Promessa tornou areia-branquense 1ª mulher condutora do Samu no RN
Natal, RN 5 de mar 2024

Promessa tornou areia-branquense 1ª mulher condutora do Samu no RN

18 de janeiro de 2024
11min
Promessa tornou areia-branquense 1ª mulher condutora do Samu no RN

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Uma mulher guerreira, uma mulher danada mesmo. É assim que se define a potiguar, areia-branquense, Vanécia Fernandes. Ela diz que sente orgulho de si mesma e que se existe um sonho, o primeiro passo para conseguir é não desistir. Foi com esse lema que a técnica de enfermagem conseguiu se tornar a primeira mulher condutora do Serviço Ambulatorial Móvel de Urgência, o Samu, do Rio Grande do Norte. Marco na história do Serviço, a profissional já iniciou sua atuação na base descentralizada do Samu em Areia Branca, município da Costa Branca, no Oeste Potiguar, a 282 quilômetros de Natal.

Vanécia Fernandes tem 39 anos. Natural de Areia Branca, viveu a infância na Praia de São Cristóvão, distante 25 quilômetros da área urbana da cidade. Quando tinha 15 anos, fez uma viagem de férias à Brasília e acabou ficando por lá por 18 anos. Divorciada, tem duas filhas, Sthefany, de 20 anos, e Ana Luiza, de 8 anos. Para ela, as duas, além dos dois irmãos de Vanécia, do pai e da mãe, são o combustível para não desistir nunca e buscar realizar tudo que deseja.

Foi justamente uma estória de família que a levou a se tornar técnica de enfermagem. Ela, que sempre admirou o trabalho de cuidado e dedicação dos enfermeiros e técnicos, nunca teve pretensão de se tornar um deles. Até o dia em que passou por uma prova.

No final de 2019, meu pai foi acometido de uma enfermidade. Foram 40 dias de hospital e eu estive lado a lado com ele, acompanhando o dia a dia e a realidade do lugar e de outras pessoas. Em um dos momentos mais críticos, meu pai sussurrou no meu ouvido e pediu para que eu chamasse minha mãe e meus irmãos, que ele queria se despedir porque não tinha mais forças para continuar. Para mim, foi um dos piores momentos. Eu nunca aceitei, os médicos diziam ‘minha filha aceite, não tem mais jeito para a situação do seu pai’. E eu sempre batia de frente: ‘meu pai entrou aqui trazido pelas mãos de outras pessoas, mas vai sair desse hospital caminhando com as próprias pernas’, eu dizia. Eu me prostrei no chão, chorei e pedi a Deus para renovar as forças dele, fiz um voto com Deus de que a minha missão seria dedicar a minha vida para ajudar o próximo”, narra.

Ao amanhecer o dia, o pai teve uma melhora significativa. Ela não teve dúvidas que aquilo foi resultado da sua fé. No dia seguinte, a primeira ação foi ir ao Hemocentro e se tornar doadora de sangue. Depois disso, foi em busca de cursos de socorrista, de técnico de enfermagem e “buscar novos conhecimentos”.

Mãe e filha protetora, sem “papas na língua”, resiliente e centrada no que quer, Vanécia também se diz tranquila, reservada e tímida, mas a voz ganha força quando fala sobre a família e seu trabalho.

“É algo que eu amo, amo a minha profissão, a responsabilidade de estar no volante, de conduzir em segurança a equipe e a vítima. Amo estrada, amo a direção. Eu hoje não me vejo fazendo outra coisa. Procuro sempre estar me aprimorando, me qualificando. Quando a gente faz o que a gente gosta, o saber é muito bom”, afirma.

Atualmente, o Samu RN conta com aproximadamente 220 condutores de ambulância. Para se tornar a primeira mulher do estado nessa função, a técnica de enfermagem percorreu uma longa estrada. Como pré-requisito básico e essencial para pleitear a vaga, foi necessário realizar com êxito o curso básico de Condução de Veículo de Urgência e Emergência, de 50 horas. Além disso, é necessário possuir carteira de habilitação D ou E e não ter cometido infração grave ou gravíssima nos últimos 12 meses.

A etapa seguinte da seleção consiste na realização do processo admissional, conduzido pelo Núcleo de Educação Permanente do Samu RN, na base de Macaíba. Esse processo é composto por provas teóricas e práticas de suporte básico de vida, prova de volante e de aptidão física. Após a conclusão dessas etapas, a candidata comprovou sua aptidão e cumpriu os chamados “plantões sombra”, seis no total, com carga horária equivalente a um mês de trabalho. Aprovada, finalmente foi considerada apta a exercer a função de condutora de ambulância.

Ela sabia que se vencesse todas as etapas se tornaria a primeira mulher entre os 220 motoristas do Samu RN. Teve conhecimento de duas mulheres que tentaram cerca de um mês antes dela, mas foram eliminadas nas etapas do processo. O que Vanécia não sabia era que isso ia tomar uma proporção tão grande.

“Nós mulheres somos totalmente capazes de exercer qualquer função. Eu entendo que a gente não busca medir forças, buscamos nosso espaço como profissionais e mulheres, não queremos ser melhores que os homens, mas nós temos as nossas particularidades e ninguém segura uma mulher quando ela se dedica”, garante.

Ela observa que, “por incrível que pareça”, tem tido uma aceitação muito maior dos homens do que das mulheres desde que assumiu a condução da ambulância do Samu.

Acho até hilário, porque os homens têm me aplaudido, e muita mulher critica, mas isso não mexe comigo, o que importa é o que eu acredito, busquei e amo fazer. Se você gosta de ficar num escritório, cada um faz o que quiser, está onde quiser. O interessante é que seja respeitado, tem que ter respeito”, analisa Vanécia.

Para ela, a intenção mesmo foi sempre ajudar o próximo e leva consigo o ensinamento dos pais, de “fazer o bem sem olhar a quem”. A técnica de enfermagem gosta de atuar como parceira e auxiliar do profissional de saúde.

Temos que falar a mesma língua, o serviço Samu é tempo-resposta”, explica.

Nesse meio “tempo-resposta”, as experiências são muitas e marcantes. Ela narra que às vezes “dá um nó na garganta”, como quando o acompanhante do paciente senta ao lado dela durante o socorro e acaba “se abrindo” ou quando, em situação de acidente, não consegue entregar o paciente com vida no hospital.

Para que a experiência seja positiva por mais vezes, ela busca se aperfeiçoar sempre, para fazer valer a vivência e a convivência com cada um que cruza seu caminho.

A gente nunca sabe quando e com quem a gente vai usar o conhecimento que tem. A gente nunca sabe tudo, sempre temos alguma coisa para aprender e para ensinar também”, finaliza.

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Essa reportagem faz parte do projeto "Saiba Mais de perto", idealizado pela Agência SAIBA MAIS, e financiado com recursos do programa Acelerando Negócios Digitais, do ICFJ/Meta e apoio da Ajor.

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