Casa paroquial guarda história de Lampião em Marcelino Vieira
Natal, RN 20 de abr 2024

Casa paroquial guarda história de Lampião em Marcelino Vieira

2 de janeiro de 2024
8min
Casa paroquial guarda história de Lampião em Marcelino Vieira
Açude da Caiçara, ou açude do Junco, local original do combate de 10 de junho de 1927 (foto: lampião aceso)

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Nem só de Mossoró vive a famosa passagem do bando de Lampião pelo Rio Grande do Norte, em 1927. Na região Oeste, a cidade de Marcelino Vieira, a 427 quilômetros de Natal, tem na Casa Paroquial da Paróquia de Santo Antônio uma das principais relações com a história que até hoje mexe com o imaginário da região.

Conta a história que Lampião e seu bando vinham pelo sertão potiguar executando furtos e terror a caminho de Mossoró, em junho de 27. Chegaram até a Fazenda Aroeira, no município de Luís Gomes, distante 50 quilômetros de Marcelino Vieira e 203 quilômetros de Mossoró. A fazenda pertencia a José Lopes de Oliveira e a sua esposa Maria José Lopes. ⠀⠀

Enquanto supervisionava as obras de um açude, Seu José foi surpreendido pelo Bando de Cangaceiros e foi levado para conversar com Lampião. Fixado o valor de 40 contos de réis para o resgate, e vendo que seu José era muito idoso, Lampião decidiu levar como refém a esposa do homem, Dona Maria José, que na época tinha 63 anos de idade.

Antes de partir em viagem levado Dona Maria José, o bando quebrou móveis, furtou objetos, tomou cachaça e comeu a comida da Fazenda e a dos trabalhadores da obra de construção de uma barragem do açude, obra supervisionada por Seu José. Lampião e o bando partiram levando Dona Maria José como refém em um cavalo, indo em direção à Vila Vitória, hoje município de Marcelino Vieira. De 10 de junho de 1927, ela passou 16 dias como refém do bando, ficando em esconderijos sem água e sem comida e presenciando as perseguições e atos de vandalismo e violência dos bandidos pelos pontos onde passavam.

Fogo da Caiçara

Durante esta passagem de Lampião pelo sertão potiguar, foi em Marcelino Vieira que ocorreu o primeiro combate do bando com as forças militares no RN.

Próximo à povoação de Vitória, atual município de Marcelino Vieira, atacaram as primeiras casas do sítio conhecido como “Caiçara, ou “Caiçara dos Tomaz”. Eram práticas comuns os saques, ameaças aos proprietários e seus familiares, invasões, depredações e outros crimes. Decidiram pernoitar no cume de um grande lajedo, o Lajedo de João Brandinho, localizado na atual fazenda de João Batista. Foi onde aconteceu o primeiro pernoite do bando de Lampião no estado.

Amanhecido o dia, logo cedo partiram em direção aos sítios Cascavel e João Bento, hoje município de Pilões, a 375 quilômetros de Natal. Contudo, antes disso, atacaram os sítios Poço Verde, Poço de Pedra e a fazenda que pertencia ao pecuarista, líder político local, Marcelino Vieira da Costa, coronel que mobilizou uma tentativa de resistência ao bando.

Foi aí que aconteceu o episódio Fogo da Caiçara, o primeiro combate militar contra Lampião e seu bando no Rio Grande do Norte. Na Serra de Panati, a seis quilômetros de onde pernoitaram, o bando perdeu o cangaceiro Patrício de Souza, o Azulão, e Marcelino Vieira perdeu o soldado José Monteiro de Matos, tido hoje como valente defensor do município.

Após o combate, em que levaram vantagem sobre os sentinelas de Marcelino Vieira, os homens de Lampião seguiram rumo à cidade de Mossoró, em mais quatro dias de viagem.

Mossoró

Historiadores registram que no dia do ataque à cidade de Mossoró, Dona Maria José e outros reféns estavam escondidos no subúrbio da cidade, sendo vigiados por outros cangaceiros.

Após a resistência de Mossoró e a frustração dos bandoleiros, eles partiram em retirada rumo ao estado do Ceará. Foi nesse contexto que Dona Maria José acabou sendo fotografada junto ao bando, na famosa foto do bando na cidade de Limoeiro do Norte (CE).

Neste ponto, Lampião decidiu deixar os reféns irem embora. Conta-se que havia percebido a dificuldade de manter as pessoas e receber o dinheiro do resgate, devido à distância que tomavam das suas cidades de origem. Dona Maria José e as outras pessoas foram levadas por Sabino Gomes e outros quatro cangaceiros. Após entregarem queijo e dinheiro para a viagem de volta, os homens informaram ainda sobre uma casa onde os libertados teriam orientações do caminho de volta para casa.

O ataque em Mossoró foi no dia 13 de junho, dia de Santo Antônio e no meio tempo dessa adversidade, Dona Maria José fez uma promessa ao santo. Como devota, prometeu que se fosse libertada, doaria um terreno à Capela de Santo Antônio, destinado à construção de uma Casa de apoio, a conhecida Casa Paroquial.

Promessa cumprida, a Casa Paroquial fica localizada na rua Monselhor Walfredo Gurgel, nº 05, Centro. Revitalizada, ao longo dos anos permanece cultuada como parte da história de Marcelino Vieira.

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Essa reportagem faz parte do projeto "Saiba Mais de perto", idealizado pela Agência SAIBA MAIS, e financiado com recursos do programa Acelerando Negócios Digitais, do ICFJ/Meta e apoio da Ajor.

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