População faz mobilização pela volta de Cherie para Caicó
Natal, RN 2 de mar 2024

População faz mobilização pela volta de Cherie para Caicó

15 de dezembro de 2023
11min
População faz mobilização pela volta de Cherie para Caicó

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A cidade de Caicó, no Rio Grande do Norte, vivencia uma luta coletiva em prol de conseguir o resgate de Cherie, uma Yorkshire, de 6 anos de idade, que desde 2018 estava sob responsabilidade de seu tutor, Josinaldo Souto, contador. Em agosto deste ano, a ex-companheira de Josinaldo, Stephane Aparecida, enfermeira, que morava em Natal, foi morar em Brasília e levou com ela a cachorra.

Cherie foi adquirida pelo casal em 2017. Ocorreu que, ainda em 2017, houve rompimento do relacionamento e, de início, a cadelinha foi para Natal, onde Stephane Aparecida, enfermeira, passou a morar e trabalhar. Porém, nada foi favorável para que Cherie permanecesse na companhia de Stephane: a cadelinha, que sempre tinha alimentação em horário determinado e passeios frequentes, passou a ficar muito tempo sozinha, complicando para horário de refeição e, consequentemente, tendo problema de saúde. Diante disso, a partir de 2018, a própria Stephane pediu que Josinaldo ficasse com Cherie, em Caicó, e ela teria contato quando tivesse mais disponibilidade, ou seja, uma espécie de “guarda compartilhada”.

Na companhia de Stephane, em Natal, Cherie chegou a adoecer, por passar muito tempo sozinha em casa, já que Stephane trabalhava em plantões. A comida ficava muito tempo na vasilha, de forma que quando comia, ela vomitava e tinha diarreia. Então, Stephane pediu que Josinaldo fosse buscá-la. Josinaldo foi imediatamente, mas foi combinado que Stephane iria ter contato com Cherie quando tivesse disponibilidade. E assim permaneceu, até esta situação dela ser sequestrada por Stephane, da casa da minha tia, aqui em Caicó, no mês de agosto”, diz Carla Murieli, enfermeira, e cuidadora de Cherie.

Carla Murieli também relata situações em que Stephane, talvez para causar pavor ou contrariedade em Josinaldo, menciona no whatsaap que a cadelinha faleceu, sendo mentira. Em outra ocasião, ela também relata que Cherie estava com dificuldade para comer e ela ia deixa-la com fome. Carla tem prints destes relatos e nesta última quinta-feira (14), eles vieram a tona em matéria veiculada na imprensa do Distrito Federal.

Tudo que estamos fazendo é por ela. Cherie chegou a adoecer e ficar com problemas de pele porque ficava em Natal sem tomar banho. Houve um fato, nestes seis anos, como um dia em que eu estava trabalhando e ela, para contrariar Josinaldo, mandava mensagem, dizendo que Cherie tinha morrido, que ela tinha dado palmada e ela tinha infartado e morrido. Corri pra lá e Cherie estava bem. Perguntei o porquê de ter feito isso, e ela disse que não tinha nada para falar. Tenho também print dela, dizendo que, por ela, deixava a cadelinha morrendo de fome, porque não estava querendo comer”, diz Carla.

Ano passado, em 2022, Stephane Aparecida foi aprovada em concurso, em Brasília, Distrito Federal, e, a partir disso, passou a insistir em levar a cadelinha. Josinaldo ainda propôs a continuidade da guarda compartilhada, de forma que ele ficaria com Cherie seis meses e ela também seis meses. Stephane foi irredutível e, em agosto deste ano, no horário de trabalho de Josinaldo, ela chegou na casa da cuidadora, de surpresa, pegou Cherie nos braços e entrou no carro com um motorista, levando a cadelinha sem conhecimento de Josinaldo.

Diante disso, Josinaldo iniciou uma verdadeira saga para ter de volta sua Cherie. Ele registrou boletim de ocorrência imediatamente. Porém, com o passar dos dias, sentindo angústia pela falta de resultados concretos, Josinaldo tomou uma decisão precipitada e arriscada de ir à Brasília e resgatá-la.

Em 10 de dezembro, Josinaldo foi até as proximidades da residência de Stephane e avistou Cherie no passeio com o companheiro dela. Acompanhado de um amigo, ele resgatou Cherie e com toda documentação dela, em mãos – cartão de vacina, identidade, documentos de consultas - Josinaldo viajou de avião, de Brasília até João Pessoa, Paraíba. Chegando em João Pessoa, ele foi surpreendido com profissionais da Polícia Federal, que rastrearam Cherie e descobriram seu paradeiro, através da coleira com chip.

Depois de prestar depoimento, e apresentar toda documentação de Cherie, inclusive, comprovação de seu acompanhamento nas consultas e vacinações, Josinaldo retornou para Caicó. E apesar de toda documentação apresentada por ele, Cherie foi devolvida para Brasília.

Em Caicó, a população tomou conhecimento do fato através do instagram, com páginas de notícias do Distrito Federal noticiando vídeo do momento do resgate de Cherie. A indignação foi unânime entre as pessoas, pois Cherie já faz parte do cotidiano da cidade, sempre passeando na Ilha de Sant’Ana, socializando com todos, com seu tutor Josinaldo, caminhando ou de bike.

Na matéria divulgada  no Distrito Federal, Josinaldo é associado a “sequestrador” desconhecido, sem vínculo com a cadelinha. Pouco tempo depois, outras matérias passaram a ser veiculadas em que Stephane Aparecida refere-se a Josinaldo como um “ex-inconformado” que teria “raptado” Cherie, como forma de atingi-la pelo fim do relacionamento. Porém, ela não menciona que, desde 2018, Cherie permanecia em Caicó, talvez numa tentativa de levar as pessoas a acreditarem que a cadelinha morava com ela em Natal.

Diante da situação, as pessoas de Caicó começaram a criar grupos de whatsaap, em apoio a Josinaldo Souto e fazer mobilizações nas redes sociais pedindo o retorno de Cherie para Caicó. Em pouco tempo, a mídia de Caicó, Natal e João Pessoa alcançou o espaço da mídia do Distrito Federal.

Amigos, familiares, veterinários, comerciantes de petshop, influencers digitais, vários profissionais de diferentes áreas estão compartilhando imagens, matérias e gravando vídeos de apoio a Josinaldo Souto. No próximo sábado, dia 16, às 17h30, acontece mobilização na Ilha de Sant’Ana reunindo tutores de pets e todos que estão sensibilizados pela causa, em prol do resgate de Cherie e de apoiar Josinaldo Souto.

O verdadeiro tutor que paga todas as despesas, que dar afeto, amor, atenção, todo mundo em Caicó sabe que é Josinaldo. Ele nunca foi de se envolver em polêmica. Isso foi um momento de desespero. Espero que Cherie volte logo”, sintetiza Carla Murieli, cuidadora de Cherie

Josinaldo registrou boletim de ocorrência na Delegacia da Polícia Civil quando Stephane Aparecida raptou Cherie, em agosto, porém ele não havia divulgado na imprensa. Sobre o fato de ter tentado resgatar Cherie, ele destaca que está arrependido de ter agido de forma impulsiva, mas que está confiante que vai conseguir reverter esta situação para permanecer com Cherie.

Primeiramente, espero que a mídia repasse minha história que é a verdadeira. Espero que o processo judicial tenha agilidade aqui em Caicó, porque agora o que pode ser resolvido, é judicialmente. É a esperança que eu tenho. Eu me arrependi do que fiz, mas o principal agora é conseguir agilizar esse processo para ter Cherie de volta”, diz Josinaldo.

O advogado da causa de Josinaldo e Cherie, Alex Alexandre, explica os procedimentos que foram tomados até o momento e destaca que foi expedido despacho do juiz para intimá-la.

Quando Cherie foi levada de Caicó, por Stephane, para Brasília, Josinaldo fez boletim de ocorrência. Tentamos no plantão judicial, uma liminar, mas foi indeferida com argumento que ela não tinha endereço certo. Paralelo a isso, foi ouvido Josinaldo, Dona Luziene Medeiros e Carla Murieli, e estranhamente não foi ouvida Stephane. Foi arquivado esse Boletim. Judicialmente houve a primeira tentativa de citação para o processo de Stephane, mas, o oficial de justiça não localizou. Peticionei informando endereço de Brasília e foi expedido despacho do juiz para intimá-la”, explica Alex Alexandre, advogado de Josinaldo.

Sobre o contexto da história do tutor Josinaldo e Cherie, Juliana Rocha, advogada, especialista em Direito Animal e presidente da Comissão de Direito Animal da OAB/RN, destaca que os animais são seres sencientes, que é a capacidade de sentir emoções, um fator que deve ser considerado no contexto da proteção animal.

A gente tem que trabalhar a partir da premissa que o cuidado do animal passa, não somente pela parte física, como alimentar, não bater, cuidados veterinários, mas, também é importante pensar no psicológico, porque ele tem medo, fica alegre, tem afetividade, e em alguns lares ele tem o tutor favorito. Isso é comprovado cientificamente, porque ele tem senciência”, destaca Dra Juliana Rocha

Outro fator primordial é que o animal é sujeito de direito. “Na hora que eu tenho uma constituição que diz que não deve ter atos de crueldade com animais, ele é sujeito de direito. Partindo da premissa que ele  é sujeito de direito, ele não pode ser desconsiderado dentro do processo, então, casos que envolvem questões emocionais devem ser analisadas em busca do bem estar do animal”, enfatiza Juliana.

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Essa reportagem faz parte do projeto "Saiba Mais de perto", idealizado pela Agência SAIBA MAIS, e financiado com recursos do programa Acelerando Negócios Digitais, do ICFJ/Meta e apoio da Ajor.

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