São João do Sabugi realiza “Zé Pereira” há mais de 100 anos
Natal, RN 5 de mar 2024

São João do Sabugi realiza “Zé Pereira” há mais de 100 anos

14 de janeiro de 2024
13min
São João do Sabugi realiza “Zé Pereira” há mais de 100 anos
Foto Dercílio Morais - Festa do Zé Pereira na praça pública

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São João do Sabugi, através de aprovação na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte e sanção da governadora Fátima Bezerra, recebeu, em 17 de julho de 2023, o título de "Capital Potiguar do Frevo”. A cidade, que também tem título oficial de “Terra das Artes”, tem marcante na sua história a Filarmônica Honório Maciel, fundada em 1926 por Honório Maciel, pernambucano, tio do famoso compositor pernambucano Capiba. Isso privilegiou a filarmônica em receber partituras dos frevos pernambucanos e, com isso, frevos lançados em Pernambuco ao mesmo tempo eram lançados em São João do Sabugi.

Antes mesmo da existência da Filarmônica Honório Maciel, já havia em São João do Sabugi a famosa festa do Zé Pereira que, desde 1918, acontece na madrugada do domingo de carnaval. Na festa carnavalesca do Zé Pereira, a cidade adormece e acorda ao som de frevo e de chocalhos, usados como acessório das roupas dos papangus mascarados. A orquestra de frevo, no chão, anuncia que o Zé Pereira, um desconhecido que usa cabeça gigante, está à frente da multidão. Ele é sempre vestido de paletó e dança rodopiando no frevo, sendo a grande incógnita, até a culminância do percurso.

A concentração dos papangus acontece no “Cruzeiro”, no alto da Avenida Honório Maciel. A partir dali a multidão de papangus segue o Zé Pereira. Na frente ele salta, faz passos de frevo, rodopia e sente-se – porque é! – o “rei da festa”. Somente depois da multidão invadir as ruas, subindo e descendo ladeira, afunilando-se nas ruas estreitas e lotando as ruas largas, é que na Praça Antônio Quintino de Araújo, por volta das 5h, o folião misterioso retira a cabeça gigante e sabe-se quem é o "Zé Pereira".

A escolha do folião que vai representar o Zé Pereira é feita por Luciano Morais que, além de ser um dos organizadores do evento, também confeccionou a cabeça, usada atualmente pelo Zé Pereira, inspirada na cabeça feita por José Dilamar de Azevedo, “Dila”,  nos anos 70. A cabeça gigante é feita em armação de arame, coberta com papel de cimento e grude. Entre as estratégias para preservar o anonimato do Zé Pereira, Luciano Morais decide quem vai convidar, somente na véspera do evento.

Zé Pereira e Luciano Morais 

O bom é ninguém conhecer e ficar os comentários entre as pessoas, tentando descobrir. Uma única vez repetiu o Zé Pereira, que foi Fernando Jorge, de Ipueira. Sempre sou eu que faço o convite e escolho algumas horas antes, para evitar que o folião comente com alguém. Na praça, eu tiro a cabeça do Zé Pereira para revelar,” explica Luciano Morais.

Antes do período carnavalesco, geralmente ainda em janeiro, é comum pequenos grupos de crianças andarem nas ruas durante o dia, vestidas de papangu. Elas usam máscaras de papel machê coloridas, tem chocalho amarrado na cintura e passam pelas calçadas brincando de assustar as pessoas. Vez ou outra, uma criança de dentro de casa, ou adulto brincalhão, grita pela janela “papangu, bolão de angu!”, e ali começa a correria dos papangus, fazendo barulho com seus chocalhos. É a forma de saudar a chegada do período momesco, fazendo referência a festa do Zé Pereira.

Minha paixão pelo Zé Pereira começou na infância, quando eu saía com os primos fantasiados, todas as tardes, vestidos de papangus. Como criança, o sonho era poder sair na madrugada com o Zé Pereira. Na infância eu não saía na madrugada, mas ia para a praça com minha mãe ou meu pai, assistir a chegada. Lembro-me que no final, os papangus jogavam as máscaras pra cima, então, eu corria para pegar uma daquelas máscaras. A ideia era guardar e usar como papangu no ano seguinte...” relembra Daniel Soares França, 34 anos, que todos os anos participa do Zé Pereira.

Daniel França, “Biel”, conta que sua fantasia é idealizada bem antes do carnaval e sempre com muito sigilo para ninguém tomar conhecimento de qual sua fantasia. Além da curiosidade em saber quem é o Zé Pereira, também existe entre os foliões a vontade de descobrir quem são aqueles papangus de roupas e máscaras tão criativas.

Trabalho minha fantasia bem antes do carnaval num sigilo grande. Até minha máscara eu faço, ou compro em ‘cima da hora’ pra não ter como as pessoas saberem. No Zé Pereira fica uma galera tentando descobrir quem são os papangus, então, quando a gente passa entre eles e comentam que a fantasia está bonita, mas, desconhecem quem seja, é gratificante e a gente se envolve, cria uma paixão de cada ano fazer uma fantasia melhor”, comenta Biel.

Mesmo sem identificarem-se, os papangus cumprimentam-se, e na praça, dançam em círculo abraçados, até que o Zé Pereira seja identificado. Este é o ápice da festa.  

Máscaras | Foto: Zacarias Medeiros

Carnaval sem Zé Pereira não é carnaval. A gente desce na avenida, tentando descobrir quem são os papangus, quem é o Zé Pereira, e quando chega na praça, é  todo mundo dançando juntos, mas, na expectativa grande de saber quem é, e também conhecer quem é aquele papangu que desceu com você, abraçado, pela avenida”, destaca Biel França.

As oficinas de máscaras passaram a ser muito solicitadas, principalmente a partir do título oficial de “Capital do Frevo Potiguar” conquistado pela cidade. Nas escolas da rede municipal e estadual, crianças e adolescentes já tiveram oportunidade de aprender a fazer máscaras carnavalescas, que podem ter como referências personagens, cores do frevo ou qualquer outra inspiração.

As máscaras de papel machê são confeccionadas pelos foliões ou artesãos da cidade e ganham vida no rosto de crianças e adultos. Entre muitos artesãos estão João Batista Medeiros - o “Batista de Lêda”, e João Zacarias Medeiros – “Bebel”, que o ano inteiro fazem artes que remetem ao período carnavalesco.

João Batista tem produzido máscaras e traz a inovação de imãs de geladeiras com máscaras dos papangus, participando inclusive de exposições, como no Projeto Seridó Criativo, itinerante, que visitou a cidade em 2023. Além das máscaras, Zacarias tem produzido chaveiros com máscaras em miniatura e fez uma escultura em argila, em formato de cone, tendo como centro a cabeça do Zé Pereira usando gravata; e ao longo do cone, vários papangus, de máscaras antigas e atuais.

Chaveiros | Foto: Zacarias Medeiros

João Zacarias, além de fortalecer a cultura do carnaval local, através das suas artes, também faz de sua oficina o lugar de concentração dos papangus, na noite que antecede a madrugada de festa do Zé Pereira.

Há 29 anos comecei a confeccionar as máscaras e fazia na oficina, então, comecei a fazer para vender ao pessoal que se aglomerava por lá, antes de sair para o Zé Pereira. Ter a oficina como um lugar para reunir os papangus, é um incentivo. Eu não posso deixar isso morrer, eu tenho que cativar isso. Eles chegam as 20h do sábado e saem na madrugada do domingo. As vezes são 40 ou até 50 papangus e a gente escolhe uma rua pra eles chegarem todos de uma vez, então o pessoal já fica na expectativa de por qual rua, vai chegar a turma dos papangus da oficina,” comenta.

Além de artesão, Zacarias também é um dos foliões que se veste de papangu, usa máscara e festeja o Zé Pereira desafiando os mais espertos a descobrirem quem é o sabugiense por trás do papangu folião. Nestes quase 30 anos fazendo máscara, a do centenário do Zé Pereira, em 2018, foi uma das mais marcantes.

Já em cima da hora eu fiz uma máscara no ano do centenário, com um bolo de dois andares e os 100 anos na máscara. As pessoas gostaram muito e ficavam admiradas”, relembra satisfeito.

De acordo com informações do historiador João Quintino, professor da UFRN, a tradição do Zé Pereira chegou ao Brasil movida pela saudade que um sapateiro, residente no Rio de Janeiro, sentia de sua terra, Portugal, no período do carnaval.

A troça do Zé Pereira teria sido introduzida no Brasil em 1852, por um sapateiro português estabelecido na Rua São José, no Rio de Janeiro - RJ, de nome José Nogueira de Azevedo Paredes, saudoso das tradições de sua terra natal, associadas ao período do entrudo carnavalesco. Com raízes nas tradições rurais portuguesas, cujo som típico seria o do bombo chamado "zé-pereira", o agrupamento folião espalhou-se pelo Brasil, chegando em Ouro Preto – MG, onde o Zé Pereira do Clube dos Lacaios é o mais antigo em atividade no país, fundado em 1867 pelo próprio José Nogueira de Azevedo Paredes, que também residiu na então capital mineira”, explica João Quintino.

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Essa reportagem faz parte do projeto "Saiba Mais de perto", idealizado pela Agência SAIBA MAIS, e financiado com recursos do programa Acelerando Negócios Digitais, do ICFJ/Meta e apoio da Ajor.

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