrando na vida adulta, essa foi a virada de chave na vida de Chico. A viagem incluiu uma simulação de um estudo na casa de um amigo, que o ajudou a embarcar de ônibus para Mossoró. O plano era para, dali partir para outra cidade ou estado, ele relata, mas a viagem foi dura. Como nunca tinha andado de carro, passou mal durante todo o trajeto e chegou sem ter como ir para outro lugar. Nos anos 80, a presença de uma figura alheia à cidade chamou a atenção das rádios mossoroenses, quando uma tia o identificou e ali ele permaneceu.

Antes eu não socializava, não tinha condições de sair de casa, de ter amigos, de conhecer pessoas... Foi lá que eu comecei a socializar. Fiz trabalhos de comunidade de base, catequese, evangelização, trabalhando na comunidade, organizando festas, preparando pais e padrinhos para os batizados e hoje agradeço tudo isso a essa fuga”, explica.

Autodidata, além de trabalhar, Chico Filho passou a estudar mais.

Mesmo não tendo o privilégio de ter frequentado uma sala de aula, o desejo de ser escritor era intenso dentro de mim e desde muito cedo o sonho de ter meus pensamentos impressos no papel foi embalado através da leitura, influenciada pelo meu amado e sábio pai Chico Chapéu (In memoriam)”.

Nessa época, chegou a procurar trabalho em rádios em Mossoró, porque sempre acreditou que assim poderia chegar mais perto das pessoas, informar e fomentar opiniões. Todavia, apesar de ter um projeto de programa embaixo do braço, não encontrou espaço.

Quando passo por situação discriminatória, fico imaginando outras pessoas que passarão por aquilo e que não terão coragem de revidar, mas jamais permiti que minha condição física interferisse em minha vida; a pessoa humana tem por dever trabalhar pela sua ascensão, independentemente de qualquer situação”.

Dez anos depois, Chico voltou para Martins. Retornou à terra natal decidido entrar para a política. Para ele, todos nós somos políticos, até mesmo aqueles que dizem não gostar. O escritor defende que é “algo sagrado, pois é através dela que o coletivo se beneficia”.

Apesar de não ter sido eleito, dois anos depois alcançou outro objetivo. Foi convidado pelo padre Walter Collini a trabalhar para a Rádio Minha Vida FM, em Martins, onde apresenta, até hoje, dois programas, um musical aos domingos, o Brega Total, e outro de segunda à sexta, de notícias e comentários, o Rádio Cidadão.

Daí em diante, vieram as outras realizações, os “filhos literários”, como ele mesmo se refere a seus livros. O “filósofo autodidata”, como se denomina Chico, lançou em 2014 o Filosofia de Um Burro, “com as memórias de um pensador”, explica. A obra nasceu no mesmo ano em que a Academia de Letras e Artes de Martins (ALAM) foi fundada, entidade fundamental para as publicações literárias dele, através da Dra. Taniamá Vieira da Silva Barreto, presidente da Academia.

O Prazer na Loucura de Pensar e Filosofia de Um Burro II vieram em seguida, concretizando o sonho do literato, que prepara atualmente um 4º livro.

O amor à filosofia é um dos elementos presentes na sua produção.

Descobri que filosofia abrange todas as pessoas. Se a gente pensa, raciocina, constrói ideias e pensamentos, a gente é filósofo. Costuma-se pensar naqueles grandes intelectuais filósofos acadêmicos, mas todos nós somos capazes de filosofar”, constata.

Apesar de tudo, o comunicador, escritor e imortal não se considera um filósofo e nem se define uma pessoa importante.

As pessoas me consideram filósofo, então eu adotei essa nomenclatura de ‘filósofo autodidata’. Leio para melhorar como pessoa, é importante ter acesso a conteúdo, histórias, fatos, para melhorar. Sou Chico Filho, uma pessoa melhor que ontem, e buscando incessantemente aprender, para amanhã ser melhor que hoje”, finaliza.

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Essa reportagem faz parte do projeto "Saiba Mais de perto", idealizado pela Agência SAIBA MAIS, e financiado com recursos do programa Acelerando Negócios Digitais, do ICFJ/Meta e apoio da Ajor.

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